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Pearl s buck
A FLOR OCULTA

COLECO DOIS MUNDOS
EDIO LIVROS DO BRASIL LISBOA

PRIMEIRA PARTE

O jardim era silencioso. Alm dos seus muros nenhum eco de passos podia ser ouvido acima do suave, incessante chapinhar da cascata. O silncio fora organizado, como 
todas as coisas neste jardim o haviam sido, embora tudo parecesse disposto pela prpria natureza. Assim, do lado da rua, a gua fora elevada pelo mais moderno sistema 
de canalizao, oculto atrs de rochas, para criar um riacho que desse a impresso de correr das alturas. Um pequeno outeiro, truncado, meio escondido por bambus, 
erigido contra o alto muro de pedras, fora projectado de tal maneira que assumia a dignidade de um contraforte das montanhas atrs da cidade. Sobre o lado rochoso 
do outeiro, o riacho espargia-se em sucessivas quedas para um lago profundo e transparente. Trs grandes pinheiros, curvados pela idade, inclinavam-se para o lago 
e nele reflectiam a sua imagem. Mesmo em nmero to reduzido, criavam a atmosfera de uma floresta ao longe.
A casa, situada ao norte do jardim, era inteiramente japonesa. Grande, mas de telhados baixos. Bambus suavizavam os seus ngulos inclinados, e, quais cortinas apanhadas, 
deixavam aparecer os tabiques de rtulas, recobertos de papel. A casa, que era construda de madeira, sem pintura, tomara uma cor prateada, produzida pela ptina 
do tempo. Reinava a Primavera e, contra o suave acinzentado da madeira, florescia
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grande nmero de azleas. O sol acendia nas flores um brilho escarlate, laranja e amarelo-dourado.
Era meio-dia. No seu gabinete, o Dr. Sotan Sakai ergueu a cabea do manuscrito em que trabalhava, olhando pelas portas abertas. O jardim estava irresistvelmente 
belo. Pousou a caneta de tinta permanente e, ao levantar-se da esteira do soalho, percebeu com orgulho ntimo que as suas longas pernas no estavam entorpecidas. 
Custara-lhe o esforo de alguns anos retornar aos costumes e hbitos do seu prprio povo, aps a juventude passada nos Estados Unidos. De incio fora-lhe insuportvel 
cruzar as pernas diante da mesa baixa e, permanecendo nessa posio, escrever durante horas consecutivas. Tinha, no entanto, decidido que venceria as dificuldades, 
do mesmo modo como se resolvera a abandonar aquele pas para regressar  sua terra natal. Tomara essa deciso por ser um homem orgulhoso e no suportar a ideia de 
um campo de concentrao e o regresso ao Japo. Escolhera o Japo.
O orgulho frreo f-lo volver de todo aos seus ancestrais. Comprara a velha residncia de famlia do Baro Kazuko, fora da cidade de Kyoto. A famlia Kazuko, empobrecida 
pela guerra, passara a viver em retiro total depois que seus filhos pereceram na China. O baro recolhera-se a um mosteiro budista no topo da montanha prxima a 
Unzen, na Ilha de Kyushu, e a esposa voltou para a sua prpria famlia. Os Kazuko j no existiam. Em seu lugar e na sua casa viviam agora Sotan Sakai, sua mulher 
e a filha, Josui. Tinham tido um filho, Kensan, cinco anos mais velho que Josui ao sarem da Amrica. Kensan, porm, no se mostrara disposto a voltar, indo para 
o campo de concentrao, onde se oferecera espontneamente para o servio de guerra. Perecera na Itlia.
A morte do filho solidificou a inteno do Dr. Sakai de ser japons. Kyoto fora poupada pela guerra. A velha capital permanecia a mesma de h uns mil anos ou mais, 
tendo apenas surgido alguns edifcios modernos. Estes, todavia, no conseguiam impor-se a construes antigas e venerveis como
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o templo Higachi-Hongan-ji ou aos palcios cujos grossos telhados de colmo tinham sido o orgulho de geraes de colmeiros imperiais. Eram os jardins dos palcios 
que constituam agora para o Dr. Sakai a fonte de descobertas do seu secular pas, e deles tirara ideias de rochas, lagos, rvores ans e musgos. Sobretudo o jardim 
da Casa Shokintei, no Palcio Imperial Katsura, pareceu-lhe especialmente belo com o seu manso correr das guas, a ponte de pedestres, as rochas, as rvores esparsas 
e os arbustos, conjugando intimidade e extenso.
Quando chegou afinal o termo da guerra, o Dr. Sakai manteve-se afastado das tropas de ocupao e dos seus comandantes. Desde que se firmara na cidade como primeiro 
clnico de medicina ocidental, a sua posio estava assegurada. O povo no podia dispens-lo. Tratava a todos que o procuravam com igual carinho, ou quase igual. 
Era porm cauteloso quanto a situaes que se lhe deparavam, considerando um dever ressuscitar a antiga cortesia para com os aristocratas, as tradicionais famlias 
que viviam agora em isolamento. No considerava incongruente a confiana que nele depositavam.
Finalizado o seu trabalho dirio num hospital moderno e amplo, regressava a sua casa, trocava o vesturio e recomeava a escrever o seu livro intitulado "Enfermidades 
por Carncia". Acumulara vastos conhecimentos neste sector, durante os anos do seu regresso. Secou agora cuidadosamente a caneta, antes de dirigir-se lentamente 
para o jardim. Ela representava, em sua casa, a nica concesso aos hbitos americanos. O tradicional pincel era por demais lento. Mas talvez no se devesse consider-la 
uma concesso, j que a maior parte dos japoneses usava caneta e lpis em lugar do pincel. Eram fabricados no Japo e o Dr. Sokai considerava a pena de qualidade 
superior s americanas. A grafia dos lpis, porm, era dura de mais.
Parado junto  ampla porta que era apenas o tabique de rtulas, corrido para trs como uma cortina, Sakai regozijava-se
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de novo com o seu jardim ou, antes, quase se regozijava. Conhecendo cada um dos seus pormenores, no resistia  tentao de procurar folhas cadas ou um provvel 
formigueiro, maldosamente surgido durante a noite, capaz de prejudicar-lhe a perfeio. No desejava aborrecer-se procurando o jardineiro para exigir explicaes 
por no ter removido tais acidentes. Cerrou as plpebras e meditou por alguns instantes, murmurando parte de uma sutra. Ao abrir os olhos novamente, viu o seu jardim 
com nova perceptibilidade, resplandecente  luz do sol, exactamente como desejava v-lo.
A meditao no era fcil para ele. Passara a mocidade nas ruas agitadas de Los Angeles, vendendo verduras e, flores que ajudara seus pais a plantar em cinco acres 
de terra fora da cidade. O dinheiro para frequentar a escola obtivera-o trabalhando, e ganhara bolsas de estudos para a Faculdade de Medicina. Na Amrica no havia 
tempo para a meditao. Tinha sido impelido para ela ao voltar ao Japo e a aprendera a meditar em como se aprende a tocar um instrumento musical, a flauta de cinco 
orifcios, por exemplo, com que se deleitava ao anoitecer.
Passada a guerra, s lhe ficara uma nica preocupao e esta dizia respeito a sua filha Josui. Quando os pais escolheram voltar para o Japo, Josui era uma criana 
- uma adolescente de quinze anos. Apenas a perplexidade e o medo a fizeram sair da Amrica sem oferecer resistncia, pois, quanto ao resto, nem sempre fora dcil 
e obediente. Ficara apavorada com a atitude das suas companheiras de estudo, sempre to agradveis e amigas, at o dia em que, de repente, se tornaram inimigas. 
Os seus rostos encantadores transformaram-se em semblantes rspidos e um aspecto severo tomou o lugar dos sorrisos. Josui no conseguira compreender essa mudana 
repentina e queixara-se  sua melhor amiga, Polly Andrews, filha do merceeiro que comprava verduras ao seu av:
- Mas, Polly, eu sou a mesma pessoa de antes!
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- No, no s! - retorquira Polly. - Es uma japonesa e eu odeio-te.
Josui no dissera mais nada. No voltara a frequentar a escola e poucos dias depois, quando seus pais embarcaram no navio, acompanhara-os num silncio angustiado. 
A terra que considerava como sua, onde nascera, e cujo idioma era o nico que falava, tinha-a rejeitado e desprezado. No entanto, ainda no estava apta a aceitar 
o Japo, porque sua av lhe falara de mais na condio das mulheres de l. Permanecia em estado de dvida; sentia-se a salvo enquanto vivesse em casa do pai, porm 
incerta quanto ao futuro.
O prprio Dr. Sakai adivinhava o estado de alma da filha e era esta a causa da sua inquietao. Agora que Josui contava vinte anos, que fariam com ela? O casamento 
no podia estar longe, especialmente para uma moa to linda, mas que espcie de casamento? Ele recebera propostas, mas fora bastante prudente para no as apresentar 
 filha, pois era quase certo que Josui as recusaria imediatamente. Jamais lhe falara em casamento e proibira sua esposa Hariko de faz-lo. O caso era delicado, 
e pretendia tratar dele szinho. Uma palavra fora de propsito poderia fazer com que Josui recusasse casar-se.
Permaneceu algum tempo  porta e depois, trocando os seus chinelos de palha por tamancos, desceu pelo caminho at ao lago e a ficou a observar o espargir da cascata. 
O ar primaveril estava impregnado de vida nova. Ele era um homem que controlava frreamente a sua imaginao e no se permitia o prazer de sentir a estao do ano. 
Smente as preocupaes em torno de Josui se tornavam mais acentuadas. Que influncia iria ter sobre sua filha a Primavera deste ano? No ano passado tomara-se de 
certa agitao, que o Dr. Sakai compreendera perfeitamente, pois estudara psicologia como parte necessria  medicina. Corpo e alma eram inseparveis, tanto na sade 
como na doena. Ministrara-lhe sedativos incuos e incumbira-a de dactilografar as primeiras cem pginas do seu manuscrito, diriamente, ao voltar da escola. O calor 
comeara
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cedo e a inquietao de Josui transformara-se em apatia. O Dr. Sakai convencera-se, contudo, de que sob a aparente doura de sua filha se escondia uma natureza ardente. 
O casamento impunha-se, portanto, e sem demora.
Olhou para o relgio de ouro, encoberto pela manga larga das suas vestes. No hospital trajava  moda do Ocidente; em casa, porm, aprendera a preferir a ampla veste 
de seda escura, com faixas na cintura, chinelos sem taco e, no jardim, tamancos grosseiros. Assim vestido sentia-se mais  vontade.
Era quase uma hora. Josui estava atrasada. Por onde andaria? O almoo j devia estar pronto, embora os criados, certamente obedecendo s ordens da dona da casa, 
ainda no o tivessem chamado. Estavam  espera de Josui.
Franziu as sobrancelhas, esquecendo o jardim. Se ela no chegasse dentro de quinze minutos, no esperaria mais. Amava sua esposa simples e silenciosa, mas quando 
Josui estava tambm presente, as refeies tornavam-se mais agradveis. Mesmo assim, no seria indulgente para com a filha. Dentro de quinze minutos entraria em 
casa e faria a sua refeio. Se, ao termin-la, Josui no tivesse aparecido, ordenaria que fossem retirados os pratos da mesa. A ordem dentro de sua casa no devia 
sofrer alteraes. s duas horas voltaria ao hospital a fim de visitar os seus doentes.
No teve, porm, de tomar aquela providncia, porque exactamente dez minutos aps, Josui chegava. Ouviu soar a sineta de bronze presa do lado de fora do porto que 
se abriu e tornou a fechar. Os sapatos ocidentais de Josui ressoaram vivamente no caminho de pedras, e, logo depois, a criada saudou a jovem.
O Dr. Sakai ficou  espera, ainda a fitar o lago, com as costas voltadas para a casa. Era dever da filha ir procurar o pai. Um momento depois ouviu-lhe a voz suave:
- Estou em casa, pai!
O dr. Sakai voltou-se sem sorrir.
- Chegaste tarde, minha filha.
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- A culpa no foi minha, pai -replicou ela.
Vendo-a ali no jardim, toda iluminada pelos raios do sol, chegou a sentir medo da sua beleza. Ela viera assim pelas ruas, da Universidade para casa! Os seus cabelos 
negros luziam, os grandes olhos escuros brilhavam: o calor dera um colorido rosado s suas faces e tornara-lhe rubros os lbios. Tinha mudado de roupa nos poucos 
minutos que passara no interior da casa e vestia um quimono verde de fazenda macia. Pelo menos no andara assim vestida pelas ruas da cidade. As suas vestes escolares 
eram desgraciosas.
- Como no foi tua a culpa? - interrogou com voz severa.
- Havia soldados americanos nas ruas - explicou ela. - Eram muitos. Todas as pessoas tiveram de esperar. - E tu, onde esperaste?
- Parei no vo de entrada do hospital para no ficar no caminho.
O Dr. Sakai resolveu no falar mais no assunto.
- Entremos para almoar. Tenho pouco tempo. No gosto de chegar tarde ao hospital.  um mau exemplo para os mdicos mais jovens.
Josui conhecia o rigoroso sentido de responsabilidade do pai e apressou-se a apresentar desculpas.
- Sinto muito, meu pai! - disse em japons, sabendo quanto ele gostava de a ouvir falar a sua lngua. Ela, porm, dava preferncia ao ingls..
-j explicaste que a culpa no foi tua -replicou.
Adiantou-se, caminhando na frente, com as mos atrs das costas, passeando o olhar de um para outro lado do caminho.
-Observa esta azlea - disse. - Nunca esteve to linda!
-  maravilhosa - concordou Josui.
Prestou ateno ao timbre de voz da filha, assim como iria observar mais tarde a sua fisionomia e cada um dos seus movimentos, para sondar, se possvel, o que lhe 
ia no corao.
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No teria sossego enquanto no a visse casada e no suportaria passar outra Primavera com essa preocupao. Uma filha representa um fardo mais precioso que qualquer 
outro, e tambm mais pesado.
Josui percebera a secreta observao de que era alvo por parte de seu pai, durante o almoo. Notara-lhe a constante ateno, sabia que se preocupava com ela e reconhecia 
intimamente as razes dessa preocupao.. Ocultava-lhe a sua verdadeira personalidade. Ele nada sabia acerca dos seus pensamentos ou do que ela era na realidade. 
Embora se comportasse de maneira impecvel na sua presena, ele suspeitava, sem fazer da suspeita uma acusao, que esse procedimento correcto no revelava a sua 
verdadeira natureza. E nisso o Dr. Sakai tinha razo. Josui vivia uma vida dupla naquela casa, no por insatisfao, mas por excesso de energia. Muitas vezes pensava 
que essa energia provinha do facto de ter vivido na Califrnia at aos quinze anos, bebendo leite de vacas nutridas com trevo e cereais, e comendo frutas, legumes 
e carne. O seu corpo transbordava de sensibilidade e vigor. O seu esprito era vivo, atento e curioso. Era inteiramente diferente das demais raparigas japonesas, 
plidas e silenciosas, que a observavam com admirao e desagrado. Chamavam-lhe "a americana" e Josui no protestava.
- Voc tem o andar das mulheres americanas - dissera Haru - Mishima.
De vez em quando viam-se algumas americanas na cidade, ainda que no em to grande nmero como em Tquio e Osaka. Observando-as, Josui chegara  concluso de que, 
realmente, o seu caminhar se assemelhava ao delas. No, andava com as pontas dos ps viradas para dentro e as suas pernas eram direitas. No entanto, adorava a pequena 
Haru com o seu passinho saltitante de pomba, embora no soubesse por que motivo, excepto que costumava simpatizar fcilmente com as pessoas, talvez pelo prprio 
excesso de vitalidade. Ainda que a
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sua alimentao j no constasse de leite, po, manteiga, ovos e carne, como acontecia na Amrica, servia-se abundantemente de arroz, peixe e hortalias. Sua me, 
observando-a nesse dia comeou a rir.
- Quem diria que s filha de um homem culto? - disse. Comes como a filha de um campons.
Estavam sentados no cho, com os joelhos dobrados, em redor da mesa baixa onde estavam colocados os alimentos. A criada pusera diante de cada um uma tigela laqueada, 
contendo uma sopa fina em que boiavam uma fatia recortada de rabanete e uma folhinha verde de alface do mar. Trs tigelas com peixe e legumes estavam dispostas no 
centro da mesa e Yumi, a empregada, passava arroz seco e branco de um recipiente de madeira para outras tigelas, tambm de madeira, laqueadas de preto e ouro. Inclinava-se 
apenas ligeiramente ao pr cada uma das tigelinhas no seu lugar. Uma inclinao mais profunda tornara-se despropositada desde a ocupao e a democracia. O Dr. Sakai, 
no entanto, exigia uma ligeira reverncia. A criada sentia-se satisfeita com essa imposio, pois evidenciava que naquela casa havia um amo, embora no fosse costume 
o chefe comer em companhia da esposa e da filha. Os Americanos  que tinham esse hbito, assim ouvira Yumi das outras serviais, no mercado. Seu amo era, portanto, 
um pouco menos que um legtimo japons, porm algo mais que um americano. Assim o classificava e sentia-se satisfeita.
Observando secretamente a filha, o Dr. Sakai inquietou-se com o colorido das suas faces. Habitualmente rosadas, agora estavam rubras.
- Estiveste parada ao sol enquanto passavam os americanos? - perguntou.
- Sim - respondeu Josui. - Deixei a sombrinha em casa esta manh. No imaginei que o sol se tornasse to forte. Quando tommos a primeira refeio, havia nuvens 
sobre as montanhas.
- Essas nuvens anunciam sempre um cu lmpido para o
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meio-dia - declarou o Dr. Sakai. -  do lado do mar que devemos esperar chuva.
A Sr Sakai olhou para Josui.
- De facto ests muito vermelha. Depois do almoo deves aplicar um pouco de p de arroz. O rosto assim vermelho d um aspecto vulgar s raparigas.
- Antes no fosse filha nica! - exclamou Josui, entre sorridente e amuada. - Os pais no fazem outra coisa seno analisar-me.
Ambos desviaram o olhar.
- O tokonoma (') precisa ser arranjado novamente amanh - disse a Sr Sakai.
O tokonoma estava situado em frente do jardim. Da extremidade da sala onde estavam sentados  mesa podia ver-se o ramo de salgueiro em boto e as flores de ameixieira 
que se inclinavam sobre a pequena urna de incenso. Na vspera, Josui colocara um sapo de bronze sob as flores pendentes da ameixieira. Smente se podiam colocar 
trs objectos no tokonoma, no mais.. O Dr. Sakai contratara uma das melhores professoras da cidade para instru-la nestes assuntos. Era uma viva, baixa e franzina, 
que vivia com o filho e a famlia deste numa pequena casa cinzenta, junto ao Rio Katsura.
- Amanh colherei flores de pessegueiro - disse Josui.
- A tigela de quartzo cor-de-rosa seria apropriada para as flores de pessegueiro - observou o Dr. Sakai.
A atmosfera, que se tornara um pouco tensa, voltou assim  tranquilidade. Josui no disse mais nada; passava-lhes atenciosamente os pratos, mantendo-se em silncio 
para lhes evitar a desaprovao. Se o irmo fosse vivo, teria podido repartir com ele o peso do intenso amor dos pais. E teria, igualmente, compartilhado com ele 
as suas recordaes da Amrica. Talvez at a tivesse convidado a ir visit-lo, pois j ento ele e a noiva
(1) Tokonoma: Recanto onde se dispem os objectos de adorno na sala duma casa japonesa. (N. do T.)
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estariam casados e com filhos. A noiva casara com outro homem, depois de transcorrido o perodo de luto, e nunca mais tiveram notcias dela. No obstante, Josui 
ainda se recordava muito bem dela. Era uma jovem delicada, viva, que usava os cabelos negros densamente anelados em redor do rosto redondo
e plido. Vestia roupas americanas de cores alegres, calava sapatinhos de salto alto e uma vez fora eleita rainha da Primavera no Ginsio de Los Angeles. Sempre 
que Josui pensava nela, era como rainha da Primavera, usando um vestido prateado com lantejoulas e uma coroa de lato sobre os cabelos recm-ondulados. O pai era 
o ministro da igreja crist. A famlia Sakai sempre fora budista, o que causava srias preocupaes  famlia dela. No era o budismo uma espcie de paganismo? Isso 
provocara atritos entre o irmo e os pais de Josui. O Dr. Sakai no desejava ver o filho casado numa igreja. Nada disso, porm, tinha importncia agora, pois o casamento 
nunca se realizara. No dia marcado para a cerimnia, o irmo j estava morto, a famlia crist encontrava-se no Arizona, atrs de arames farpados, e a famlia Sakai 
vivia ali, em Kyoto. Ningum em casa se referia quela data, mas Josui sabia que os pais se lembravam. Quanto a ela, fora ao jardim e, escondida atrs de um penhasco, 
chorara pelo irmo.
- Takashi Matsui convidou-me para tomar ch em sua companhia - observou o Dr. Sakai neste momento. - Como
o convite foi feito h cinco dias, a tarde de hoje  indicada para aceit-lo. -Terminara a refeio e saboreava o ch de cor verde desmaiada que tanto apreciava.
Takashi Matsui era o seu doente mais abastado. Sofria de uma vescula biliar rebelde, mas opunha-se a uma operao. No era, ainda, um homem velho; dos seus trs 
filhos, um encontrava-se prisioneiro na Rssia, outro fora morto durante
o ataque a Nanquim e o terceiro era hoje um jovem. A existncia do ltimo filho dava nimo aO Sr. Matsui. Acreditava que o Japo nunca mais entraria em guerra e, 
portanto, ele poderia conservar ao menos esse filho. No estava escrito na
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nova constituio que o Japo nunca mais se rearmaria? Fora exigncia dos conquistadores americanos. Por esse motivo Takashi Matsui prodigalizava o seu dinheiro 
e o seu amor ao filho mais novo. Parecera-lhe intil dar educao aos outros dois filhos, pois era inevitvel que fossem convocados para as foras armadas e provvelmente 
pereceriam durante as grandes guerras preparadas pelos homens que ento se encontravam no poder; mas Kobori estava agora na Universidade de Tquio.
A famlia Matsui era muito antiga. O ramo de Kyoto, embora no fosse o mais importante, era o mais conservador;
Takashi Matsui era sem dvida o primeiro, e ainda, a bem dizer, o nico homem que reiniciara a cerimnia do ch, aps
o final da guerra. Uma vez passado o perodo de ocupao
e restaurada a independncia do pas, o Dr. Sakai planeava construir, sob as indicaes dO Sr. Matsui, uma casa de ch prpria, no mais afastado recanto do seu jardim, 
onde reinava silncio. Muitos japoneses modernos ridicularizavam a antiga cerimnia do ch, mas o Dr. Sakai no tolerava essa atitude na sua presena. Considerava 
muito importante ressuscitar, o mais cedo possvel, os velhos rituais e costumes do pas, a fim de que o esprito japons pudesse tambm reviver. Na cerimnia do 
ch, a meditao sobre a arte e a natureza estava conjugada ao agradvel convvio social e ao prazer de pratos deliciosos. O Dr. Sakai servira-se com moderao ao 
almoo porque sabia que  tarde o esperava um lauto jantar, que comearia com uma sopa cremosa de feijo, continuaria com pratos de peixe, caa e verduras, e terminaria 
com outra sopa leve
e doces. Haveria tambm o ch verde, consistente e de suave aroma, feito de folhas pulverizadas, seleccionadas entre as mais tenras colhidas de velhas rvores que 
vegetavam  sombra.
Transcorrida a cerimnia, cuja durao era de quatro horas, talvez se apresentasse a oportunidade para uma palestra reservada com o seu anfitreo e, se tal acontecesse, 
deixaria o
 velho cavalheiro falar nos filhos. Isso o levaria, seguramente, a mencionar o precioso terceiro filho, e dele a conversa se
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encaminharia, como j acontecera duas vezes, para Josui, sua nica e preciosa filha.
Nem o pai nem a filha fizeram qualquer referncia ao que lhes ia na mente enquanto terminavam o almoo em silencio. Kobori, o filho dO Sr. Matsui, estava agora em 
idade de casar. Contava dois anos mais que Josui. Nos velhos tempos, os dois pais teriam arranjado tudo, mas sabiam que isso j no era possvel na poca actual. 
As bombas atmicas lanadas sobre Hiroshima e Nagasaki tinham destrudo mais que tijolos e argamassa, ou mesmo vidas humanas. O Dr. Sakai ainda no falara  filha 
a respeito do rapaz, mas informara a esposa de que Kobori desejava o matrimnio e que Josui devia pensar no assunto. A me repetira essas palavras  filha. Josui 
pensara, mas no conseguia chegar a uma deciso. Sentia-se intimamente inquieta e sem o menor desejo de pensar em Kobori. No o odiava, isso era certo. Nenhuma jovem 
seria capaz de odiar um rapaz de fsico to apresentvel, educao cuidada, srio e altivo. Josui via-o muitas vezes, nunca com encontro marcado, apenas por mero 
acaso. Ele frequentava a Universidade em Tquio, mas ia passar os feriados a casa. Ainda havia poucas semanas o encontrara na festa das flores de cerejeira; um jovem 
alto de olhos castanhos. Josui sentia-se perfeitamente  vontade na sua companhia, tanto mais que ele enrubescia ao v-la. Tinha a pele extraordinriamente clara, 
a testa muito alta e percebia-se logo quando corava. Ela admirara-lhe o rosado das faces, a alvura da pele, e, com a franqueza americana que lhe era prpria, elogiara 
a roupa ocidental de cor cinza clara que vestia. Mas, apesar de admir-lo, no se apaixonara por ele, facto que lhe causava surpresa, pois andava ansiosa por apaixonar-se. 
O seu corao palpitava, pronto para o amor. Nada mais queria seno amar um homem e tornar-se sua esposa. Sentia o desejo e o anseio de ser subjugada pelo amor, 
de entregar-se inteiramente. Quando, todavia, olhava para Kobori, o seu corao teimoso afastava-se dele e o desejo morria.
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Precisara dominar uma estranha vontade de responder bruscamente  sua voz suave e de desviar o rosto daqueles olhos grandes e oblquos que brilhavam de amor. Que 
direito lhe assistia de am-la tanto e to abertamente, quando ela nunca lhe dera o menor sinal de estmulo?
Pensamentos rebeldes como esses se digladiavam no seu ntimo enquanto terminava silenciosamente a refeio e se levantava da mesa, inclinando-se diante dos pais. 
Tinha que voltar imediatamente ao colgio, pois j estava um pouco atrasada. O Dr. Sakai e sua esposa aceitaram a reverncia da filha e permaneceram ainda  mesa 
por algum tempo tomando o seu ch. Josui deixou-os, dirigiu-se para o seu quarto e trocou o quimono pelas roupas escolares. No ps chapu mas, lembrada dos comentrios 
sobre o rubro das suas faces, levou a sombrinha de seda verde para proteger o rosto do sol. O seu vesturio consistia numa saia-e-blusa, de listas verdes e brancas, 
 maneira americana, mas Josui duvidava que correspondesse  moda usada ento pelas raparigas de vinte anos na Amrica. As mangas eram longas, abotoadas nos punhos, 
e a saia ia quase at aos tornozelos. A gola era alta, mas, mal ultrapassou o porto da casa, desabotoou-a para sentir um pouco mais de ar.
A rua estava em silncio quando atravessou o porto do jardim. Os americanos, provavelmente, tinham-se espalhado pela cidade desejosos de visitar os pontos mais 
interessantes. Muitas vezes chegavam em grupos barulhentos, de Tquio ou Osaka, com a inteno de passar um feriado em Kyoto; possvelmente, pensava ela, porque 
os seus guias de turismo diziam que ali prevalecia ainda intacta a antiga cultura japonesa. Ouvira dizer que os bombardeiros americanos durante a guerra, tinham 
recebido ordens para no destruir Kyoto, assim como os japoneses haviam poupado Pequim. Seu pai no acreditara que Kyoto escapasse  destruio, porque no julgava 
os americanos capazes de dar valor  cultura. "Somos obrigados
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a escolher entre a selvajaria do comunismo e a vulgaridade da Amrica", queixava-se s vezes. .
Seu pai era um extremista nas opinies, pensava Josui repetidas vezes e sempre com satisfao, certa de que, acima de todas as acusaes, essa era a que o Dr. Sakai 
negaria com maior violncia, caso ela tivesse a coragem de express-la abertamente. Empenhava-se em obter tranquilidade; lutava pela paz espiritual; queria punir 
a Amrica, imaginava Josui, por t-los mandado embora, e o castigo era amar nicamente o Japo e todos os seus velhos hbitos e crenas. Que tolice representava 
a cerimnia do ch e quo infantil parecia o procedimento de homens adultos que se sentavam, solenemente, numa pequenina casa no jardim, o olhar perdido no espao, 
 espera de que lhes fosse servida uma sopa verde de folhas de ch pulverizadas! O pai dissera-lhe que o ch continha muitas vitaminas e, alm da beleza e do sentido 
espiritual da cerimnia, representava um alimento para o corpo. Josui no gostava do ritual. No Outono anterior, acompanhara seus pais  cerimnia do ch em casa 
dO Sr. Matsui, cerimnia  qual seu pai insistia em chamar Cha-no-Yu, embora no passasse de um simples ch, qualquer que fosse a denominao que lhe dessem.. A 
conversa, conduzida com tanto esprito, inteligncia e solenidade, s servira para aborrec-la. O Sr. Matsui recitara pequenas poesias de quatro versos como se as 
tivesse composto no momento, embora Josui soubesse muito bem que despendera horas inteiras na sua elaborao. Se algum dia se tornasse mais ntima de Kobori, no 
deixaria de dizer-lho. Mas para que esperar? Dir-lhe-ia na primeira oportunidade em que o encontrasse.
Descia a rua entregue a estes pensamentos, divertindo-se com eles, dando-lhes nfase no seu ntimo porque sabia perfeitamente que jamais teria a coragem de exterioriz-los 
em voz alta. Nem mesmo sua me lhes daria ateno e, se ela insistisse, sacudiria a cabea e taparia os ouvidos com ambas as mos, esperando pacientemente que Josui 
acabasse de falar. s vezes
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tinha vontade de gritar com a me, arrancar-lhe as mos dos ouvidos, mas no podia faz-lo. A americana terna e impulsiva que havia no seu ntimo estava recoberta 
por uma dura crosta japonesa. Era como um vulco, fechado pela prpria lava endurecida, mas fervendo e tumultuando no seu interior.
Josui olhava as ruas enquanto caminhava ao sol, projectando com a sombrinha um crculo de sombra que se movia com ela. Chovera na vspera e o verde das velhas rvores 
e dos arbustos nodosos, a beleza irradiante das azleas, florescidas em todos os parques e jardins, davam maior nfase  Primavera. Josui caminhava serenamente, 
a cabea bem erguida, enquanto respirava o ar saturado de doura. Uma vibrante energia impregnava-lhe o sangue, impelindo-a para a frente. Sentia mpetos de correr 
pelas ruas, com os braos bem abertos. Costumava correr assim na Amrica, com um grupo de outras meninas da mesma idade. De braos abertos como asas, corriam quais 
pssaros em voo, rindo de coisa nenhuma. Josui nunca correra assim no Japo e to-pouco vira outras meninas correrem, nem mesmo as pequeninas. Caminhavam lentamente 
nos seus tamancos ou pesados sapatos de couro, ou ento deslizavam em sandlias de fazenda com sola de borracha, que se teriam prestado ptimamente para correr.
Josui alcanou o porto do hospital, atrs do qual ficava o colgio.. A estivera parada pela manh enquanto passavam os jovens americanos. A no ser um rpido relance 
de curiosidade, no se detivera a observ-los. Todos se assemelhavam. todos riam, falavam ao mesmo tempo, empurravam-se. As pessoas diziam que os americanos eram 
como colegiais, sempre aos empurres uns aos outros, rindo e fazendo de conta que brigavam.
"Os americanos no passam de crianas?" perguntavam.
As glicnias sobre o porto do hospital estavam em plena
florescncia. Pencas de flores roxas, pesadas como cachos de
uvas, pendiam entre as folhas verde-plido. Era a poca das
glicnias; ris e penias, e Josui amava-as. Seu pai no dava
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grande importncia s flores. A beleza do seu jardim era austera, com as suas rochas, pinheiros e lagos; smente os bambus lhe emprestavam uma nota mais amena. As 
flores que enfeitavam o interior da casa eram plantadas por sua me na horta, excepto um grupo de ris azuis, do lado norte da casa.
Como sempre quando pensava no pai, Josui sentiu-se invadida por um estranho amor em que se misturavam a admirao e o ressentimento. O seu desejo constante era que 
nunca tivessem sado da Amrica. O pai no compreendia nem tentaria compreender como a vida de uma mulher no Japo era muito mais difcil que na Amrica. Quando 
Josui relembrava as raparigas da Califrnia, pareciam-lhe jovens rainhas. Aqui, porm, as mulheres nunca eram rainhas. Eram smente vassalas que esperavam pacientemente, 
cumprindo as suas obrigaes. Era duvidoso que algum dia chegassem a ser soberanas, pois, quando os americanos tivessem ido embora - costumava, dizer o Dr.. Sakai 
- o velho Japo readquiriria os seus direitos primitivos ou, pelo menos, grande parte deles. No seria ento permitido  mocidade portar-se como agora-afirmava. 
Os americanos eram como hspedes dentro de casa; na presena de pessoas estranhas -se obrigado a permitir aparente liberdade s crianas, mas, depois que as visitas 
se retiram, impe-se o castigo aos desobedientes.
Josui suspirou, depois sentiu o intenso mas suave aroma das glicnias. Alcanara o porto do hospital e fechou a sombrinha. Algum estava parado ali, um jovem alto, 
delgado, um americano em uniforme. Encostara-se  parede, com os ps cruzados, as mos nos bolsos. josui olhou-o com assombro e ele sorriu-lhe.
- Estive  sua espera - disse o rapaz.
Demasiadamente surpreendida para poder falar, ela olhava-o fixamente, de boca aberta. Era jovem, louro e de bela aparncia. Sim, era um belo tipo de rapaz! Os olhos 
eram azuis como a flor da ris, a tez, clara e lisa. Possua dentes fortes, brancos, e boca de desenho agradvel. Tinha um aspecto
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robusto e sadio, ombros largos e cintura fina, embora o cinturo de couro estivesse bastante apertado.
Com um sorriso nos olhos, indagou:
E ento, fui aprovado?
Josui corou. Estivera a olh-lo fixamente como se se tratasse de uma estranha apario. Mas era por ele lhe no ter parecido um estranho que o olhara to demoradamente. 
Lembrava-lhe tudo o que j havia esquecido, os rapazes na escola da Califrnia, aqueles rapazes que mal comeava a notar quando seu pai resolveu to abruptamente 
abandonar para sempre a Amrica. A voz dele parecia-se com a do irmo, a maneira de falar era tal como ela a recordava.
-Ou por acaso no fala ingls? - prosseguiu o jovem.
- Falo, sim-respondeu Josui com facilidade.
O rapaz tirou reverentemente o qupi.
- Nunca fui to bem atendido numa prece - disse. - Chega a ser incrvel..
- O que  incrvel? - perguntou ela.
- Que a nica jovem no Japo a quem eu queria conhecer saiba falar a minha lngua.
Josui sorriu.
- Como podia querer conhecer-me, se nunca o vi antes?
- Esta manh voc olhou para mim, mas no me viu - disse ele. - Eu, porm, vi-a. Estava parada aqui, debaixo desse arco. No jardim de minha casa h tambm um arco 
assim, coberto de glicnias, e hoje de manh olhei para este aqui porque me fez lembrar minha me. Foi ento que a vi parada sob ele e... bem, voc estava linda.
- Estava  espera que os americanos passassem,
Ns passmos, mas eu voltei. Os outros esto agora a caminho de Nara.  uma excurso, como sabe. Estamos de licena. Poderei ir a Nara a qualquer hora. Mas calculei 
que, se voltasse para c e esperasse o tempo suficiente voc apareceria outra vez.
- Estou a caminho da escola.
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-Ainda frequenta o colgio?
-A Universidade. E agora tenho de ir, seno chego atrasada.
Ele continuou parado ali, com o qupi na mo e o sol brilhando sobre os seus cabelos louros ondulados; eram de um louro muito claro, e os olhos azuis. O rosto era 
de forma estreita, o queixo anguloso e as mas do rosto um pouco altas. A aparncia geral era de limpeza.
- Desejo muito conhec-la - disse. A sua voz era forte e grave, mas falava com suavidade.
- No posso-replicou Josui, simplesmente. -Tenho de ir embora, por favor.
- E porque no? - insistiu ele. Comeou a caminhar ao lado dela. Muito perturbada, Josui abriu novamente a sombrinha. Que faria agora? Se algum conhecido a visse 
acompanhada desse americano e relatasse o facto a seu pai, ele zangar-se-ia terrivelmente.
- Por favor, v embora - pediu ela, e apressou o passo, sem voltar a olhar para a figura esbelta a seu lado.
- Deve existir um meio de travar conhecimento com uma jovem atraente no Japo - insistiu ele. - Quem sabe se eu vou visit-la a sua casa, entrego o meu carto e 
me apresento a seus pais?
- Oh, no! - exclamou Josui. - Meu pai ficaria muito zangado!
- Porqu?
- Porque sim -respondeu ela, fora de si.
- Ele no gosta da Amrica? - indagou o rapaz com certa severidade.
- Conhece muito bem a Amrica. - Sim?
-j mormos l. Depois que principiou a guerra, samos do pas para vir morar aqui.
Tinham chegado s portas da Universidade e agora era preciso livrar-se dele. Tivera sorte em ningum a ter visto
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quela hora do princpio da tarde, quando a maior parte das pessoas se entregava  sesta por uma ou duas horas.
- No continue a acompanhar-me, por favor - disse com desespero. - Terei aborrecimentos se insistir.
- Ento vou deix-la - respondeu o rapaz imediatamente. - Mas amanh estarei aqui de novo. Este  o meu nome.
Tirou do bolso uma pequena carteira de couro, de onde retirou um carto. Estendeu-o a Josui at que ela no teve outro remdio seno aceit-lo. "Segundo-Tenente 
Allen Kennedy".
- Quer dizer-me o seu nome? - perguntou o rapaz.
Josui quis recusar, mas levantou os olhos para ele. Era to simptico, pensou, to corts, tinha uma boca to meiga no seu sorriso. Intimamente andava ansiosa por 
conhecer alguns americanos. Sentia-se s. Era difcil encontrar amigas entre as japonesas, quando nenhuma delas tinha o menor conhecimento da vida que levara por 
tanto tempo na Califrnia. At lhe tinham antipatia por isso, invejavam-na, embora fingissem gostar dela.
- Chamo-me Josui Sakai.
- Josui Sakai - repetiu ele. - No quer dizer-me onde mora?
Ela sacudiu a cabea, tomada de pnico, mas depois no pde resistir  expresso suplicante daqueles belos olhos. Sentiu um calor invadir-lhe o corpo, teve vontade 
de rir e, no atinando com o que fazer, fechou a sombrinha, correu pelo porto aberto e foi esconder-se atrs de uma moita de bambus. O rapaz aproximou-se do porto 
e ps-se a olhar para todos os lados. Depois, passado um momento de hesitao, afastou-se, mas deteve-se ainda sob o arco de glicnias. A suave fragrncia das flores 
tornara-se repentinamente intensa. No se apercebera antes. Como era possvel que no a tivesse notado? Aspirou profundamente aquele aroma de inebriante doura, 
que ficaria sempre, eternamente, ligado  encantadora
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jovem desaparecida. Deixou-se ficar, hesitante, tomado de um pressentimento para o qual no encontrava explicao. Porque caminhos iria enveredar agora, envolvido 
em que fragrncias de desejo?
Do seu esconderijo, ela viu-o olhar para cima com uma expresso de surpresa na fisionomia, depois afastar-se de sbito.
Saiu ento de trs dos bambus, quase esperando encontr-lo escondido na proximidade do porto. Mas ele no estava ali. Sentiu-se decepcionada e experimentou ao mesmo 
tempo uma sensao de alvio. Convencida de que nunca mais o veria, passou as aulas da tarde relembrando o seu rosto jovem e belo, que, embora em cada um dos seus 
traos fosse diferente do seu, lhe parecia to familiar, trazendo-lhe  mente uma parte da sua infncia que jamais esquecera.
O Dr. Sakai, reanimado como sempre pela cerimnia do ch, estava sentado junto com os outros convidados, imerso num silncio meditativo. Eram poucas, agora, as casas 
em que se realizava a cerimnia do ch em toda a sua significao espiritual. Ele considerava-se um amador, pois, no lar onde passara a infncia, na Califrnia, 
no havia casas de ch ou coisa semelhante. Seus pais tinham andado demasiadamente ocupados, procurando adaptar-se ao novo pas e, em consequncia, por demais fatigados 
para ensinar aos filhos aquilo de que ainda se lembravam. Por isso, fora com humildade que o Dr. Sakai se tornara amigo dos Matsui, ao mesmo tempo que mdico da 
famlia. Confessou ao velho cavalheiro japons que voltara como um estranho ao seu prprio pas e que precisava aprender de novo a ser um japons.
- No que eu tenha esquecido - explicara o Dr. Sakai. - Durante toda a minha vida li sobre o Japo e estudei a sua Histria, de modo que, no momento da deciso, 
sabia que tinha de voltar para a ptria. Infelizmente, agora que estou aqui, h muita coisa que preciso aprender a fazer.
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- O senhor possui a necessria disposio de esprito e tudo o mais pode ser vencido -respondera O Sr. Matsui.
Ele prprio nunca deixara as plagas do Japo, e fora com uma intensa curiosidade que acolhera o mdico de porte alto e aspecto algo severo, o qual, apesar de todo 
o seu empenho em ser inteiramente japons, continuaria americano sem o saber. Nessa mesma tarde, por exemplo, notou o zelo excessivo do Dr. Sakai. O esprito contemplativo 
no obedece  vontade. Porm, em lugar de fazer qualquer observao nesse sentido, O Sr. Matsui tratou de dar  palestra um rumo tranquilo. Portanto, tirou de uma 
caixinha forrada de seda a sua taa para ch, um tesouro que estimava acima de qualquer dos demais objectos que possua.
- Esta taa - disse - pertenceu a um dos meus amigos, j falecido. Era um mestre do Cha-no-Yu e era nesta taa que bebia sempre. Legou-ma ao morrer, porque seu filho, 
embora fosse filho nico, no queria aprender o ritual.
O Dr. Sakai recebeu a taa com exagerada cautela, apoiando devidamente os cotovelos sobre a esteira. No se segura com a mo livre uma pea de valor. Quando O Sr. 
Matsui bebia naquela taa, colocava-a na palma da mo esquerda e segurava-a com a direita. O Dr. Sakai ps-se a contemplar a taa, de um verde desmaiado, sem quaisquer 
entalhes ou desenhos. Era repousante como as guas paradas - puro crculo e curva. Ao pass-la novamente s mos dO Sr. Matsui, suspirou e deixou vagar os olhos 
em redor. O rolo de pergaminho, a lata do ch, o vaso, o braseiro da chaleira, a bandeja
e todos os demais objectos usados na cerimnia, eram belos na sua simplicidade. Os cinco convidados, todos eles homens, sentavam-se direitos sobre as pernas dobradas, 
e, no obstante,  vontade, com o esprito serenado pela perfeio do ambiente. Eram homens que possuam o senso da beleza. Eram conhecedores, compreendiam que a 
forma sem o esprito  coisa v,
e        essa compreenso conduzia-os passo a passo, em busca da beleza por amor ao esprito, at ao ponto em que o homem
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e a natureza se fundem em absoluta unidade. Desse modo, acreditavam que os princpios da beleza deveriam penetrar cada pormenor, cada coisa da vida: arquitectura, 
cermica, decorao. Dois ramos de ris enfeitavam nesse dia a casa de ch dO Sr. Matsui, um em boto, o outro em flor, combinados com uma folha longa e outra curta. 
Folhas e flores haviam sido arranjadas com reverente cuidado; no aparentavam artifcio algum, mas todos sabiam que, embora aquela simplicidade parecesse natural, 
chegava a ultrapassar a da natureza. Alcanar a simplicidade era o supremo grau do refinamento. O esprito plenamente amadurecido atinge a simplicidade como ltima 
fase da sua evoluo.
Durante a longa cerimnia e o banquete, no houvera um nico assunto que perturbasse os presentes. Agora que o cerimonial chegara ao fim e o Sol se punha no horizonte, 
os amigos ergueram-se e, fazendo a devida mesura de agradecimento ao dono da casa, saram da casa de ch e passaram  sala de espera. Ali podiam conversar  vontade 
e poucos minutos depois, O Sr. Matsui reuniu-se a eles.
Aquela palestra, entre homens que nunca haviam deixado o seu pas e estavam agora empenhados em preservar a cultura do seu povo durante os anos de ocupao estrangeira, 
era profundamente agradvel ao Dr. Sakai. Desligara-se intimamente da Amrica. Nesse particular sentia vazio o corao e a alma,
as palestras longas e serenas acerca do velho Japo, dos seus antigos costumes, maus e bons, criavam nele outro homem.
Foi assim que chegou a entender de que modo os japoneses se tinham deixado induzir a um modo de vida que no era o deles.
- Todos os povos tm os seus maus espritos - explicou O Sr. Tanaka, enquanto estavam na sala de espera. - Em todos os pases nascem algumas criaturas de alma rude, 
que no  possvel educar. So bravias desde o nascimento, sentenciadas, sem dvida, por crimes cometidos numa existncia anterior. No se deixam dominar. Fazem 
sofrer os pais e a
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famlia, representam uma ameaa  sociedade, e atraem a si os fracos e os irrequietos. E aqui, esses indivduos rebeldes, h mais de cem anos, aproveitaram a disposio 
maligna da poca; disseram ao nosso povo que as potncias ocidentais, que estavam dividindo a sia entre si, tambm se apossariam do Japo. Talvez tivessem razo. 
Quem poder julgar? A verdade  que incutiram o medo na nossa gente, e esse medo permitiu que prosseguissem o seu caminho. Organizaram o Exrcito e a Marinha, apoderaram-se 
da Manchria, esperavam criar um imprio para sua prpria defesa. Foi esse o incio da grande transformao. Se tivssemos ousado resistir ao medo, talvez permanecssemos 
invulnerveis. O medo  o princpio de toda a fraqueza.
O Sr. Tanaka era um velhinho encarquilhado, que atravessara setenta anos da grande transformao. Nunca vestira trajes ocidentais e em sua casa no havia nenhuma 
cadeira, nenhuma carpa de tipo ocidental. Herdara uma pequena fortuna e com ela se mantinha, embora com crescentes dificuldades. Tinha perdido todos os filhos na 
ltima guerra e seu prprio pai fora morto, dcadas atrs, no primeiro conflito com a China. Detestava as guerras e dessa repulsa nascera a deciso de fazer-se budista, 
rejeitando o xintosmo porque esta crena insiste no cultivo de um patriotismo que ele negava. Declarava-se humanista, amigo de todos os homens, e era escrupuloso 
at para com os americanos.
-Tem havido tanta crueldade durante os anos da minha vida - disse O Sr. Tanaka, pensativo.
Ningum o interrompeu. Estava ali sentado sobre as pernas dobradas, uma figurinha delicada a olhar a porta aberta para o jardim, nesse instante totalmente iluminado 
pelos raios amarelos do sol poente.
- Quando caiu a bomba atmica sobre Nagasaki, fui at l para ver o que tinha acontecido. Os senhores sabem que minha famlia vivia em Nagasaki. A velha casa j 
no existe. Tornou-se o tmulo dos meus parentes mais velhos, que eram
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seis e residiram ali a vida inteira. Desde essa visita, no tenho podido suportar a menor crueldade. No sou, por exemplo, capaz de abrir caminho para entrar num 
elctrico, mesmo que haja bastantes lugares.  um gesto de crueldade to insignificante e to breve que, praticado por mim, um homem j idoso, de maneira nenhuma 
poderia magoar algum. Apesar disso, no sou capaz de faz-lo. Seria, aos meus olhos, a ltima crueldade, que tornaria o mundo insuportvel para mim. No posso esmagar 
uma formiga, matar uma mosca ou deixar chorar uma criana. Qualquer crueldade alm das que j foram cometidas, no s aqui como noutras partes do mundo, eu j no 
poderia suport-la. Nunca mais,  Deus Buda!
Ergueu o rosto magro, envelhecido, cerrando os olhos. O Dr. Sakai baixou a cabea. Sentiu, no fundo do corao, uma tristeza dolorida e ao mesmo tempo revigoradora.
Quando, finalmente, se levantaram para as despedidas finais, ele no tivera oportunidade de conversar com O Sr. Matsui a respeito de Kobori e Josui, e no desejava 
faz-lo agora. A tarde fora perfeita. Banhara a sua alma no passado e aprendera, ainda mais, o que significava ser japons. Nesse momento no queria pensar nos jovens 
ou no futuro. Havia tempo para isso.
Dirigiu-se para casa, lentamente e em paz.
No aposento principal, a Sr Sakai aguardava o marido. Como iria contar-lhe o que sucedera naquela tarde, durante a sua ausncia? Ela temia-o porque o admirava acima 
de todos os seres humanos e, se se atrevesse, t-lo-ia amado sem restries. Mas era-lhe impossvel amar algum a quem tanto admirava. Uma inteligncia como a dele 
percebia todas as imperfeies e ela era humilde. Alm do mais, trazia guardado no silncio do seu corao um pecado secreto que jamais poderia confessar. No gostava 
do Japo. Por ela, no teria deixado a Amrica. Teria at preferido o campo de concentrao, para onde haviam ido todos os seus amigos. Naturalmente, l no havia 
conforto. Ela temia-o porque o admirava acima de todos
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os seres humanos e, obstante, teria ficado em companhia dos amigos, cozinhando e lavando a roupa juntamente com eles, e haveria muito tempo para conversarem. Ter-lhe-ia 
sobrado mais tempo que antes, pois no havia necessidade de ganhar o sustento. A alimentao, embora simples, era ministrada a todos. Alm disso, o clima no deserto 
era seco e quente. Aqui em Kyoto, o tempo era hmido e a casa fria. A gua no jardim, as neblinas do mar e das montanhas, traziam humidade para dentro de casa.
Vestindo um dos seus melhores quimonos, arroxeado, com gola de seda branca, muito alva, estava correctamente sentada sobre as pernas cruzadas,  espera do marido. 
Usava meias de algodo impecvelmente brancas, de solas duplas e pespontadas. Confeccionava-as ela prpria. Sabia fazer tudo bem porque fora criada no Japo, filha 
de uma famlia pobre, que vivia numa pequena fazenda nas altas colinas acima de Nagasaki. A sua casa era to perto de Unzen e das fontes termais que, s vezes, na 
Primavera ou no Outono, quando a famlia aproveitava um feriado para ir admirar as flores e folhagens coloridas das rvores, se detinha junto s fontes para cozinhar 
o seu peixe nos vapores quentes que se levantavam por entre as pedras.
Seu pai era to pobre e tinha tantas filhas que, um dia, ao ler num jornal que se procuravam noivas para jovens japoneses na Amrica, enviara a sua fotografia e 
registara o seu nome. Assim ela fora para os Estados Unidos. A me do Dr. Sakai escolhera-a e o filho sentira ternura pelo seu rostinho meigo. Em nova fora graciosa, 
embora no bonita. Nunca lhe ocorrera tornar-se a esposa de um mdico, que, por isso mesmo, no iria gostar das suas pernas tortas e dos seus ps e mos curtos e 
grossos. Ele fizera-lhe perguntas a respeito da sua alimentao, que sempre consistira em arroz, peixe e algumas verduras. Mais tarde, ao nascerem os filhos, Sotan 
Sakai irritava-se fcilmente quando ela no tinha o cuidado de observar  letra as suas prescries quanto  alimentao deles. embora
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no caso do filho, estas medidas se tivessem tornado inteis, pois estava morto. Como forara o menino a tomar o abominvel leite de vaca e como ele chorara! Desejava 
no o ter nunca obrigado a fazer qualquer coisa que detestasse, j que tudo fora em vo. Nem o seu tmulo ela podia visitar. Como sempre, ao lembrar-se de Kensan, 
seu filho, vieram-lhe as lgrimas aos olhos. Limpou-as cuidadosamente com o forro das largas mangas e assoou-se a um dos lencinhos de papel que costumava guardar 
no fundo da manga esquerda. A seguir fez dele uma bola que atirou para dentro de uma jarra que servia de cesto para papis. Adoptara diversos costumes americanos, 
menos o do uso pouco higinico de lenos de pano.
Nesse instante ouviu os passos do marido e a criada apressar-se em ir ao seu encontro para tirar-lhe os sapatos. Levantou-se e, caminhando em direco  porta, fez 
uma inclinao. Ele acenou com a cabea e cumprimentou-a com palavras que faziam aluso ao seu nome sem, todavia, o pronunciar em presena da criada. Ela seguiu-o 
 sala onde estivera  sua espera e, depois que ele se sentou, ajoelhou-se, colocando a mo no bule de ch, que se encontrava no seu abafador acolchoado. O bule 
estava quente e ela dispunha-se a servir-lhe uma taa quando ele levantou a mo.
- No quero ch agora. Bebi do melhor.
Num particular, Hariko Sakai estava grata ao Japo. O quimono escondia as suas pernas tortas. Na Amrica, usava vestidos caseiros de algodo, como as outras mulheres, 
mas sempre preocupada com aquelas pernas expostas ao desagrado do marido, embora ele nunca mais tivesse falado nelas. Afastava simplesmente o olhar, e isso era mais 
cruel do que palavras.
Como iria contar-lhe o que acontecera naquela tarde? Tossiu por detrs da mo espalmada.
Ele levantou vivamente os olhos.
- Que h, Hariko? - perguntou.
- Mal sei como dizer-lhe - redarguiu ela. Olhou-a e ele
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notou-lhe a perturbao no olhar. A Sr Sakai era ainda uma mulher de aparncia agradvel, isto , tinha uma fisionomia meiga e olhos redondos, de expresso infantil. 
Embora esse formato de olhos no fosse considerado dos mais bonitos no rosto de uma japonesa, agradava-lhe.
- Quebraram o vaso Sung? - indagou, alarmado.
-Oh! No foi coisa to horrvel -respondeu ela prontamente.
-A carpa grande morreu?
-Oh, no! -tornou ela. - No houve mortes. - Vamos, vamos. No vou mat-la, nem espanc-la.
Isso era sinal de bom humor da sua parte e Hariko sen
tiu-se encorajada.
- Hoje  tarde esteve aqui um rapaz  sua procura disse ela, com cuidado.
-Um doente?
- No, no foi um doente. - Hesitou, depois disse de um
s flego: - Um soldado americano.
O rosto fino e atraente do Dr. Sakai perdeu toda a ex
presso.
- No conheo nenhum americano.
- Ele no disse que o conhecia -respondeu Hariko. Apenas queria conhec-lo.
- Como sabia o meu nome?
- Foi-lhe dado por um amigo - disse. - E que lhe respondeu?
- Que no estava em casa. Ele quis esperar, mas no o
permiti. Fiquei com receio que Josui chegasse de um momento
para o outro. No teria ficado bem.
- Certamente que no.
- Disse-lhe que ia transmitir-lhe o recado e ele respondeu
que voltaria. Perguntou a que horas estava em casa. Respondi
que seria melhor procur-lo no hospital s dez horas da manh.
Disse-lhe, ento, que no costumava receber pessoas estranhas
aqui em casa.
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- Muito bem. - Fez uma pausa e franziu os lbios. - Um americano! Provvelmente algum na Amrica lhe deu o meu nome.
-Sim - concordou ela. Sentiu o corao mais leve. Procedera bem, contara-lhe tudo e ele no se zangara. No devia pensar em v-lo zangado, pois jamais lhe ouvira 
uma palavra de clera; no entanto, ela era to sensvel  sua desaprovao que percebia quando a mais leve sombra de descontentamento lhe nublava o esprito. O domnio 
que exercia sobre si mesmo era absoluto, mas no lograva esconder-lhe a mnima coisa.
Apesar das suas pernas curtas, Hariko levantou-se com graciosidade.
- Preciso retirar-me agora. H muita coisa a fazer.
Ele inclinou a cabea sem falar. No desejava perder a boa disposio daquela tarde passada com os amigos. Permaneceu sentado, imvel, de frente para o jardim, depois 
que Hariko saiu do aposento, e deliberadamente afastou de si a lembrana do americano intruso. O jardineiro borrifara as pedras com gua e molhara as rochas e os 
arbustos.
A Sr Sakai, observando-o, empurrou suavemente os tabiques de rtula, depois de passar. Seu marido no lhe perguntara que espcie de homem era o americano e ela 
nada dissera; e isso, pensou agora, talvez fosse uma espcie de insinceridade. Gostara do rapaz. Tinha visto muitos rapazes ricos na Califrnia, mas, quando lhe 
perguntou se era de l, ele respondeu que no. Tinha indagado quase imediatamente:
- O senhor  da Califrnia?
- A senhora fala ingls? - exclamara ele.
-Um pouco- redarguira, esforando-se para no sorrir por causa dos dentes estragados. Os americanos gostavam de dentes bons e brancos, mas a mesma deficincia que 
lhe entortara as pernas parecia ter tambm prejudicado a sua denta= dura. Na sua mocidade isso no chamava a ateno de ningum, pois as mulheres do campo costumavam 
enegrecer
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os dentes ao casarem. Sua prpria me tinha os dentes pretos como laca.
- O senhor tambm  da Califrnia? - perguntara novamente.
- Porqu tambm? - indagara ele. - A senhora  da Califrnia?
- Viemos de l.
-Sou da Virgnia. $ um belo lugar.
- No conheo.
Nessa altura interrompera a palestra to pouco cerimoniosa. Mostrava-se sempre amvel de mais para com os americanos. Tornara-se reservada, mas continuava a gostar 
do rapaz. Era to jovem, de aparncia to saudvel. Entregara-lhe um carto onde estava escrito o seu nome: Allen Kennedy. Pronunciara-o e ela repetira-o. No tinha 
aprendido a ler o ingls.
Hariko adiantou-se com pequenos passos silenciosos, ao longo de um corredor estreito e entrou no aposento onde dormiam. As paredes eram corredias e, uma vez afastadas, 
uniam a pea ao todo da casa. Ela, porm, conservava-as habitualmente fechadas. Tinha, assim, um refgio para si. Na realidade nada havia para ela fazer, desde que 
Sotan lhe dissera que suspendesse a refeio da noite. Josui comia po, uma geleia estrangeira e ch com leite enlatado. Quanto a ela, tomava uma tigelinha de mingau 
de arroz antes de ir para a cama. Abriu as gavetas de uma cmoda to pequena que podia ser colocada sobre o seu contedo: jias, fitas, alguns retratos de Kensan 
e uma fotografia da sua casa em Los Angeles, que j no lhes pertencia. Era habitada por negros, agora.
A parede foi afastada um pouco e ela viu Josui sorrindo-lhe.
- Mamma-san, est a! - Viste o teu pai? - No.
Josui entrou no aposento. Sua me percebeu imediatamente
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que algo lhe acontecera, algo de agradvel. Os olhos oblquos muito abertos, grandes de mais para olhos de japonesa, brilhavam de secreta alegria. Josui ainda no 
aprendera a ocultar os sentimentos por detrs de uma fisionomia serena.
- Pareces muito contente- disse a Sr Sakai. - Aconteceu-te alguma coisa boa.
-S a Primavera, minha me! -respondeu Josui, sacudindo a cabea.
Mas poderia s a Primavera ter imprimido tanta doura a cada trao daquele macio e belo rosto? A Sr Sakai duvidava. Continuou a olhar para a filha, pensativa, procurando 
recordar como ela prpria sentira a Primavera aos vinte anos. Nessa idade trabalhava tanto como um homem na fazenda de seu pai; a Primavera significava lavrar, arrastar 
a pesada grade sobre a terra e espargir a semente. No incio do Vero, os campos eram inundados para a plantao do arroz e, atolada na gua barrenta, ela ajudava 
a plantar as pequenas mudas. No, a Primavera no lhe recordava nada.
No insistiu com a filha. Josui pertencia ao pai; Kensan  que fora mais seu. Se o filho estivesse vivo, ela teria agora netos, ricas criancinhas, com jeito de americanos, 
coisa com que ela se no aborreceria absolutamente nada. Na Amrica as mulheres usavam mquinas de lavar roupa e foges elctricos.
Josui estava de p a seu lado e pegou nos retratos de Kensan. Havia diversos, alguns tirados quando ainda era menino. Num deles aparecia com Setsu, sua noiva, ela 
de cabelo curto e ondulado.
- Ele no permitir - disse-lhe a me. Estava agora a
olhar tambm para Setsu. - Com certeza ela j tem filhos.
- Nascidos no campo de concentrao- lembrou Josui.
-Sim -respondeu a Sr Sakai. Mas, se Kensan estivesse
vivo e todos reunidos, teria sido agradvel ter netos, mesmo
num campo de concentrao. Os americanos no matavam
ningum. No era como na Alemanha. Havia o suficiente para
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comer. - No creio que o campo de concentrao fosse muito ruim.
- Oh, no sei! - suspirou Josui, irrequieta. Franziu a testa e, apesar da Primavera, o brilho desapareceu-lhe do rosto.
A Sr Sakai tentou compreender a razo daquele suspiro. Deveria falar-lhe na visita do americano? Achou melhor calar-se, embora fosse uma novidade interessante. 
Comeou a repor as jias e fotografias nos seus lugares, cada uma cuidadosamente enrolada em papel de seda.
- Vou mudar de roupa - disse Josui.
Saiu, fechando o tabique de rtulas atrs de si. A Sr Sakai sentiu-se satisfeita por no ter dito nada. O silncio era sempre prefervel.
No canto da extensa casa que era particularmente seu, Josui olhava-se no espelho. Estava ajoelhada de frente para o jardim e os raios do sol poente atingiam-na em 
cheio. O espelho estava em cima de uma cmoda chinesa, de cerca de trinta centmetros de altura, feita de madeira negra polida. Josui trocara as roupas escolares 
por um quimono rosa-plido, em cuja saia estava bordado um ramo de flores de pessegueiro de um cor-de-rosa-escuro.
A que chamavam os americanos bonito? Bem, ao menos ela era clara, de uma pele branca como a noz da amndoa. Talvez o lbio inferior fosse um pouco cheio de mais 
e ela apresentasse um aspecto demasiadamente saudvel. As suas faces eram rosadas como as flores do pessegueiro, mais rosadas que a seda do seu quimono. Os olhos 
tinham o feitio caracterstico dos japoneses, mas as plpebras eram largas, coisa pouco comum entre eles. Certamente o seu nariz era talvez um pouco achatado para 
o gosto de um americano. Se agora estivesse na Amrica, pensou, faria novas amizades? Todos tinham j sado dos campos de concentrao e dizia-se que os americanos 
estavam, de novo, a tratar bem os japoneses. No ocorriam perturbaes, ou ento muito poucas. Diversos jornais tinham relatado factos que mostravam a bravura do 
batalho de Kensan,
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na Itlia. Alguns tinham feito referncias ao prprio Kensan. Estivera entre os primeiros quando fora ordenado o ataque  colina. Conduzira outros e nessa ocasio 
fora morto.
-  melhor no ser bravo de mais- dissera sua me, entre lgrimas, ao olhar o retrato dele nos jornais americanos que lhes haviam sido enviados.
Se amanh o americano a encontrasse outra vez, que faria ela? No devia ter-lhe dito o seu nome. No entanto, se tivesse recusado isso ter-lhe-ia parecido descorts. 
Tirou do seio o pequeno carto que ele lhe dera, e pronunciou o seu nome, suavemente - Allenn Kennedy. Em sua casa, certamente o tratavam por Alenn. Que significava 
esse nome? No tinha a menor ideia. O sobrenome Kennedy tambm deveria ter algum significado. E Virgnia? Sabia que ficava muito longe da Califrnia. Era um estado 
distante, situado na parte oriental da Amrica. No conseguiu lembrar-se j do que aprendera nos livros escolares. Amanh procuraria no atlas da Universidade.. Guardou 
de novo o carto no seio e olhou-se mais uma vez ao espelho. Viu a curva dos seus lbios e as plpebras cadas. Levou as mos s faces, que estavam quentes. As suas 
mos eram pequenas e frias. Tinha sempre as mos frias. Se ele quisesse tocar uma delas, apert-la como faziam os americanos para cumprimentar, ela no permitiria. 
A palma da mo de uma rapariga  algo ntimo. No deve ser tocada displicentemente, ou por um estranho. S ao marido  permitido acarici-la.
Enquanto cismava, a parede deslizou e Yumi apareceu, impassvel no seu quimono de algodo azul. Olhou fixamente para Josui, sentada defronte do espelho.
-Seu pai deseja falar-lhe- disse em voz alta. - Est junto aos pinheiros.
Josui baixou a tampa da pequena cmoda, em cuja parte interior estava embutido o espelho.
- Diga-lhe que vou j.
O Dr. Sakai passeava no jardim, debaixo dos pinheiros,
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quando Yumi voltou para dar-lhe o recado. O musgo verde era alto e macio sob os seus ps e o ar estava impregnado do cheiro puro da resina fresca, aquecida ao sol.
- A nobre filha vir imediatamente- disse Yumi, inclinando-se ligeiramente.
- Que fazia ela? - perguntou o Dr. Sakai.
-Olhava o seu rosto no espelho- retrucou Yumi.
Afastou-se e o mdico interrompeu os passos. Josui a ver-se ao espelho! No era isso significativo? Teria ela tambm visto o americano? Talvez se tivessem encontrado 
aquela manh, trocado algumas palavras! Os soldados americanos achavam natural falar com uma jovem que vissem na rua, e Josui era bonita - bonita de mais. Precisava 
descobrir. No devia haver segredos. Tratando-se de mulheres, no se podia confiar nos americanos. Josui, sua filha, no devia ser tomada por uma gueixa ou por uma 
leviana.
Foi assim que Josui, caminhando a passos muito lentos em direco ao pai, deu com os seus olhos escuros, penetrantes, cujas sobrancelhas estavam erguidas. Tinha 
a testa franzida, e um vinco entre os olhos, donde as duas linhas escuras subiam como asas de um pssaro ou de uma borboleta. Mas, quem poderia imaginar uma borboleta 
pousada nos olhos pretos de seu pai?
Ela principiou a falar, impetuosamente, incapaz de se conter.
-Sinto que ests a esconder-me alguma coisa!
Josui estava pouco habituada a um ataque to sbito e ficou aturdida. Na Amrica ele fora um homem de gnio arrebatado, zangava-se com frequncia e, embora se arrependesse 
depressa, no podia dominar a ira quando se irritava. Smente depois de regressar ao Japo se transformara num homem silencioso e comedido, empenhado em obter o 
domnio de si mesmo atravs da meditao.
Ele levantou a cabea.
- Que estou a esconder do pai?
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- No sou tolo - declarou ele, violentamente. - Alm de mdico sou psiclogo. Houve uma transformao em ti. J no s a mesma rapariga de ontem. Algo te aconteceu.
Obedecia a um instinto, mas Josui ficou impressionada com a sua perspiccia. Estaria ela revelando ao pai, to claramente, os seus sentimentos ntimos?
- Nada de especial aconteceu - disse. - No entanto, talvez o senhor tenha razo. A vista dos americanos, hoje, lembrou-me muita coisa que pensava ter esquecido h 
muito tempo. Afinal de contas, passei l quinze anos da minha vida e s cinco aqui.
Com um movimento de cabea, ele ordenou-lhe que caminhasse a seu lado. Sentia-se irritado, esgotado, inquieto de mais para poder sentar-se. Ela compreendeu e ambos 
comearam a andar por entre os pinheiros. Anoitecia e o arrebol da tarde sobre o musgo verde dava-lhe um brilho quase fosforescente.
- Podes confiar em mim- disse o pai. - Na verdade deves confiar em mim. De certo modo, tu s tudo quanto tenho, e at mesmo o que sempre tive. Tua me tem sido boa 
esposa, me excelente. Que mais pode um homem desejar? Mas o teu esprito  igual ao meu. Tu s mais que filha, s uma companheira. Teu irmo era como tua me, mas 
tu pareces-te comigo.
-Sou muito diferente- disse ela, num mpeto de rebeldia.
-s mais diferente agora do que o sers no futuro - concordou ele. - Hoje sentes com agudeza, dentro de ti, a diversidade das geraes. Mais tarde, quando a tua 
vida estiver estabilizada e no tiveres necessidade de rebelar-te contra mim para mostrar a tua independncia, ento descobrirs quanto te pareces comigo.
Josui sentiu a teia forte do seu amor envolv-la com demasiada intensidade. Procurou libertar-se, empregando todas as foras: no entanto, com a sua superioridade, 
o pai cingia-a mais fortemente ainda. Ela ocultava no seio uma arma, um
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pequeno punhal, capaz de cortar a rede que ele estendia em seu redor, embora parecesse to suave como uma nuvem. Tirou o carto e entregou-lho sem dizer uma palavra. 
Ele inclinou-se para ler o nome e, percebendo logo o que era, retirou do peito um outro exactamente igual.
- Onde obteve esse carto? - exclamou ela, cheia de surpresa.
- Posso fazer-te a mesma pergunta - redarguiu o pai com seriedade.
- Algum... mo deu - disse Josui.
- Ele esteve aqui durante a minha ausncia e entregou este carto a tua me - declarou o Dr. Sakai, mais srio ainda.
Fitaram-se, ele baixando para a filha o sobrecenho feroz, ela erguendo os olhos, decidida a no ter medo.
- Ah, Josui! - disse o pai com voz grave.
Ela esmoreceu e, em silncio, colocou o cartozinho na sua mo. O Dr. Sakai guardou-o no quimono juntamente com o seu.
- como vs, eu tinha razo. - Falou com ternura e ao mesmo tempo tristemente. -Agora conta, minha filha, o que te aconteceu.
Ela no podia contar-lhe, porm. As lgrimas principiaram a cair, deslizando-lhe pelas faces. Os dois recomearam a caminhar e ela ergueu a manga do quimono para 
enxugar os olhos.
- No escondas nada aos teus pais, peo-te- disse, aps um longo silncio. - No proibirei nada que for para o teu bem. Penso, agora, que ficarei de corao partido 
se tu nos deixares, mas sem dvida assim no ser. O meu corao j se partiu uma vez.
Ela levantou a cabea.
- Quando Kensan morreu?
- No. Muito antes de tu e Kensan nascerem. Quando
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era ainda jovem, eu... mas deixemos isso. J no tem importncia.
De facto, no tinha j importncia. Ele estava com cerca de cinquenta anos e o que acontecera na sua juventude, pensou Josui, no podia ter importncia agora. Recuava 
diante da ideia de ficar a saber o que fora. Sentia que o pai s podia ter sido como sempre o conhecera, autoritrio, violento no seu carinho, obstinado, dominando 
todos que o cercavam. Ela queria pensar em si mesma.
- Diz-me, porque guardaste o carto? - dizia ele, quase suplicante.
A ternura dele comoveu-a e ela comeou a soluar e a falar simultneamente, tentando abafar os soluos com as mangas.
- Eu mesma no sei. No h nada que contar. Ele falou comigo sob o arco de glicnias e perguntou o meu nome. Eu... eu... disse-lho. E foi s..
- Quantas vezes o viste?
-S essa vez, juro. Viu-me esta manh e voltou. Eram tantos... eu no o notei a primeira vez que passaram.
Agora que ela dissera a verdade, o pai tornou-se amvel.
- No te culpo pelo que ele fez. Talvez devesses ter recusado- dizer-lhe o nome. Mas, afinal de contas, conforme disseste, viveste de mais na Amrica.
- Eu no disse isso.
-Muitos anos, ento- concordou ele. - Mas nunca voltaremos para l. Vamos ficar aqui para sempre. A tua vida desenrolar-se- aqui, minha filha, e aqui casars. No 
te forarei ao casamento, prometo. Tens muito tempo  tua frente, ainda que, do ponto de vista psicolgico - esforava-se por falar em tom mais leve diante dela 
-seja melhor casar cedo, ao despertar o primeiro desejo. No  bom esperar muito, principalmente para a mulher. O anseio natural desaparece, dando lugar a outras 
preocupaes.. Na Amrica conheci muitas mulheres que tinham perdido todo o desejo natural.
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Tinham-se deixado absorver pelas suas carreiras profissionais, o que de certa forma  muito elogivel, mas destrutivo no efeito que produz sobre a sua feminilidade. 
Vejamos, portanto, o que se pode fazer. Se no for Kobori Hatsui, vamos procurar outro. Tu escolhers; no quero ser julgado um bicho-papo.
Josui ficou to comovida com a preocupao do pai em apazigu-la, entrevendo nisso o seu imenso amor, que no teve coragem para se opor a ele.
- Falta-me s um ano de colgio, e gostaria de terminar.
- Certamente, concordo - disse ele. - E agora no falemos mais nesse assunto. Ns entendemo-nos, no  verdade?
-Sim -murmurou ela, embora contra vontade.
- Nesse caso... - fez uma pausa e, enquanto ela o olhava, tirou os cartes do quimono e rasgou-os em pedacinhos. Feito isso, baixou-se e levantou um punhado de musgo 
do cho; ali colocou os pedaos de papel, como se fosse numa pequena sepultura. Tornando a ajustar o musgo sobre eles, ergueu-se novamente. - Vamos- disse. - Voltemos 
para dentro. A noite chegou.
De facto, anoitecera. Sob os pinheiros comeavam a luzir os primeiros vaga-lumes.
Allen Kennedy virou-se, agitado, sobre os grossos acolchoados. As camas japonesas enganavam. Quando a gente se deitava nelas, pareciam macias, com os acolchoados 
de pena recobertos de seda, sob os quais havia esteiras altas e fofas. Mas, depois de deitado algum tempo, o soalho duro de madeira polida fazia-se sentir por baixo 
das esteiras e acolchoados, num desafio aos ossos. O desejo queimava-lhe o sangue, proporcionando-lhe suplcio e arrebatamento ao mesmo tempoA linda jovem perturbara-lhe 
o cuidadoso contrle ntimo, transtornara-lhe os planos, os hbitos. Abominava o procedimento grosseiro e displicente dos homens comuns em tempo de guerra e, no 
obstante, sentia em si os mesmos apetites sensuais. Custava-lhe acreditar que fosse capaz de possuir uma
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mulher, embora refinada, na sofreguido de se satisfazer nicamente a si prprio; no entanto, isso era verdade. O permanente desejo que sentia, e que decidira nunca 
mais aplacar num bordel, por mais premente que se tornasse, rebelara-se contra ele nesta noite. Queria pensar na jovem como um belo quadro, mas s conseguia lembrar-se 
dela como mulher, como uma criatura feita smente para ser possuda.
Sentou-se abruptamente, encolheu os joelhos e, envolvendo-os com os braos apoiou neles a cabea. Desejava que os seus pensamentos no estivessem to baralhados, 
pelo menos no confundir tanto o desejo. Certa delicadeza, que provvelmente lhe fora incutida por sua me-aquela criatura pequena e graciosa mas de imensa fora 
de vontade-tornara o amor e o desejo inseparveis para ele. Quando se encontrava em frente de uma prostituta, como fizera de propsito diversas vezes, tornava-se 
impotente. Era assim mesmo. Precisava amar para poder corresponder aos seus instintos. Sentia-se horrivelmente envergonhado. De todo o corao invejava os indivduos 
rudes que se atiravam sedentos e saam vangloriando-se. O que mais lhe causava inveja era o facto de nem se darem conta de que no passavam de grosseires. O exrcito 
estava cheio desses tipos que viviam alegres e satisfeitos. Mas ele era feito de outro metal. Ariel no podia transformar-se em Caliban.
Levantou-se, por demais inquieto para fingir que precisava dormir. Vestiu o roupo que todo o hotel japons pe  disposio dos seus hspedes. O bom gosto dos japoneses 
era insupervel, e talvez fosse essa a razo por que tanto gostava daquele pas. O roupo, feito de algodo barato, ostentava um belo desenho azul e branco. Somente 
quando tentavam imitar o Ocidente esse bom gosto falhava. Sua me, sem dvida admiraria a cermica primorosa, as belas gravuras, as sedas delicadas e, sobretudo, 
as casas. A Sr Sakai no o convidara a entrar, mas ele vira, para alm da sua cabea inclinada, uma srie de aposentos iluminados pelos raios de sol que, ao atravessar
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as paredes de rtulas, forradas de papel, tomavam uma colorao de prola. Esse correr de peas dava para um jardim e Allen notara a faixa prateada de uma cascata. 
At quele momento no tivera ocasio de conhecer japoneses pertencentes s classes educadas. Regulamentos severos proibiam trazer qualquer japons para os alojamentos 
ocupados por americanos. Mesmo nos comboios no era permitido misturarem-se. Allen no tinha vontade de entrar em contacto com os de classe mais nfima. Na sua opinio, 
um japons de baixa categoria, principalmente do sexo feminino, ficava um grau abaixo de um americano do mesmo nvel.
Mas a linda jovem sob as glicnias devia morar justamente numa casa assim.. E o seu nome, Josui - no teria sabido pronunci-lo se ela no lhe houvesse ensinado. 
No podia esquecer a fisionomia to pura e to linda, os olhos grandes e os lbios cheios. Aprendera a gostar de olhos de feitio oriental. E ela falava ingls como 
uma americana, embora com certo embarao. A sua pronncia era boa e a voz suave. Era muito educada, facto igualmente pouco comum. As raparigas japonesas de educao 
aprimorada ocultavam-se e no davam ocasio aos americanos de travarem conhecimento com elas. Mas Josui vivera na Amrica e tinha um esprito mais esclarecido. Mesmo 
assim, mostrava-se esquiva. No lhe teria agradado se o no fosse.
Estava parado na porta que dava para um pequenino jardim, no mais que um canto criado pela curva existente no muro externo do hotel. No obstante, havia ali um 
lago do tamanho de uma banheira e uma ou duas rvores ans. Precisava esclarecer consigo mesmo o que desejava daquela jovem, Josui. Se deixasse aquele desejo aumentar-ou 
melhor, se no o suprimisse completa e imediatamente - como terminaria? Seria um caso complicado e at doloroso. No poderia ser diferente. Ela no era uma Madame 
Butterfly, pensou, para ser amada e depois abandonada.
A noite estava escura e silenciosa. Os contornos indistintos
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das montanhas, ainda mais negras que o cu, elevavam-se alm do muro baixo. Fora a Kyoto em busca de beleza histrica e nada vira. Porque no seguir os seus planos 
iniciais? No valia a pena decidir nada quela hora da madrugada, uma hora imprpria, como bem sabia, para tomar qualquer deciso, hora melanclica e deprimente, 
a pior das vinte e quatro do dia, quando o que tambm havia de pior nele despertava, fazendo-o duvidar da sua prpria alma. Encolheu os ombros. No dia seguinte, 
ao levantar-se, pegaria no guia-turstico para estudar um plano. Ficaria o tempo necessrio para ver Kyoto e depois voltaria a Tquio. Talvez a esquecesse se tivesse 
em que se ocupar. Podia acontecer, tambm, que ela se escondesse, como faziam as outras.
Sentiu-se melhor quando tomou essa deciso. Tornou a deitar-se nos acolchoados e cerrou os olhos. Os seus msculos distenderam-se e os ossos no ofereceram mais 
resistncia  dureza do cho. Os acolchoados de pena eram leves e quentes. Parado naquela porta aberta, ficara com frio.
Se tivesse chovido, no dia seguinte, teria sido fcil permanecer em casa. Josui s tinha uma aula, de matemtica, de que no gostava. Apanhara at um leve resfriado, 
ou pelo menos podia imaginar que assim acontecera, pois o seu sono fora inquieto e, ao acordar de madrugada, os acolchoados tinham escorregado. Dormia com travesseiro 
macio. Se usasse um travesseiro duro, como era hbito no Japo, a cabea encontraria apoio firme, o que a impediria de virar-se. Outras raparigas aprendiam a dormir 
assim, mas Josui no conseguira. Era esse o seu mal: no se decidia a aceitar inteiramente o modo de viver 'no Japo. Seus pais tinham, ambos, demonstrado mais coragem 
do que ela. Isto , seu pai insistia e sua me obedecia. Por isso mesmo ela mantinha as suas pequenas rebeldias, uma das quais era o travesseiro. Rebelava-se no 
s por si prpria como tambm por sua me.
Mas o dia estava esplndido. O Sol surgiu num cu sem
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nuvens e smente ao longe, no topo das montanhas, havia uma grinalda de neblina que dentro em breve se iria desfazer sob os raios do sol. Josui sentiu-se compelida 
a levantar-se e, estando o dia to lindo, a usar um vestido amarelo-claro. Por um capricho qualquer, teria preferido vestir um quimono, mas isso causaria surpresa 
aos seus colegas de classe. A vida quotidiana estava nitidamente dividida.
O vestido amarelo, contudo, era de fazenda macia, e no havia nele botes brancos e duros. A gola estreita, de bordado branco, ia bem com o seu cabelo preto. No 
usava leos e isso tambm a tornava diferente das demais. Do seu penteado caam sobre as tmporas alguns cabelinhos macios, que no eram crespos, nem to-pouco lisos.
Seu pai dirigiu-lhe um olhar perscrutador quando ela desceu para a refeio da manh.
- No vou para o colgio  hora habitual - disse ela. - Irei mais cedo para estudar geometria por uma hora.
Ele compreendeu que, dessa forma, queria evitar um possvel encontro com o americano. Se o estrangeiro pretendesse encontr-la, seria  mesma hora em que a vira 
na vspera.
- A manh estar mais fresca se sares cedo - replicou ele. - O dia de hoje vai ser mais quente que o de ontem.
Tomaram a refeio em silncio. A me no proferiu uma s palavra. Levantaram-se calados e Josui foi logo ao jardim, colher flores, galhos, folhas, qualquer coisa 
que a estao tivesse trazido, para o tokonoma.. Era uma tarefa que lhe cabia executar, e ao mesmo tempo um prazer. O pai manifestava sempre a sua opinio a respeito 
dos arranjos que ela fazia, mas era sbrio nos elogios, de modo que, quando os concedia, as suas palavras representavam um tesouro a ser guardado com carinho. Caminhando 
pelo vasto jardim, Josui ps-se a procurar plantas adequadas. Era Primavera e por isso no devia usar muitas flores. S no Vero elas existiam em abundncia e o 
arranjo do nicho devia sugerir sempre a estao do ano. Decidiu-se pela disposio pouco cerimoniosa da moribana, rejeitou
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as plantas aquticas. Estas nunca deviam ser combinadas com flores que nascem em terra seca. Encontrou o que procurava, mirta azul, florescendo nos seus ramos acetinados, 
meio escondida pela ramagem avermelhada de um bordo pendente. Josui cortou um galho de bordo com muito cuidado, para que a falha no se fizesse notar, depois dois 
ramos de mirta. Isso era suficiente e, durante meia hora, ficou diante duma mesa, na varanda junto  cozinha, a combinar as flores. Conforme lhe haviam ensinado, 
parou exactamente em frente ao vaso de loua verde, baixo e alongado, que escolhera para esse dia, a fim de dispor os galhos, ramagens e flores como se estivessem 
a olhar o Sol, para o qual todas as plantas se voltam por natureza. O seu arranjo constava de trs coisas: o galho de bordo, maior, atrs dos dois ramos de mirta, 
as flores azuis dispostas em nvel mais baixo de um lado que do outro. Completamente absorvida no seu trabalho, no percebera que o pai a observava, sentado na sala 
de meditao, onde permanecia algum tempo antes de ir para o hospital, e pela me, que lidava na cozinha. Sbitamente satisfeita com a posio que o menor dos ramos 
tomara por si mesmo, Josui levou o vaso com todo o cuidado para o nicho, colocando-o um pouco de lado. No trocaria o pergaminho, onde estavam representados salgueiros 
envoltos na neblina. Mudou, porm, o objecto de adorno, escolhendo uma pea de jade, de feitio irregular, com base de pau-rosa. A seguir, recuou uns passos para 
olhar o seu trabalho.
-Muito bem -ouviu seu pai dizer.
Voltou-se sorrindo. Ele estava parado ali, no seu traje ocidental, pronto para sair de casa. Ficava bem com aquelas vestes severas, o chapu de feltro na mo, a 
bengala, as luvas e o fato cuidadosamente passado. Mas ele no era inteiramente japons. Nenhum japons seria capaz de usar com tanta naturalidade aqueles trajes. 
Ele prprio fazia com que se mantivesse viva, dentro dela, a lembrana da Amrica, mas isso era coisa em que no se devia falar e Josui nunca dissera nada.
- Muito bonito - disse o Dr. Sakai. - No tenho a certeza
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de que o azul da mirta e o vermelho do bordo... mas est bem. E original. E o verde do jade harmoniza-os com os salgueiros na neblina.
Acenou-lhe com a cabea, sorrindo de leve, e saiu.
Assim comeou o dia, e assim continuou. Se Josui no queria confessar a si mesma que esquadrinhava as ruas, ao entrar numa aps outra, pelo menos no alterou o seu 
caminho habitual. Chegou cedo ao colgio e foi para a classe das raparigas, onde se sentou  sua carteira e se ps a estudar atentamente. Traou com cuidado os crculos, 
estudou os tringulos dentro deles e calculou os ngulos. As figuras geomtricas eram formais, frias e, ainda que belas em si, no tinham vida. Os cristais compostos 
desse modo eram inanimados, fsseis daquilo que existira um dia, formas simtricas que o esprito abandonar; todavia, tinham efeito tranquilizador sobre a imaginao 
febril e o corao agitado. Josui trabalhou com afinco, interrompendo-se nicamente para responder a uma ou outra saudao. Assistiu s aulas, sentindo-se distante, 
isolada, indiferente. No fim do dia, um pouco mais cedo que habitualmente, voltou para casa. As ruas estavam desertas. Sem dvida, disse consigo mesma, ele tinha 
ido a Nara reunir-se aos seus amigos. No havia razo para que o no fizesse. Com certeza nunca mais o veria.
No dia seguinte no se sentiu bem. A manh estava ainda mais linda que a da vspera; no entanto, acordou abatida e com calafrios. Ficou no quarto. Ao ver que ela 
no aparecia, sua me mandou Yumi saber o que se passava.
- Sinto-me triste - disse Josui. - Acho que estou doente.
Yumi levou a alarmante notcia aos pais e eles entre
olharam-se.
- Foste muito severo com ela - observou a Sr Sakai. Era to meiga que at mesmo essa censura foi feita em voz suave.
- No fui severo -redarguiu o Dr. Sakai. - Mal falei
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com ela ontem, a no ser para elogiar o arranjo das flores. Bem sabes que voltei muito tarde a noite passada.
- Foi no dia anterior- insistiu a Sr Sakai.
- Estvamos de pleno acordo- disse o Dr. Sakai, Com firmeza. -  Lembra-te do aspecto que tinha ontem de manh e como arranjou bem as flores para o tokonoma. Achei-a 
perfeitamente calma.
-As flores hoje esto murchas. Vai ver tu mesmo. Isso significa que as suas mos ontem j estavam febris.
Levantou-se enquanto falava e saiu no seu passo mido, pisando quase imperceptivelmente os tapetes. Entrou no quarto de Josui e ps-se a observar a filha. As mos 
dela estavam sobre os cobertores de seda, os dedos crispados e imveis. A Sr Sakai ajoelhou-se e, com trs dedos, tocou a palma direita da sua mo.
-Tens febre, a tua pele est seca, Vou chamar o teu pai - Ele vai dar-me um remdio amargo - disse Josui, num murmrio.
-  para teu prprio bem.
A Sr Sakai ergueu-se e continuou a olhar com ansiedade aquele rostinho lindo sobre o travesseiro branco.
- Diz-me o que te aflige - Implorou a me.
- Nada - suspirou Josui, - A  que est: no sinto nada, nada. Estou completamente insensvel a tudo.
- Isso  mau sinal - observou a Sr Sakai. - Na tua idade deverias sentir alguma coisa, ainda que fosse apenas descontentamento,
Josui no respondeu e a Sr Sakai saiu, agitada, para chamar o marido.
- Deves ir v-la tu mesmo. Ela diz que no sente nada. As palmas das mos esto quentes e ela mesma no sabe o que se passa consigo.
Ento no  nada - disse o Dr. Sakai, com vivacidade. Ergueu-se e saiu, pegando de passagem na sua maleta profissional. Tudo nela estava em perfeita ordem e pronto 
para
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o uso: o termmetro em lcool, todos os instrumentos esterilizados. Dirigiu-se para o aposento da filha; bateu de leve na parede de rtulas de madeira e entrou.
- Ento no sentes nada? - perguntou afvelmente.
- Nada - - disse Josui, sem olhar para o pai.
- No ests a ocultar-me alguma coisa outra vez? - indagou com severidade.
- Nada - repetiu ela.
O pai colocou-lhe o termmetro na boca e ajoelhou-se junto dela, preocupado.
- No viste o americano ontem? - perguntou bruscamente.
Impossibilitada de falar, Josui sacudiu a cabea.
Ele esperou e depois retirou o termmetro.
- No vi ningum - disse ela. - Fui ao colgio, estudei, depois vim para casa.
- Quando comeaste a sentir esse estranho abatimento? - interrogou. - No tens febre.
- Hoje de manh, quando acordei. No tive vontade de levantar-me.
Por prudncia, o Dr. Sakai no lhe revelou o que pensava. A razo daquele abatimento seria o no ter visto o americano no dia anterior?
-  aconselhvel ficar de cama se no te sentes bem - disse. -Toma alimentos leves, dorme, se possvel, e deixa a cabea descansar. Virei para casa imediatamente, 
se me mandares chamar.
- Obrigada, pai.
Ele levantou-se e continuou a olhar para o rosto abatido da filha. Josui no o olhou. Baixou lentamente as plpebras at cerrar os olhos.. Estava plida, reconheceu 
o Dr. Sakai. Portanto, um dia de repouso s lhe faria bem. Pegou na maleta e saiu. Ao encontrar a esposa do outro lado da parede de rtulas, disse despreocupado:
- Ela no est doente.  cansao, talvez devido  intensidade
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da Primavera. Sabes bem quanto tempo durou o Inverno desta vez e como o ar mudou de repente. Para uma rapariga com a sensibilidade de Josui, uma mudana to brusca 
 sempre exaustiva. Disse-lhe que ficasse de cama.
- Obrigada - disse a Sr Sakai com gratido. - Agora sei o que devo fazer.
Depois que ele saiu a casa ficou silenciosa. A Sr Sakai comeou a mudar as mirtas azuis, mas, sbitamente, todo o arranjo deixou de lhe agradar e, esvaziando o 
vaso alongado, lavou-o e p-lo de lado. Em seu lugar escolheu um vaso alto, delgado, no qual colocou um ramo solto de bambus com folhas tenras, muito verdes, e duas 
flores em forma de estrela, que cresciam na sombra do tufo de taquaras. Nunca aprendera a arrumar flores, e raramente o fazia. Desta vez, porm, gostou da combinao 
que escolhera, especialmente porque seu marido no estava ali para apontar-lhe os defeitos.
Estava parada em frente do nicho, admirando o arranjo por alguns instantes, quando Yumi entrou.
- No temos peixe-anunciou, sem rodeios.
- Que est a dizer? - perguntou a Sr Sakai em sbita agitao. - Ontem havia um peixe. Eu mesma o coloquei no pequeno lago. Seria o suficiente.
- Est morto- declarou Yumi.
- Impossvel! - exclamou a Sr Sakai.
Mas era verdade. Por algum motivo desconhecido, o peixe morrera. Yumi retirara-o do pequeno lago, que, na realidade, era apenas um pote grande enterrado no cho, 
perto da cozinha, usado para conservar frescos e vivos os peixes comprados no mercado. O peixe estava imvel na mo de Yumi, os olhos baos, as escamas sem brilho 
e o corpo inchado.
- Enterre-o - disse a Sr" Sakai, tristemente. Irei eu mesma ao mercado para me queixar ao vendedor. Deve ter-lhe dado comida de mais para aumentar o peso.
O mercado no ficava longe e Yun estava em casa. Contudo, foi at ao aposento de Josui para dizer-lhe que pretendia
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sair. Ao afastar a parede de rtulas, viu que a filha adormecera. Estava deitada de costas, os olhos fechados, respirando calmamente. A Sr Sakai no quis acord-la. 
Afastou-se em silncio, satisfeita por verificar que, fosse qual fosse a preocupao de Josui, no lhe fazia perder o sono.
- Adeus, senhora -respondeu Yumi. Dirigiu-se ao quintal para lavar algumas peas de roupa. Assim estaria pronta para limpar o peixe e as verduras quando a Sr Sakai 
voltasse do mercado.
Era um dia esplndido. O sol, no quintal, estava quente e Yumi levantara-se cedo, como de costume. A lavagem da roupa durou poucos minutos e, quando terminou, sentiu-se 
vencida pelo sono. A casa estava silenciosa. Poderia dormir um instante atrs do fogo da cozinha e ningum a descobriria naquele lugar. Se a patroa entrasse sem 
ela o perceber, diria simplesmente que estava ali  espera para acender o fogo. Assim, deitou-se no cho, com a cabea apoiada num pedao
de madeira, e Adormeceu no mesmo instante. Yuma era uma rapariga do campo, sadia e sempre disposta a comer ou dormir, e, quando adormecia, o seu sono era to profundo 
que se tornava difcil acord-la. Por isso no ouviu bater  porta
da        frente. O porto do jardim nunca ficava fechado e a Sr Sakai deixara-o entreaberto.
Foi Josui quem acordou. Tinha o sono leve e o seu aposento ficava num dos lados da casa, a poucos passos da porta
da entrada. Ouviu bater fortemente com o punho cerrado, depois com a palma da mo na porta de rtulas de madeira, e a seguir tocar A campainha. Acordou, ficou  
escuta, e chamou primeiro a me, depois a criada. Ningum respondeu. As pancadas continuavam, mais fortes do que nunca. Foi obrigada a levantar-se. Vestiu o quimono 
cor-de-rosa, alisou o cabelo, saiu e deu volta  casa pela varanda estreita, para poder ver sem ser vista. evitava fazer rudo e, quando chegou
ao canto da casa, espiou sem que realmente a avistassem.
Era ele! Estava ali, batia  porta, e no havia ningum
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para lha abrir. Josui recuou, conservando-se rente  parede de rtulas de madeira da casa, onde no poderia ser vista. Se permanecesse imvel, ele no ficaria a 
saber que estava em casa e iria embora. Manteve-se assim at as pancadas cessarem. Depois quis ver se ele j se afastara. Esticou a cabea, com todo o cuidado, o 
suficiente para poder olhar. Ele no tinha ido embora. Ainda l estava sentado num degrau, olhando de um- para outro lado. Ela encolheu a cabea instantneamente, 
mas no foi bastante rpida. Ouviu-o rir, ouviu-o falar na sua voz profunda e risonha, pronunciando zombeteiro e lentamente as palavras:
- Eu vi-a, Josui Sakai!
Ela no se moveu. No ousava respirar. Se voltasse a correr para o seu quarto, ele segui-la-ia? Isso seria horrvel! Em hiptese alguma devia entrar no seu quarto. 
Onde estava sua me? Onde estava Yumi? Impossvel que ambas tivessem sado, deixando-a szinha a dormir.
A voz profunda fez-se ouvir de novo, indolentemente, ainda risonha:
- Vir ter comigo ou terei de ir procura-la?
A estas palavras Josui procurou compor-se. Apertou mais o quimono na cintura e fechou bem a gola. O vesturio comprido no lhe deixaria ver os ps nus, metidos em 
chinelos cor-de-rosa. Apareceu cheia de dignidade.
- Minha me saiu por um momento. Dentro em breve estar de volta. Vou-lhe mandar a criada.
Dizendo isso, afastou-se rpidamente e entrou em casa,  procura de Yumi.
- Yumi! - chamou, em voz baixa, mas no obteve resposta. Na cozinha parecia no haver ningum. No encontrava Yumi em parte alguma. Que poderia fazer seno ir ela 
mesma  porta da frente?
- Minha me no tarda - balbuciou de novo, com as faces em fogo.
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- No quero ver sua me - disse ele, levantando-se. Tirou o qupi e ficou parado, fazendo-o rodar entre as mos. Josui estava sem aco. Que faria? No era possvel 
con
vid-lo
a entrar. Sua me no compreenderia. Ningum com
preenderia.
- No foi  aula, Josui Sakai? - perguntou ele.
- No, eu... eu estava um pouco cansada - gaguejou. - Voc parece uma rosa disse o rapaz. Josui apertou as mos, torcendo-as sem se aperceber. -julgo que no me 
quer aqui - disse ele, vendo o movi
mento agitado das suas mos.
- No  isso - protestou ela. -  que de momento estou
szinha e assim...
-Sendo uma rapariga distinta no sabe o que fazer
comigo.
Cometera um grande erro dizendo-lhe que se encontrava s em casa. Falara sem pensar.
- Por favor, v embora -murmurou.
Ela no sabia, por certo, que os seus olhos brilhavam, os seus lbios eram macios e vermelhos e o seu pequeno rosto se voltava para ele como uma flor aberta para 
o sol. O rapaz deu um passo na sua direco e toda a tortura do seu desejo, tanto tempo reprimido, o invadiu de repente. No conseguiu dominar-se. A emoo cegou-o 
sbitamente. J no lhe via o rosto e ficou impossibilitado de conter os passos. Inclinou-se sobre ela, tentando opor-se quele anseio incontido e sabendo que no 
iria resistir. Seria suficiente beijar-lhe os lbios, os lbios duma jovem, delicada e pura, naquele jardim maravilhoso, onde o prprio ar era impregnado de fragrncia 
e s se ouvia o rudo da cascata. Ela dissera-lhe que estava s. Suspirou e, passando rpidamente os braos ao redor de Josui, com imensa ternura, estreitou-a lentamente 
contra si. Viu o seu rosto junto ao dele, a proximidade dos seus lbios. Baixou a cabea e sobre eles colocou os seus, sorvendo-lhe a respirao arquejante, libertando 
uma das mos para segurar-lhe a cabea enquanto ela
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procurava desvi-la para um e outro lado. De repente Cessou de lutar, e ficou imvel.
Era esse o longo momento com que sonhara a noite inteira, o momento de que nada sabia e que nem ao menos podia Imaginar. Josui quase desfaleceu nos seus braos e 
ele, ento, levantou o rosto continuando, porm, a segur-la.
Ela no o olhou. No tentou desprender-se, mas virou a cabea e encostou a face no seu ombro para esconder o rosto. O rapaz baixou a cabea sobre os seus cabelos, 
to negros, to macios.
-Tinha que ser -murmurou.
Ela no podia falar. Percebendo isso, ele ergueu-lhe o rosto
novamente, segurando-a pelo queixo redondo e macio.
- Sabia que tinha que ser? - perguntou.
- No sei - murmurou ela. - Nunca fiz isto.
Ouvi-la confessar, assim, a sua inocncia, encheu-o outra
vez de ternura.
- Oh, minha querida! - disse baixinho, inclinando a cabea.
No - implorou a jovem. - Chega... para a primeira vez. Que farei? Preciso pensar, para ver o que significa. -Significa que a amo.
Nem sequer me conhece!
- Um homem no precisa conhecer uma mulher para am-la. Amando-a aprende a conhec-la. - Mas estamos no Japo!
- Voc e eu... um homem e uma mulher.
Josui olhou para o porto. A me devia estar a chegar. Com certeza fora ao mercado, como fazia sempre, e talvez Yumi a tivesse acompanhado.
- No posso ficar aqui. Minha me voltar dentro em pouco.
- Apresente-me a ela - pediu Allen, sem hesitar.
No, no - respondeu Josui prontamente. - No  to fcil. Meu pai odeia os americanos. Ama-me de mais.
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Ao mencionar o pai, afastou-se e ele soltou-a, sentindo a
mudana que se operara nela.
- Voc obedece sempre a seu pai, Josui? - Desejo obedecer-lhe sempre. - Quer dar-me uma oportunidade? - Uma oportunidade? -Sim, de deixar que me conhea. Josui suspirou.
- como seria possvel isso?
- Encontrei um meio, querida.
Ela esquecera aquela palavra "querida". Agora, porm,
voltou-lhe  memria. Kensan chamara a sua noiva assim. Era
uma palavra de amor. Ao ouvi-la pronunciada por aquela
voz grave, cheia de ternura, estremeceu. Onde encontraria um
amor como aquele? S na Amrica se poderia encontrar. L
ningum temia o amor.
Olhou-o sbitamente nos olhos.
- Vou confiar em si, Allen... Pronunciei bem o seu
nome?
- Gosto de ouvir a maneira como o pronuncia.
Viu-o inclinar-se, novamente, para ela. - No! Precisa ir...
-Onde nos encontraremos? Devo vir aqui? - No, no... preciso pensar agora. - Amanh, novamente, sob as glicnias? -Sim.
Ele inclinou a cabea e ela sentiu de novo os seus lbios, ternos mas poderosamente exigentes. Estavam apaixonados um pelo outro. Agora ela sabia. Amava-o! Sbitamente 
houve um farfalhar de folhas. Os dois ouviram, sobressaltados. Separaram os lbios e olharam para os ramos de bambus que pendiam sobre a porta. A folhagem verde 
e nova oscilava e danava movida por uma leve brisa circular, um pequeno remoinho de vento,
Que estranho! - exclamou Josui.
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- H alguma coisa ali? - perguntou ele, admirado.
Por um instante esqueceram-se um do outro e ficaram a observar o bailado das folhas. Depois, lembrando-se de que continuava nos braos dele, Josui desprendeu-se 
e correu para dentro de casa.
O seu procedimento era inconcebvel! Como pudera concordar com aquilo? Miraculosamente restabelecida, saiu no dia seguinte para a escola, com o mesmo vestido amarelo 
e uma sombrinha branca bordada de flores amarelas. Seus pais nada disseram e ela tambm no falou, visto que sobraava livros e uma caixa de lpis todos afiados. 
Evidentemente ia estudar com afinco. E era o que de facto pretendia fazer.
No entanto, ele veio ao seu encontro ainda antes que alcanasse o porto. Muito cedo j se postara ali  espera, e, envergando o seu uniforme muito limpo, estava 
mais atraente que nunca. Os seus olhos eram to azuis como o mar num dia de sol.
- Estou aqui para tent-la - disse com audcia, ao v-la.
Josui teve medo. Num dia como aquele, quem poderia resistir  tentao? Era preciso no esquecer que ela era uma rapariga ponderada. Fez um esforo para assumir 
um aspecto severo. Lamentou no usar culos, como muitas outras jovens.
- Gosto de v-la bonita - prosseguiu ele. - Assim a tentao torna-se mais fcil.
- Por favor, preciso de ir para a aula -rogou ela. Ele tomou um ar srio.
- Josui Sakai, s me restam cinco dias de licena. No vi coisa alguma de Kyoto, uma das mais famosas cidades do mundo. Quer vir comigo hoje e mostrar-me o que eu 
deveria ter visto? Como um dever patritico?
Ela ficou muda de horror.
- No  uma causa verdadeiramente nobre? - insistiu ele. - Sou um americano ignorante... No quero lembrar-lhe o facto de fazer parte da ocupao do seu pas. Digamos 
que sou um visitante. Desejo levar comigo uma boa recordao do
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Japo. Por isso vim  mais bela de todas as cidades. Quando voltar  Amrica, para nunca mais ver o Japo, vou dizer a todos que visitei Kyoto, que passei aqui os 
dias mais felizes da minha vida e que vi todas as maravilhas desta cidade, que jamais esquecerei.
Diante dos seus risonhos olhos azuis ela deixou-se vencer, no imediatamente, mas com um pequeno sorriso preliminar que ia aumentando, como em resposta  sua risada.
- A tentao  realmente grande, mas no posso. Que direi ao meu professor? Imagine se nos vissem juntos. Meu pai ficaria zangadssimo.
Ele sacudiu os ombros impecveis.
- Perdoe-me, sim? Como sempre,  a mulher quem corre o risco. Vamos esquecer a tentao. Voc deve ir para a escola.
O riso desapareceu dos seus olhos. Caminharam lado a lado em direco ao porto. Ele tomou-lhe os livros e Josui lembrou-se de que, na Amrica, os colegas de aula 
s vezes a tinham ajudado a lev-los. Era costume, l. Foi andando a seu lado, envergonhada de sentir o desejo de que ele no tivesse desistido to depressa. Ela 
agia correctamente, mas preferia no ter tanta capacidade para distinguir entre o que era correcto e o que o no era. Se a gente no fizesse tais distines, seria 
agradvel proceder mal, de vez em quando.
Olhou-o com o canto dos olhos amendoados e viu que ele a fitava. Novamente o seu olhar brilhou com aquele azul intenso, e os lbios se contraram como se tivesse 
vontade de rir.
- Eu podia colocar estes livros de baixo da raiz da glicnia - sugeriu ele. -  to grossa e retorcida que d at para a esconder a si. J estive a examin-la.
-  o que vou fazer! - exclamou ela. Palavras incrveis!
Mas foi realmente esconder os livros. Ningum a viu. Era ainda muito cedo.. Colocou-os sob as razes da glicnia e depois comearam a caminhar rpidamente por uma 
das estreitas ruas transversais.
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- Fale-me de Kyoto - disse ele, como se estivesse, de facto, interessado. Ela respondeu-lhe com seriedade, para acalmar a conscincia agitada.
-  uma cidade muito antiga, que foi a nossa capital durante mil anos. Tem catorze mil velhos templos budistas e mais de um milho de habitantes. H os antigos palcios 
imperiais, e os velhos jardins, os mais belos do mundo,
- Mostre-me os jardins, minha pequena guia - pediu Allen.
Num jardim, pensou ele, haver esconderijos, grutas, rochas, lagos tranquilos, sebes e moitas de arbustos. Quando viu que Josui no o levava a um lugar assim, imaginou 
que estivesse a divertir-se com ele.
- O Templo Ryoanji - explicou ela. - E este  o jardim de Pedra.  um dos mais famosos.
Josui olhou para um rectngulo rido, um deserto cercado por um muro baixo. Rochas calvas se erguiam como ilhas dentro de um mar de areias brancas, sem vida. Um 
ancinho enorme desenhara ali ondas estticas, longas linhas curvas, imveis.
- Um jardim? - perguntou ele. Por instantes esqueceu os seus propsitos do momento. Havia ali qualquer coisa que no entendia, uma dignidade imensa e incompreensvel.
- Vai ver - disse Josui, com seriedade. - Conte as pedras, por favor.
Havia quinze grupos de cinco e duas, de cinco e trs, e de trs e trs.
- Nem todas so ilhas - explicou ela. - Algumas sugerem aves aquticas em repouso. - Apontou com o dedinho para um grupo. - Ali, veja, patos selvagens.
As pedras eram como a natureza as criara, sem entalhes, cinzeladas apenas pelo vento e pela gua, trazidas ali para dormir, mas efectivamente lembravam aves selvagens.
- Voc entende este jardim? - perguntou ele.
- No inteiramente - confessou. - Sei alguma coisa por
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que meu pai me trouxe aqui. Ele entende. Pelo menos, sabe. Este jardim reflecte a alma pura do homem que o criou. E famoso e muito antigo. Se ficssemos aqui muitas 
horas, em silncio, comearamos a entend-lo.
Ele sacudiu a cabea.
- Eu, no! Prefiro mais vida.
Pacientemente ela levou-o ao jardim verde de um velho palcio, um lugar encantador, onde outeiros baixos uniam antigas rvores ao cu. Ainda assim, no era um lugar 
para o amor. Tratava-se de um jardim vigiado, em que cada folha era observada. Allen no viu empregados, s visitantes como eles, que pareciam ter vindo para olhar, 
mas no havia a natureza primitiva que permite a liberdade. Caminhava ao lado de Josui, constrangido, impressionado, admirado, mas sentindo-se enclausurado. No 
ousava pegar na mo da jovem. Ela tambm parecia remota. Sentiu que Josui pertencia quele lugar, mas ele no.
Por volta do meio-dia, estava saturado de palcios e templos, jardins e deuses.
- Estou com fome - disse de repente. - Andei quilmetros sobre pedra polida. Vamos a algum lugar para comer, depois alugarei uma carruagem e iremos para fora da 
cidade. Quero ver um pouco de terra inculta.
Ela aquiesceu quase como em sonho. Tendo cedido tanto, cometido o pecado monstruoso de um dia roubado, parecia agora disposta a tudo. A esse pensamento o sangue 
de Allen pulsou-lhe mais rpido nas veias.
Durante o almoo ela esteve bastante alegre, correspondendo s suas brincadeiras e perguntas, procurando adivinhar quem poderiam ser as poucas pessoas que havia 
no pequeno restaurante. Josui nunca estivera naquele lugar obscuro, situado numa ruela, e onde s a excelente tempura de camaro, o ch verde-plido e o arroz seco 
e branqussimo tornavam a permanncia suportvel. Um caixeiro, sugeriu ela, quando Allen lhe apontou um homenzinho plido, metido num traje de linho
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cinzento, talvez o caixeiro de uma pequena loja; uma empregada domstica, que entrava para comprar alguns cantares; um velho solitrio que preferia comer ali a faz-lo 
em casa; um homem de meia-idade vido por saborear um bom prato, prazer que no podia permitir-se na sua residncia por causa dos muitos filhos.
Mais tarde, porm, na encosta da montanha, sentiu-a novamente distante.
Desceram da carruagem desengonada, ao p do outeiro, deixando o velho e sonolento pnei branco e o cocheiro que no demonstrava curiosidade, mudo pelo menos na 
presena de um americano em uniforme. Subiram a vertente por um caminho de tijolos que seguia por entre grupos de bambus. .Parecia um lugar ermo; no obstante, Allen 
desconfiou. Os tijolos do caminho estavam limpos de mais, as samambaias tinham sido plantadas em lugares demasiado escolhidos, no meio dos bambus, e no havia vegetao 
rasteira nem matagais. Encontrou um canteiro de musgo e parou.
- Est bom aqui. Macio como uma almofada, no ? Sente-se, Josui.
Ela obedeceu, sentando-se um pouco distante, apoiada nos joelhos. Os cabelos finos, sobre a sua testa, estavam hmidos e colados  pele lisa e molhada. Os lbios 
estavam vermelhos. Olhou-a por um instante, imaginando o meio de vencer a distncia que Josui cavara entre ambos. De sbito pegou-lhe na mo.
-- Josui!
Ela voltou para ele os olhos grandes e lmpidos. - Fale-me da Amrica- pediu.
A Amrica! Estava bem longe dos seus pensamentos naquele instante.
- Passei a manh inteira a mostrar-lhe o Japo- disse ela. - Agora mostre-me um pouca a Amrica. Da Califrnia ainda me recordo. Mas fale-me da Virgnia, de sua 
casa, de seus pais. Eles ainda vivem?
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No retirou a mo nem to-pouco se afastou dele. Mas falar na Virgnia e fazer-lhe perguntas a respeito de sua casa era "o mesmo que afast-lo de si.
- Estou to curiosa - implorou.
- Bem - disse ele contra vontade. - Moro numa cidadezinha; isto , a nossa casa fica numa cidade pequena, perto de Richmond.
- Richmond?
-  como Tquio - explicou ele - mas no to grande.
 a capital s da Virgnia.
- Conte-me como  a sua casa- insistiu ela, com suavidade.
Ele olhou para a mo dela e comeou a brincar delicadamente com os dedos, com a pequenina mo esquerda, despida de anis. Ela no usava jias de espcia alguma.
-  uma casa grande, de madeira - comeou - pintada
de branco. Seis grandes colunas brancas, uma casa velha, de
meu bisav. Em redor, muitos hectares de terra, uns mil,
calculo eu, matas e colinas, um rio.
- Parece lindo-suspirou Josui.
- Dentro h um vestbulo, uma escada larga de caracol
que vai at ao sto, e todos os aposentos usuais.
-Onde  o seu quarto? - perguntou ela. - Em cima, do lado esquerdo, na frente.
-Lembro-me dos tapetes na Amrica, quadros, cortinas
e coisas assim - disse ela.
- Coisas assim - concordou Allen.
- Camas e cadeiras com ps, e mesas tambm? - Tambm, e tudo com ps. -Sua famlia  composta de... pai e me? - E de mim; s.
-  filho nico?
- Sim.
Josui tomou um ar srio.
Talvez seja precioso demais -sugeriu.
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Ele riu.
- Houve ocasies em que pensei o mesmo. A jovem reflectiu por algum tempo..
- E sua me? Como  ela?
- Boa, acho eu.
- Quero dizer, quanto ao aspecto?
- Ah! - Ele compreendeu. - Um pouco pequena, esbelta, bem bonita. Mas  forte, muito' forte.
- E seu pai?
- Um homem grande, calmo... preguioso.  o que diz minha me.
- Ele tem algum trabalho?
- advogado, mas no exerce a profisso. Acredito que no precise, desde que meu av morreu.
Josui compreendeu que isso significava riqueza, mas delicadamente evitou falar em dinheiro. Olhou por cima das pontas dos bambus que cresciam abaixo de um pequeno 
penhasco, a poucos metros do lugar onde estavam sentados. A cidade de Kyoto ficava l em baixo, mas na realidade no to longe quanto parecia.
- Preciso ir para casa imediatamente - disse ela de sbito. - Devo ir para casa quando as aulas tiverem terminado.
Essa observao lembrou a Allen que o dia se escoava rpidamente. Deitou-se de costas sobre o musgo, fazendo travesseiro dos braos cruzados sob a cabea.
- Anda no, Josu!
Ela fitou-o com uma expresso que ele no pde entender. Seria medo?
- Deite-se ao meu lado, Josui.
Ela sacudiu a cabea e o rubor subiu-lhe do alvo pescoo 
ao rosto.
- Porque no, querida?
Josui no respondeu, mas ele viu-lhe tremer o lbio inferior, que ela apertou com os dentes.
- Est com medo de mim? - perguntou ternamente.
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-Um pouco - confessou ela.
- No a magoarei, querida. Ela sacudiu de novo a cabea.
- Esquece-se de que a amo? - perguntou com maior
ternura na voz.
- No-respondeu ela baixinho. - Lembro-me disso. Mas
porque me ama?
Voltou-se e olhou-o com os seus olhos grandes e graves.
Allen sentou-se de repente. Porque a amava, na verdade? Ela
tornara impossvel a realizao dos seus propsitos.
- No sei - disse. - Pergunto a mim mesmo. Acho que
estou... faminto, digamos. No encontrei aqui ningum a quem
pudesse amar. S voc!
- Dentro de alguns dias ir embora. - Mas voltarei.
Ela sorriu.
- Ento podemos esperar - exclamou. - No  necessrio decidir agora por que razo me ama.
Ergueu-se quase abruptamente e ficou a olhar aquele rosto que a fitava ansioso. A seguir, de sbito, deitou a correr encosta abaixo, leve, gil, e ele no teve outro 
remdio seno segui-la, meio zangado, meio divertido. Ela no parou a no ser junto  carruagem, quando exclamou, arfante:
-Oh, nunca corri tanto desde que estou no Japo! Costumava correr assim na Califrnia, mas aqui nunca.
O velho cocheiro olhou-a, espantado. O cavalo acordou com um relincho.
-  este o final do dia? - perguntou Allen.
- Deste, sim - retrucou ela. - Um dia consigo, Allen Kennedy!
At ento nunca pronunciara o seu nome completo e agora disse-o, destacando as slabas, acentuando graciosamente cada uma delas, como uma promessa, talvez, de muitas 
futuras.
O dia, que ao comear parecera to impossvel a Josui,
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terminava assim numa alegria de sonho. Encontrou os livros intactos debaixo da raiz da glicnia. Era tarde e todos tinham voltado para casa, com excepo do velho 
porteiro. Dormia, sentado no seu cubculo, como fazia muitas vezes quando os alunos se tinham ido embora e o ptio do colgio ficava silencioso. No a viu chegar 
nem sair, e ela parou s mais um instante na rua, para se despedir de Allen.
- Mas eu ainda no vi o suficiente - protestou ele. - No vi a cidade de Nara. Todos precisam conhecer Nara.
- Devia ter ido com os seus amigos - disse ela formalmente. - No foi por minha culpa.
- Foi por sua culpa, sim - retrucou ele. - Vi-a e tive que descobrir quem era.
Tratava-a de maneira meio brincalhona, meio infantil, mais em sua prpria defesa que por causa dela. Comeava a sentir-se amedrontado diante da intensidade e da 
perseverana dos seus propsitos, e pouco inclinado a descobrir as verdadeiras razes. No desejava fazer o que via outros homens fazerem todos os dias. No queria 
acreditar que era como eles. To-pouco acreditava que Josui fosse igual s jovens japonesas comuns, que em Tquio costumavam imitar as americanas mais vulgares.
Admirou-se ao notar uma expresso de surpresa triste no seu rosto srio..
- Quer que eu o acompanhe a Nara amanh? - perguntou Josui.
-  o que desejo humildemente.
Ela continuou a olh-lo.
- Preciso pensar - disse por fim.
- E como saberei o que pensa, Josui?
- Se eu resolver acompanh-lo, virei aqui amanh de manh, mas sem os livros.
- Ficarei  espera.
Separaram-se sem trocar um aperto de mo sequer, como se cada um soubesse do desejo relutante e temeroso do outro.
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Josui sentia-se aturdida com a sua perversidade, pois foi para casa como se tivesse voltado da escola normalmente. O pai estava atrasado, pois atendera uma chamada 
urgente, e ela jantou s com a me. Essa circunstncia tornou as coisas mais difceis. Se o pai estivesse presente, como de costume, teria sido bem simples a sua 
reserva habitual. A me era to complacente, to gentil e boa, sempre ansiosa por v-la feliz! Era na realidade difcil responder s suas perguntas, insistentes 
e ao mesmo tempo amveis. Detestava mentir, e, no entanto, como evit-lo agora?
- Devia ter estado muito quente na sala de aula, hoje - disse a me.
- A classe fica do lado norte-respondeu Josui.
Tirou os pratinhos da bandeja de sua me.
- Por favor, no te incomodes- pediu a Sr Sakai. - Estou com muito pouco apetite. Nem tenho coragem de te contar.
- Contar-me o qu, me? - perguntou Josui.
- A chamada urgente foi da famlia Matsui. Trata-se de Kobori. Teu pai teme que seja apendicite.
Josui teve que demonstrar interesse.
- Kobori? Oh, espero que no seja grave!  o ltimo filho daquela casa.
- E um filho to bom!
- Sempre ouvi dizer que  - replicou Josui. Baixou a
cabea e principiou a comer, sem levantar os olhos.
- Teu pai tem tanta responsabilidade - continuou a me. - O Sr. Matsui  o seu melhor amigo - replicou Josui. - No  s isso - disse a Sr Sakai, - Teu pai tambm
pensa em Kobori. Gosta muito dele, e s vezes deseja... muitas
coisas.
Josui sabia o que o pai desejava, mas no conseguiu encontrar uma resposta adequada. Estava imersa num sonho de amor secreto, longe daquele lugar, de sua casa e 
de seus pais. J os deixara, voltando-se inteira, corpo e corao, para
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o jovem americano. De nada servia fingir. S conseguiria esconder a verdade at ao momento de saber o que ele pretendia fazer. Conhecera muitos rapazes americanos, 
mas nenhum como ele. Os que vira tinham sido os tipos barulhentos das ruas, os atrevidos, os soldados bbedos que importunavam e zombavam das pessoas. Durante as 
paradas pareciam limpos, eram silenciosos, sempre obedientes. Marchavam em linha perfeita, erguendo e baixando os ps em precisa uniformidade. Nas paradas no olhavam 
nem para a direita nem para a esquerda, a no ser que se lhes ordenasse e ento todas as cabeas se voltavam como uma s. Quando no estavam em parada, no entanto, 
passavam a ser fragmentos de um todo, e cada fragmento se transformava numa unidade barulhenta, sempre igual s outras. Desprezava-os, fugia deles, escondia-se na 
entrada de algum porto at que passassem. As japonesas que andavam com eles eram ainda mais desprezveis. Realmente, ela no era como aquelas raparigas; era diferente. 
E ele tambm era diferente. Por isso o amor de ambos no podia ser como outros amores. Mas que deviam fazer?
Josui respondia distraidamente s perguntas de sua me, s vezes mentindo. Ao terminarem a refeio, viu que ela a olhava com ar perplexo.
- Existe alguma coisa que sintas e no me queiras dizer? - perguntou a me.
  smente um problema que surgiu durante as aulasdisse Josui. Surpreendeu-a a facilidade com que lhe ocorriam respostas como aquela. Embora verdadeiras no sentido 
literal, no passavam de mentiras. Um dia ficaria triste ao reconhecer que era uma mentirosa, mas nesse momento, quando o seu esprito e o seu sangue estavam inundados 
de doce deslumbramento, a nada ligava.
Recolheu-se cedo, dizendo que se sentia muito cansada, e deitou-se imediatamente. A noite estava clara, e, da sua esteira no cho, fitou o cu cheio de estrelas, 
atravs da abertura deixada pela parede de papel corrida para um lado. O ar parecia
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conter humidade, ou talvez fosse s a quietude da noite que fazia as estrelas parecerem grandes e suaves. No cintilavam, mas delas flua uma luz amarelada, como 
lanternas de seda suspensas ao longe. Estaria ele tambm pensando no que deveriam fazer? Seria possvel no acontecer nada quando duas pessoas se amavam? Acontecia 
sempre alguma coisa. Lembrou-se das histrias das revistas que costumavam ler na Califrnia. Nelas, o casamento sempre se seguia ao amor. Primeiro vinha o beijo, 
depois a declarao e a seguir marcava-se a data do casamento. Recebera o beijo, e ele fizera-lhe a declarao. S restava agora que lhe pedisse para fixar o dia 
do casamento, caso este costume ainda permanecesse. No Japo muita coisa mudara. Talvez o mesmo tivesse acontecido na Amrica, especialmente na Virgnia.
Suspirou, pensou no rosto dele e sorriu; mal podia esperar pelo dia seguinte.
O tempo cooperou, novamente, com uma manh cheia de sol. Despertada pela luz do dia, Josui levantou-se cedo; viu a me, mas no se encontrou com o pai. Chegara tarde, 
disse-lhe a me. Tinha operado Kobori, que ainda no estava fora de perigo, pois o apndice supurara, e o Dr. Sakai continuava preocupado. S voltara para casa de 
madrugada, mas dera ordem para que o chamassem s nove horas se ainda no tivesse acordado.
Josui saiu de casa s oito e meia. Deixou saudades ao pai e depois esqueceu tudo. Durante a noite cara um pequeno temporal. As ruas ainda estavam molhadas e o cu 
era de um azul esplendoroso. Allen j estava  sua espera. Desta vez o velho porteiro ficara parado no porto olhando, pensativo, para a rua. Josui viu-o e estacou. 
Allen, avistando-a, aproximou-se. Encontraram-se na rua estreita a oeste da Universidade.
- Ele no a viu - disse o rapaz.
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-  melhor irmos pelas ruas laterais at  estao - disse ela. - Nara fica a menos de uma hora daqui.
Deram-se as mos e assim foram andando, em silncio, pelas ruas molhadas. Dos galhos das rvores caam sobre eles gotinhas de chuva. Ela vestia uma saia de algodo 
azul e uma blusa leve, branca, e as gotas produziam pequenos crculos transparentes na fazenda, deixando entrever a pele. Nunca usava chapu e os pingos de gua 
caam-lhe sobre o rosto e os cabelos.
-Orvalho sobre uma flor - disse Allen.
Ela sorriu-lhe com os olhos inundados de amor.
O comboio, quela hora matinal, no estava muito cheio e Allen insistiu para que viajassem ao menos em segunda classe. Josui notara, mas fingia no perceber, os 
olhares curiosos dos passageiros, admirados de ver uma japonesa de boa famlia ao lado de um americano. Nada se podia fazer contra isso, mas ningum aprovava. As 
mulheres olhavam-na altaneiras e os homens, com severidade. Ela procurava ignorar o facto e, falando ingls lmpido e fluente, explicava com rapidez a Allen todos 
os lugares,  medida que o comboio passava.
- Nara foi a primeira capital permanente do Japo - disse em voz clara e um tanto alta. - No princpio no tivemos uma capital fixa. Cada soberano a estabelecia 
no lugar onde residia. No primeiro sculo, porm, Nara foi escolhida para capital, e continuou assim durante sete reinados. Mais tarde foi escolhida Nagaoka, tambm 
situada perto de Kyoto.
- Que veremos em Nara? - perguntou Allen, percebendo que a jovem prestava esses esclarecimentos tanto em benefcio dos outros como dele.
- O que quiser - respondeu. - L existem lojas, pal
cios, templos, santurios, o grande Buda, o Parque Imperial... - O parque - disse ele, prontamente.. -  grande? - Tem mais de mil e duzentos hectares. - Ento o 
parque.
Ela continuou a falar, prudentemente afastada dele, at
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que o apito agudo do comboio indicou a chegada a Nara. Desceram e, ainda bastante formal, ela contratou jinriquixs, com que foram at ao parque. Era necessrio 
que algum tempo se passasse para apagar da memria a desagradvel lembrana dos olhares acusadores dos passageiros. No parque ficaram a passear durante uma hora. 
Quando, porm, chegaram a um lugar ermo,  ele no resistiu mais ao desejo. Caminhavam por uma passagem estreita e Allen ia  frente. De sbito voltou-se e tomou-a 
nos braos.
Agora Josui no tinha j quaisquer dvidas em entregar-se ao beijo. Beijar j no lhe era estranho. Era alguma coisa conhecida, de uma doura imensa, e ela ansiava 
pela sua repetio. Era ainda uma experincia, uma consumao em si mesmo.
Para ele, todavia, o beijo era mera introduo, a pergunta feita por vezes at mesmo a uma estranha, um convite que conduzia a novas exploraes. Beijou-a repetidamente, 
atraindo-a cada vez mais a si, com maior intimidade, envolvendo-lhe a cintura com um brao e com o outro segurando-lhe o queixo. Depois, tendo chegado ao fim dos 
beijos e impelido de maneira incontrolvel ao que devia seguir-se ento, Allen levantou-a nos braos e deitou-a sobre o musgo debaixo dos pinheiros que lanavam 
sombra sobre eles. Deixou-se cair junto a ela, as mos trmulas, audaciosas.
Imediatamente Josui compreendeu o motivo daquele movimento brusco. Levantou as mos e afastou-lhe o rosto, com fora.
- Pare! -murmurou. - Assim no, Allen Kennedy! No!
O tom de censura da sua voz teve efeito irresistvel.
A conscincia do rapaz, sensibilizada por uma infncia longa
e feliz na grande casa branca da Virgnia, despertou contra a
sua vontade. O enrijecimento dos anos de guerra no era pro
fundo. Tentara cultivar um certo cinismo inexperiente dos
jovens de hoje, que so obrigados a enfrentar a vida e a morte
a um s tempo. Mas o seu cinismo no passava de um tnue
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verniz e os anos tinham sido poucos para solidific-lo. O desejo esmoreceu ao som daquela voz cheia de tristeza; escondeu o rosto no peito de Josui e ficou quieto.
Ela permaneceu imvel durante alguns minutos, deixando a cabea de Allen pesar-lhe sobre o colo. Depois afastou-se brandamente e, como no dia anterior, ficou sentada 
enquanto ele continuava deitado de costas, olhando para a copa das rvores. Foi ela quem comeou a falar, resolutamente.
- No sei bem o que sou, se mais japonesa ou mais americana. Penso que sou, acima de tudo, a filha de meu pai. Sou uma Sakai. Ns no somos gente comum. Somos algo 
melhor. E preciso que voc e eu examinemos quanto nos amamos. Precisamos decidir se devemos dizer-nos adeus, ou...
No pde prosseguir. No suportava a ideia do que seria dela se ele respondesse: "Vamos dizer-nos adeus." Tinha de pensar no pai. Devia lembrar-se da sua fisionomia 
boa, severa, e tirar foras para si do orgulho dos Sakai. A aceitar a ignomnia de um campo de concentrao, seu pai preferia o regresso  ptria.
- Precisamos decidir tudo hoje? - perguntou Allen. Ela inclinou a cabea enrgicamente. - Precisamos!
- Porqu?
Josui hesitou e depois disse com firmeza:
- Porque cada vez que estamos a ss voc me agride. Ele ficou chocado com a sua franqueza. - Oh, Josui!
- E no _ uma agresso? - perguntou, voltando para ele os olhos grandes, brilhantes.
- Suponho que sim, j que quer expressar-se com tanta clareza - concordou ele, relutante.
- Tambm no quero desculpar-me a mim mesma - disse ela vivamente. - Se concordo em ficar a ss consigo, cabe-me aceitar a responsabilidade.
- Que palavras difceis lhe ensinaram na Califrnia!
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- No aprendi isto na Califrnia. Foi meu pai quem me
ensinou, aqui no Japo. - Um pai rigoroso? - Talvez.
Como ele no respondesse, acrescentou:
-Talvez isso seja muito bom... para uma rapariga.
Josui passou os braos em redor dos joelhos e baixou a cabea. A sua nuca era cor de marfim plido. Alguns fios de cabelo liso e macio se tinham desprendido do rolo 
e esvoaavam, soltos, no ar impregnado do aroma dos pinheiros. A cabea assentava graciosamente sobre o pescoo. Os braos eram brancos e redondos; as mangas da 
blusa s os encobriam at aos cotovelos. As mos eram tambm bonitas. A maioria das japonesas no tinha mos e ps bem formados. Usava meias brancas e sandlias, 
e Allen no lhe pde ver os ps.
- Tire os sapatos - disse ele, repentinamente. - Deixe-me ver os seus ps.. So to bonitos como as mos?
Para grande surpresa sua, ela enrubesceu. Levantou-se de sbito, afastou-se dele alguns passos.
-Agora j no posso ficar aqui consigo- disse, quase com violncia. - No ficarei! Voc ofende-me muito fcilmente, Allen Kennedy! Mas eu ao menos tenho respeito 
a mim mesma. Agora sei o que sente. Amor! O que  isso? No quero um amor assim.
Comeou a caminhar, afastando-se dele. Allen ergueu-se de um pulo, correu para ela e pegou-lhe a mo.
- Josui, que foi que eu disse? Porque se ofendeu, querida? Existe alguma coisa que eu no entenda? - Segurou-a pelos ombros. - Josui, responda-me.
Ela fulminou-o com olhos chamejantes, as faces rubras, os lbios trmulos de clera.
- Voc no me d uma resposta, Allen Kennedy. Eu
perguntei-lhe: "Que faremos?" E voc responde: "Mostre-me os
seus..."
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Interrompeu-se, voltou a cabea para o lado e as lgrimas encheram-lhe os olhos.
Allen sentiu-se comovido e obrigado a usar de sinceridade. - Querida, se no respondi  porque no sei o que responder.
- Se no sabe, ento no devia... no devia ter-me tocado.
Ele baixou as mos.
-Tem razo.
Ela prosseguiu:
- Se no sabe, ento, por favor, volte hoje ainda para Tquio e de l para a Amrica, para sua casa. Esquea, por favor, que me viu e deixe-me esquecer...
- Voc pode, Josui?
-Sim, agora ainda posso. Mais tarde... no sei.
Ele ficou a olhar para aquela figurinha esbelta e descon
solada. Como permanecesse calado, ela disse baixinho: - Quero ir para casa.
Tomaram o primeiro comboio para Kyoto e na estao separaram-se, porque ele insistiu que assim fosse. - Nunca a esquecerei, Josui.
- Esquecer, sim.
- E se no conseguir... posso escrever-lhe? - Voc no escrever.
Deixou-o sem lhe dizer adeus, olhando-o apenas longamente e de maneira insondvel. Depois, embora ele ficasse parado a segui-la com o olhar at perd-la de vista 
entre a multido nas ruas, no se voltou uma s vez..
Quanto a ele, dirigiu-se para o hotel, arrumou as malas e tomou o primeiro comboio para Tquio. No queria mais saber de licenas. Quanto mais cedo voltasse ao trabalho, 
tanto melhor.
- Kobori est melhor- disse o Dr. Sakai. - Tem boa sade e reagiu muito bem aos novos medicamentos. - Folgo em saber- disse Josui, aptica.
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O Dr. Sakai percebia que alguma coisa se passava com a filha, e nessa manh consultara sua mulher a esse respeito.
- No me disse nada - replicara a Sr Sakai. - Fica zangada comigo se lhe pergunto porque anda triste. Afirma que no est.
- Ela prpria no sabe o que tem- disse o Dr. Sakai, resoluto como sempre. - A sua agitao  de origem biolgica. Est em idade de casar e no o percebe. Eu mesmo 
vou tomar conta deste assunto.
Em qualquer outra ocasio a Sr Sakai ter-lhe-ia pedido que tivesse pacincia, mas nessa manh, limitou-se a responder:
- Tens razo, sem dvida.
- Kobori - disse o Dr. Sakai mais tarde, em continuao da sua conversa com Josui - pode ser chamado um modelo de rapaz japons. No entanto  moderno. Nunca vai 
a extremos. Respeita o pai, mas ir bem mais longe que ele. Um dia Kobori ser um homem muito importante. Queria que tivesses visto como tem o organismo sadio. Quando 
fiz a inciso, o sangue era de um vermelho muito claro e puro.
- No obstante, o seu apndice estava infeccionado - lembrou Josui, com certa crueldade.
O Dr. Sakai ficou indignado.
- O apndice  um remanescente do homem primitivo, e j no exerce qualquer funo. Por isso no se pode culpar Kobori. De agora em diante no ter mais contratempos.
Ela queria desviar o pensamento de Kobori, mas um instinto que a impelia a castigar-se, e at a correr ao encontro do seu destino, fez com que prosseguisse.
- Pai, porque no diz o que pensa? - perguntou arrojadamente. - Quer que eu case com Kobori. Porque no o diz?
O Dr. Sakai perdeu completamente a calma.
- s uma filha teimosa e desobediente! - gritou. - Sabes muito bem porque no ouso falar-te com franqueza. Tu s
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igual s raparigas americanas. Quando souberes das minhas esperanas, tratars de destru-las!
Ficou consternado com o seu acesso de clera e preparou-se para o contra-ataque de Josui. Tudo estava perdido, sem dvida. Ela nunca cederia. Para surpresa sua, 
a filha respondeu com meiguice.
- Comeo a modificar-me, pai. Tenho pensado muito e acho que seria melhor casar-me com um japons, como tantas vezes me aconselhou. Em diversas ocasies pensei que 
gostaria de voltar  Amrica, mas agora nunca mais irei. O meu lugar  aqui. Assim, tanto faz ser Kobori como outro qualquer.. Como o pai diz, ele  bom; e eu quero, 
acima de tudo, um homem bom.
Falava de modo to ponderado, quase meditativo, e at triste, que o pai mal pde acreditar que era ela quem falava. J sem clera, gaguejou:
- Josui, minha filha... que bom-senso... sinto-me surpreendido. Devo... queres que fale com o pai de Kobori? Diz-me, que queres que faa por ti?
Ela olhou-o com olhos grandes e tristes. - O que achar melhor, pai.
O Dr. Sakai ficou deveras alarmado.
-Tu no ests doente, minha filha?
- No, pai. Sinto-me muito bem, melhor que nunca.
Depois, vendo-o apreensivo, tentou sorrir. - At que enfim
estou a sentir-me adulta. Sabe que tenho vinte anos?
As suas palavras alegraram-no, embora no lhe tivessem
restitudo a completa tranquilidade.
- Podes ter a certeza de que no quero apressar-te - disse solenemente. - Tambm no permitirei nem mesmo a Kobori que te apresse.
- Obrigada, pai.
Fez uma leve mesura e saiu para o jardim, com a inteno de dar uma nova disposio s pedras dentro do lago. Escolheu algumas de forma redonda, lisas e lavradas 
pela gua. Nunca
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apanhava mais do que umas vinte e atirava sempre fora as menos bonitas. Sob as guas claras as cores intensificavam-se. Pedras que pareciam opacas  luz do dia muitas 
vezes adquiriam brilho sob a gua. Josui movia-as to delicadamente, que mal agitava a sua imagem reflectida no lago.
Allen nunca lhe escrevera. J passava um ms desde o seu ltimo encontro e no chegara nenhuma carta dele. Josui sentia-se satisfeita por no saber o seu endereo 
e, por isso mesmo, no poder escrever-lhe. Durante noites de insnia tinha havido horas em que, num impulso de fraqueza e desespero, seria capaz de lhe escrever 
implorando que voltasse ou at mesmo que a deixasse ir ao seu encontro. Mas se lhe tivesse escrito e ele tivesse respondido, mais cedo ou mais tarde isso seria o 
fim de tudo entre eles, pois, ainda que transcorressem muitos anos, um dia o seu orgulho, agora prostrado, se levantaria novamente. Dessa forma, o germe da destruio 
j estaria alojado nas razes daquele amor.
Gradualmente, atravs das semanas de espera, das muitas noites de viglia vencidas uma aps outra, o seu futuro se delineara de maneira ntida, um futuro simples, 
o caminho inevitvel de todas as mulheres japonesas: casamento, marido, filhos, lar. Tudo o que se dizia a respeito da mulher em nada alterava nem podia alterar 
o inevitvel. Assim, como dissera ao pai, porque no Kobori? Aos poucos ia-se acostumando a esse pensamento. Lembrava-se da sua fisionomia plida, do rosto um tanto 
largo, as feies um pouco pesadas, mas de expresso amvel e bondosa. E recordava tambm nitidamente a sua voz agradvel, lenta, pronunciando as palavras de forma 
um pouco indistinta, com um leve gaguejar. Falava mal o ingls. "Sou uma nulidade em questo de lnguas", confessara-lhe um dia, mas isto no parecia preocup-lo. 
Pelo menos no era repelente. E no era agressivo. No se imporia a ela. Com o tempo, talvez conseguisse am-lo o suficiente. Poderia ter-lhe respeito, ao menos. 
O que desejava, acima de tudo, era
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apenas bondade, e essa ele possua-a em grau mais elevado que qualquer homem do seu conhecimento.
Josui esfregou uma pedra redonda, esverdeada, nas palmas das mos e depois deixou-a cair na gua. O verde tornou-se claro, uma cor suave e agradvel, sem brilho 
ou esplendor excessivo.
O Vero em Tquio era muito quente. As ruas modernas de asfalto desprendiam o intenso calor armazenado e, de vez em quando, a central elctrica falhava e os ventiladores 
paravam, quase sempre nas horas de maior calor do dia ou da noite. A nica maneira de suportar o insuportvel era afundar-se no trabalho.
- Tenente Kennedy!
 porta estava um soldado, trazendo a correspondncia. - Cartas de casa, tenente.
- Ponha-as em cima daquela mesinha. Preciso terminar este relatrio primeiro.
- Sim, senhor.
O soldado fez a continncia, pousou com cuidado um mao de dez ou doze cartas sobre a mesa e retirou-se.
A famlia! Pai, me, tias, tios, primos, todos lhe escreviam devotadamente, considerando-o um mrtir por ter de permanecer num pas to longnquo e pago. "Querido, 
quando te deixaro voltar para casa?" Todas as cartas de sua me comeavam assim, nesse tom queixoso.
Continuou a bater, rpidamente, no teclado da mquina de escrever porttil. Tenente era uma categoria muito cmoda que abrangia uma srie de obrigaes, especialmente 
aquelas das quais os oficiais superiores se queriam ver livres, ou para que no tinham competncia. Conhecera at generais que no sabiam escrever -ou mesmo falar 
correctamente. Quando descobriam que ele era graduado pela Universidade, encarregavam-no do servio exaustivo de escrita. Ele, por sua vez, sentia uma satisfao 
muito especial em transformar relatrios inspidos
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como aquele que estava a elaborar, e que se relacionava com certas organizaes civis dos japoneses durante a ocupao, em pequenas obras de arte estilstica. Naturalmente, 
os que chegassem a ler tal relatrio no teriam capacidade para apreci-lo! No entanto, percebeu que comeava a tomar um novo interesse pelo que escrevia agora sobre 
os japoneses, e isso, reconhecia-o, era devido a Josui. Por intermdio dela, entrara numa espcie de contacto mais real com esse povo, embora Josui continuasse para 
ele uma pessoa  parte, a mais bela rapariga que jamais vira. No s era bonita como possua coragem. Amara-o, fora-lhe difcil resistir, e mesmo assim tinha-se 
mostrado forte.
Como sempre quando a lembrana de Josui lhe voltava ao
esprito, e isso acontecia umas vinte vezes durante o dia e inmeras  noite, ele avaliava todas as possibilidades. Supondo que o fim tivesse sido diferente, supondo 
que a tivesse pedido em casamento, como teria feito, sem vacilar, se se tratasse de uma americana a quem amasse... e depois? Perdeu-se num labirinto de pensamentos, 
com os dedos imveis sobre o teclado. Poderia viver ali no Japo. Estaria disposto a passar a vida no Japo? Ou, quem sabe, iriam morar na Amrica? L havia muitos 
lugares onde viver feliz com ela e os filhos... ah, os filhos! Seria preciso terem filhos? Certamente ela os quereria e, para ser sincero, ele tambm. Sempre imaginara 
casar, um dia, e ter filhos, no um filho nico, criado cheio de mimos como ele, naquela casa imensa que devia conter um grupo grande de crianas. Tinha a certeza 
de que os seus filhos iriam ser criados naquela casa. No fosse a guerra, j estaria casado e com certeza seria muito feliz, pois nunca teria visto Josui. Talvez 
tivesse casado com Cynthia Levering, da qual sua me passava o tempo a dizer que era como uma filha para ela, "uma filha muito querida". Pronunciava essa frase com 
uma nfase especial quando ele estava perto.
- No procure impingir-me Cynthia com tanta insistncia,
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me - dissera, trocista. - Talvez eu queira despos-la um dia, por minha prpria vontade.
-Ora, cala a boca! - respondera-lhe a me com a sua voz suave e alegre. - Depois que cresceste tornaste-te um rapazinho bastante malcriado.
Na correspondncia, provvelmente, haveria uma carta de Cynthia. Ela no escrevia com frequncia, s o suficiente, e geralmente eram cartas longas e agradveis, 
cheias de pequenas novidades do lugar. Cynthia morava no muito longe de sua casa, na mesma rua larga e quieta. Conhecia-a desde que nascera. Trs geraes atrs, 
as suas famlias haviam sido ligadas por casamento.
- H quanto tempo foi isso? - indagou um dia  me, sem qualquer inteno.
- Bastante tempo para no teres receios de espcie alguma fora a resposta rpida e significativa.
Estendeu o brao comprido, pegou nas cartas e passou os olhos pelos sobrescritos. Uma era da me, uma do ministro da igreja episcopal onde sua famlia ia todos os 
domingos havia geraes, duas no identificou e... sim, um envelope grande de Cynthia. No havia nada de pequeno em Cynthia, a no ser a cintura graciosa. Era alta 
e bem proporcionada, boa, generosa e compreensiva. Um dia, talvez se apaixonasse por ela. De momento, porm, e por absurdo que parecesse, desejava poder falar-lhe 
de Josui.
- Aposto que ela compreenderia - murmurou.
Cortou o envelope de papel creme, grosso de mais para ser rasgado. Dentro havia trs folhas duplas, dobradas e cobertas com a letra negro-azulada, grande mas regular, 
de Cynthia.
"Allen querido". (As cartas dela comeavam sempre assim). Correspondiam-se irregularmente havia anos, desde os tempos em que ela terminava os estudos no internato 
e ele na Universidade. "Allen querido, jamais houve uma Primavera como esta. Talvez eu nunca tenha observado realmente a Primavera. Este ano parece que vou ter tempo."
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Continuou a ler com vagar, revendo a cidade natal, as ruas familiares, as fisionomias conhecidas dos vizinhos e parentes. No entanto, estavam todos to longe dele, 
ali sentado, szinho, em Tquio, como se vivessem num outro mundo. Era isso mesmo. Viviam num outro mundo e nunca poderiam entender aquele cuja capital era Tquio, 
o Japo. Por mais que explicasse, por mais que fizesse ou deixasse de fazer, no entenderiam. No havia possibilidade de faz-los compreender. S lhe restaria uma 
escolha, a do mundo em que desejaria viver - e com quem.
Dobrou cuidadosamente as cartas, colocando cada qual no respectivo envelope, depois ficou sentado com o olhar fixo na mquina de escrever.
Smente seu pai no escrevera. Fazia-o raramente, como raramente falava.. Que se lembrasse, Allen nunca o tinha ouvido conversar por muito tempo, dizer alguma coisa 
substancial ou que, pelo menos, ficasse retida na memria. Durante toda uma refeio, muitas vezes no dizia mais que "por favor, passa-me a manteiga, filho" - ou, 
mais expansivamente - "os biscoitos saram hoje melhores que de costume, Doura". Doura era sua me, que na realidade se chamava Josephine, um nome que seu pai 
declarava ser inaceitvel por qualquer homem, excepto um Napoleo da Frana.
-Ora essa, Sr. Kennedy! - respondia a me, com vivacidade. - Como se os nossos biscoitos no fossem sempre os melhores!
- Por isso mesmo, Doura,  que insisto em dizer que estes esto ainda melhores.
Quando, s vezes, era censurado pelo seu indolente silncio, esboava um sorriso amigvel, declarando que Doura falava por dois, alm de que a conversao dela 
era muito
mais interessante que a sua.
Allen no pretendia compreender o pai, e jamais lhe ocorrera que talvez devesse ter-se esforado para isso. Neste momento
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desejava t-lo conhecido melhor a fim de poder escrever-lhe sobre Josui, perguntar-lhe...
O qu?
S havia uma pergunta a fazer, e essa devia faz-la a si mesmo. Amava Josui suficientemente para casar com ela? Aquilo que sentia, aquele anseio inextinguvel a 
persegui-lo dia e noite, seria o verdadeiro amor? Nunca se apaixonara. Estaria apaixonado agora?
Colocou as cartas na gaveta da escrivaninha. Depois foi tomar um banho e vestir-se cuidadosamente. Recebera um convite para jantar com o coronel e sua esposa, um 
estimvel casal que evidentemente no sabia o que fazer com os rapazes joviais e temerrios que serviam sob o comando do coronel. "No levam nada a srio", queixara-se 
a esposa do comandante, a ltima vez que Allen jantara em casa deles. "Portam-se como se vivessem nos dias de Madame Butterfly."
Allen sabia ao que ela se referia. Ele prprio sentira qualquer coisa de semelhante, l no Parque Imperial de Nara. s vezes era impossvel acreditar que estes japoneses 
fossem os mesmos homens que ainda bem pouco tempo antes tinham massacrado impiedosamente os americanos. Allen percebeu que comeava a esquecer tudo aquilo, embora 
tivesse lutado duramente na guerra. Porm, aqueles homenzinhos cruis, que surgiam de rojo de dentro das selvas das ilhas para atac-los, no tinham nada em comum 
- pelo menos assim parecia agora - com as ladeiras verdes, dispostas em terraos, os lavradores vestidos de azul, as lindas jovens de quimono e tamancos, e certamente 
nada tinham em couro com Josui, a qual, na realidade, era mais americana que japonesa, em tudo menos na fisionomia e, talvez, na perfeio um tanto amaneirada com 
que se expressava em ingls.
Quando permitia que o nome dela subisse  tona no seu esprito, as pancadas do seu corao aceleravam-se e o seu desejo era abrir os braos como se ela estivesse 
ali. Pensava, com certa ansiedade, se teria a coragem de abordar o assunto
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com o coronel quando estivessem a ss, depois do jantar. A esposa do comandante possua uma educao esmerada e deixava sempre os cavalheiros palestrarem uma meia 
hora a ss enquanto tomavam o cafzinho, mesmo que fosse ela a nica senhora presente. Quando acontecia haver mais algumas senhoras e ser ele o nico homem, ento 
aquela meia hora prolongava-se, s vezes, por mais uns quinze minutos.
Mas no teve coragem para falar com franqueza. O mximo que conseguiu, depois de uma refeio excelente, preparada pelo cozinheiro japons e servida por um criado 
todo de branco, foi perguntar ao coronel, um tanto abruptamente, quantos americanos tinham casado com japonesas durante o perodo de ocupao. A fisionomia do coronel 
tornou-se tristonha.
-Suponho que temos os dados por a. Mas prefiro at nem sab-los. Voc quer dizer os que se casaram ou s...
- Falo nos que se casaram.
- No muitos, provvelmente - disse o coronel, mais animado. - Quanto s unies ilegais, quem poder saber? Suponho que mesmo as centenas de crianas mestias que 
existem por a no serviriam de base para avaliar o que acontece na realidade. Para ser franco, no compreendo por que razo os nossos homens parecem to... sexualizados, 
digamos. Isso at a mim tem causado surpresa, embora seja um oficial j de bastante idade.
- Que acontecer s crianas? - inquiriu Allen, com excessivo interesse.
No rosto do coronel estampou-se uma expresso aflita.
- No sei. Barclay, o meu ajudante, contou-me que h dias sua mulher achou uma criana escondida na casa de um vizinho. Gente respeitvel, diz ele. O homem  comerciante 
ou coisa parecida. Barclay e a esposa tinham sido perturbados a noite inteira pelo choro de uma criana e a Sr Barclay, na manh seguinte, foi ver o que se passava. 
O beb fora encerrado
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num pequeno quartinho pela av, que se envergonhava dele.
- Que fez Barclay?
- Creio que informou do caso um orfanato catlico, que depois tomou conta do pequeno. A famlia ficou contentssima, at a me, que  uma jovem bonita. A criana 
tinha um aspecto esquisito, disse Barclay. Uma mistura abominvel, na verdade. No me conformo com isso, de maneira alguma, mas que se h- De fazer?
Portanto, no era possvel falar em Josui. Allen demorou-se pouco tempo com o casal e bem cedo se despediu, apresentando a desculpa de ter que terminar o relatrio.
No quis pedir frias no Karuizawa, e s raramente ia a uma sesso de cinema  noite. Durante o Vero danou algumas vezes, mas no encontrou nenhuma rapariga que 
o atrasse e to-pouco pde lembrar-se de alguma jovem na sua ptria capaz de faz-lo sentir saudades. Embora tivesse gostado de Cynthia, nem ela poderia despertar-lhe 
amor agora. A vida para ele j no encerrava magia alguma.
Quando, porm, chegava a esse ponto das suas reflexes, vinha-lhe a certeza de saber onde estava a magia. Sentira-lhe a chama electrizante em companhia de Josui 
e assim, numa noite quente e solitria, ps-se a recordar todos os encontros que tivera com ela. Viu-a de novo, parada sob o arco de glicnias, naquela manh em 
que chegara  velha cidade e deixara vaguear os olhos indefinidamente, at se fixarem em Josui. Lembrou-se de cada uma das vezes em que a vira, especialmente da 
ocasio em que ela o espiara da esquina da casa. Como estava bonita naquele dia, com o seu quimono! Fora a nica vez que a vira nas vestes tpicas, na amplido da 
sua residncia to parcamente mobilada e, no obstante, encantadora na sua simplicidade. Talvez o mundo em que ela vivia fosse melhor, um mundo de dignidade e tradies. 
Tinha preferido ficar nele e negar as suas elevadas imposies. Era mais que uma simples "boa menina". Mesmo ao beij-la, obedecendo
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a um impulso irresistvel, sentira que ela o permitia com relutncia, apesar do evidente anseio que tambm a dominava. Coitada, pensou: sentia-se aturdida com o 
seu prprio amor e no sabia como fazer face  sua confuso ntima. Ele deixara-a entregue a si mesma e a sua nica desculpa era que se separara dela antes que fosse 
tarde de mais.
Sabia que era loucura pensar assim continuamente em Josui, pois,  medida que os dias iam passando, esse hbito se arreigava mais e mais nele, sobretudo durante 
o continuado isolamento do Vero, quando todos os homens a quem melhor conhecia partiram, um a um, para as montanhas ou para a praia, e o prprio coronel fechou 
a sua casa e foi passar uma quinzena na Amrica. Em meados de Agosto sentiu que precisava v-la mais uma vez, para pr-se  prova, para estar seguro de que realmente 
poderia esquec-la e casar-se um dia com outra mulher. Sem dvida ela nem era to bonita como a recordava.
O Vero tambm fora quente em Kyoto, mas o Dr. Sakai no teve tempo de pensar nisso. Sem aparentar pressa, providenciou logo o noivado de Josui. Quo profundamente 
lamentava os anos passados na Amrica! Agora, em vez de conhecer por instinto os hbitos referentes ao casamento no Japo, via-se obrigado a estudar velhos livros, 
indagar de um e outro - procurando no chamar a ateno sobre a sua ignorncia - como deviam ser celebradas as bodas de sua filha com o filho de uma famlia rica 
e tradicional. Apesar das suas ocupaes dirias, cada vez mais numerosas devido  sua fama de mdico, sentia que ele prprio devia decidir a respeito do modelo 
para o novo quimono, das sedas e dos cetins bordados. Exigia a presena de Josui nessas compras, pois no desejava parecer arbitrrio. Ela devia escolher o que lhe 
agradasse, contanto que estivesse dentro da tradio, e, em ateno  etiqueta social, tambm sua me devia estar presente. Contudo, apesar da presena de ambas, 
era ele quem tomava a deciso final, sempre
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visando a famlia Matsui e aquilo que sabia dos seus gostos e costumes.
To-pouco exigia de sua filha, declarava ele, a obedincia cega do tempo dos seus ancestrais. Se Josui o desejasse, estava perfeitamente disposto a permitir que 
ela visse Kobori em sua casa, sem maiores formalidades. No consentiria que fossem vistos juntos em pblico antes do casamento, mas Kobori podia visit-la quando 
os pais estivessem ambos em casa. E assim, por diversas vezes antes do dia do casamento, que fora marcado para meados de Setembro, Kobori veio  sua casa depois 
de comunicar antecipadamente a visita e indagar se o dia e a hora fixados convinham  famlia Sakai.
O Dr. Sakai e sua esposa sempre o recebiam. A primeira vez ficaram presentes durante toda a visita. Observaram, porm, que Josui falava muito pouco. Inclinava-se 
levemente a tudo quanto Kobori dizia, murmurando "sim" ou "no" s suas perguntas, mas abstendo-se de qualquer observao prpria.
-Seria melhor deix-los a ss? - perguntou o Dr. Sakai  esposa naquela noite, quando estavam nos seus aposentos.
-Afinal de contas, mormos tantos anos na Amricasugeriu a Sr Sakai.
-Agora estamos no Japo-retorquiu o Dr. Sakai, levemente irritado. Nada devia ser como fora na Califrnia. Inmeras vezes lembrava a amigos e  famlia os campos 
de concentrao para japoneses na Amrica; continuava a faz-lo, ainda que esses campos j no existissem havia muito tempo e os japoneses se tivessem espalhado, 
sem grande dificuldade, por todos os Estados Unidos.
- Josui lembra-se da Amrica- disse a Sr Sakai. - Talvez lhe parea estranho no poder conversar a ss com o homem que vai desposar.
Na prxima visita, portanto, depois de alguns minutos de palestra sobre o tempo e a perspectiva de uma bela florao de crisntemos nesse ano, sempre evitando qualquer 
referncia
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 ocupao, o Dr. Sakai fez um sinal  esposa e ambos se retiraram. Depois que saram, Kobori sorriu e voltou-se para Josui com amvel alegria.
-Seu pai  to extraordinrio! - disse com a sua voz suave de baixo, uma voz que, se a elevasse poderia ser muito possante. Mas Kobori nunca a elevava.
- Por que razo o considera extraordinrio? - perguntou Josui.
- Ele  mais japons do que qualquer um de ns, e apesar disso no sabe que h nele algo que nunca ser japons, por mais que se esforce.. A Amrica deixou-o marcado.
- Penso que tambm me deixou marcada a mim - observou Josui.
-Sim, a si tambm - concordou Kobori - mas eu gosto dos americanos.
- At dos que esto aqui com a ocupao? - perguntou Josui em tom de dvida.
- At deles - disse Kobori. - Nem sempre me agrada o que fazem, e muitas vezes me causam d. A tarefa que tm a cumprir  to vasta.
- Qual  a tarefa?
Kobori riu.
- transformar-nos em americanos. Coisa impossvel!
- Ainda assim esto a transformar-nos - observou Josui.
- Alguns de ns - concordou Kobori.
- Acha que, depois de eles partirem, tudo ser novamente como era antes? - indagou Josui.
A princpio s-lo- at de maneira exagerada - respondeu Kobori. - Tornar-nos-emos intensamente japoneses, procurando encontrar-nos, antes de mais nada, a ns mesmos, 
ao nosso antigo esprito. Depois, passada uma gerao ou duas, talvez mudemos de novo. O que rejeitmos, comearemos a examinar e a aceitar em parte. Sero precisos 
cinquenta anos para sabermos o que devemos ser. Mas at l quem sabe o que ser o prprio mundo?
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Josui ficou a ouvir. Kobori falava bem, meditativamente, sem a arrogncia do Dr. Sakai.
- No sente medo? - perguntou ela.
- Porque havia de sentir? -replicou ele. - Perteno a uma famlia antiga, conservadora, como sabe. Viveremos muito bem no perodo conservador que est para vir. 
O que me causa piedade so os milhares de crianas actualmente abrigadas nos orfanatos, filhas de pais americanos e de mes japonesas, e portanto rfs.
Era estranho que ela nunca tivesse pensado naquelas crianas! Se Allen Kennedy tivesse desejado casar com ela, tambm teriam tido filhos assim. Teria ele - e ela 
- abandonado os filhos? No, era impossvel que o fizessem!
- Pobres criancinhas! - disse Kobori na sua voz profunda, cheia de piedade. - Seria melhor para elas que no tivessem nascido.
Repentinamente Josui experimentou o desejo de poder contar tudo a Kobori. Ele era to amvel! Isso fazia parte da sua bondade. Podia imagin-lo escutando penalizado, 
talvez at compreendendo como viera a acontecer aquilo. No deveria contar-lhe, uma vez que ia ser sua esposa? Olhou-o, sem saber que havia uma expresso interrogativa 
nos seus olhos.
Ele sorriu.
- E agora, que h? Est com vontade de perguntar alguma coisa.
- como sabe? - Josui ficou surpreendida.
- O seu rosto  como um livro aberto. Quase consigo ler o que est a pensar.
- Estou a pensar?
Disse isso para ganhar tempo, no sabendo se seria aquele o momento adequado, mas a verdade era que devia contar-lhe para que no houvesse segredos entre eles.
- Est a perguntar a si mesma: Que espcie de homem  este com quem estou comprometida? - sugeriu Kobori.
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- No  o que todas as mulheres perguntam? - tornou ela, esquivando-se desse modo a uma resposta.
-Sim, estou certo de que .
Estavam ajoelhados  maneira japonesa. Ele colocara-se a uma certa distncia dela, o que a fazia sentir-se  vontade. Kobori jamais se permitiria toc-la antes do 
casamento. No entanto dissera a seu pai que achava aconselhvel conhecerem-se melhor atravs da conversao.
Kobori reflectiu um momento. Depois disse:
- Creio no ser um indivduo muito complexo. Os anos durante os quais fui obrigado a ser soldado fizeram de mim exactamente o contrrio de tudo quanto me ensinaram 
a ser. Agora j no posso matar. No espere que eu elimine nem sequer um rato. Deixo-os correr por a. Ouvi durante anos o berreiro rude dos oficiais que, s vezes, 
sinto que no gostaria de elevar a voz acima de um murmrio, pelo resto da minha vida. Vi homens espancados e crivados de pontaps por terem cometido pequenas faltas; 
assim, peo-lhe, nunca espere que
eu bata numa criana. Vi tanta crueldade que, para mim, a
nica maneira de suportar a vida  esforar-me por ser bondoso. Fao-o para o meu prprio bem. Pode ser que considerem isso uma fraqueza. Mas a crueldade  uma doena 
contagiosa que fcilmente se transmite de um para outro. Sei que eu prprio consigo resistir  sua influncia malfica, e tenho a esperana de que haja outros iguais 
a mim e de que um dia desaparea a crueldade humana.
Josui nunca o ouvira falar por tanto tempo ou to sriamente e ficou-lhe grata. Ele tentava, dessa forma, revelar-lhe o seu carcter, como tinha por obrigao. Mas, 
sem o saber, respondera  sua pergunta. Por bondade, se ela lhe contasse do seu amor por outro homem, ele poderia insistir para que cedesse aos seus sentimentos, 
ou, pelo menos, proporia afastar-se at que ela esquecesse ou se modificasse. Certamente ela esqueceria Allen, e sem dvida podia modificar-se. Mas
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no queria esperar. Queria casar-se, pois o casamento ocuparia o seu esprito, ou pelo menos, o seu tempo.
- Agradeo-lhe por ter-me falado como o fez- disse ela. Eu respeito-o, Kobori Matsui. Acho que a bondade  a maior das qualidades, no homem ou na mulher. Tambm 
eu, segundo espero, sou bondosa.
Levantou os olhos para ele, sentindo como que o despontar da afeio. Durante centenas de anos os casamentos no Japo tinham-se realizado sem amor. Respeito e afeio 
bastavam. Assim, pelo menos, pensavam os seus antepassados.
Ele respondeu-lhe com uma ligeira inclinao. Era o fim da segunda visita.
O calor, nesse ms de Agosto, continuou to forte que pessoas velhas, na cidade, o consideravam como resultado das bombas atmicas lanadas pelos americanos sobre 
Hiroshima
e Nagasaki. Na noite de dezasseis de Agosto, quando no topo do Monte Daimonjii, acima de Kyoto, se acendem fogueiras,
o calor era to intenso que as pessoas encarregadas de guardar o fogo nem sentiam os ventos frescos que normalmente correm nas colinas.
O Dr. Sakai estava extenuado. O hospital, de um dia para outro, ficara cheio de uma multido de doentes chegados das duas cidades sobre as quais haviam cado as 
bombas atmicas; sofriam de antigos ferimentos que no saravam. A fama do mdico fora-se espalhando de boca em boca, e os incurveis tinham ido procur-lo em ltima 
e desesperada tentativa. Fizera um esforo demasiado grande por salvar-lhes as vidas,
e a esse zelo acrescia uma clera cada vez maior contra os americanos.
Com a intensidade do calor ele prprio adoeceu durante vrios dias, foi obrigado a permanecer em casa. Era, como sabia muito bem, um pssimo doente e, apesar de 
lutar contra a irritabilidade e ter conhecimento de que deveria estar de cama, s parecia obter a paz atravs da meditao e da alegria
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que lhe proporcionava o seu jardim. Mas at o jardim sofrera os efeitos da cancula. Em vez de contemplar a sua beleza, o Dr. Sakai via a cascata minguar com o racionamento 
da gua, as samambaias murchas e amareladas, os peixinhos dourados morrendo nas guas aquecidas pelo sol.
Num dia, em que no se encontrava em boa disposio de nimo ouviu o toque insistente da sineta de bronze do porto. Evidentemente o porteiro adormecera. Embora 
longe de sentir-se bem, foi caminhando a passos largos at ao porto e abriu-o. Deparou-se-lhe um americano alto, com uniforme de oficial.
O        Dr. Sakai fixou os olhos nele.
- Que deseja?
-  o Dr. Sakai? - perguntou o rapaz. - Sim, sou.
Carregou o sobrecenho para desencorajar o americano.
Aqueles homens iriam meter-se at mesmo nas residncias particulares dos cidados?
- Sou Allen Kennedy - disse o estranho.
Aquele nome estava gravado nitidamente na memria do
Dr. Sakai. Tentara esquec-lo, mas em vo. - No o conheo - disse obstinadamente.
O        homem sorriu.
- No, mas eu conheci sua filha. -Minha filha no tem tempo.
- Posso ento conversar com o senhor, Dr. Sakai?
- Dr. Sakai no respondeu logo. Rpidamente estudou a
possibilidade de uma recusa. No era fcil, certamente, apresentar uma desculpa a um oficial.
- No estou bem de sade- disse. - De contrrio, estaria no hospital. Prefiro no ser importunado.
Os dois homens olharam fixamente um para o outro, estu
dando-se.
- Voltarei outra vez - disse Allen.
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- No  preciso - respondeu o Dr. Sakai em tom altaneiro.
- Acho que  - retrucou Allen. - Na verdade insisto em dizer que .
Horrorizou-se ao sentir dentro de si uma verdadeira clera contra aquela fisionomia atraente, mas fria, de japons. Que direito tinha de proibir-lhe a entrada em 
sua casa? Era o lar de Josui. No esquecia que se encontrava no Japo, cujo povo estava agora submetido.
- O senhor no pode insistir - disse o Dr. Sakai, com imensa dignidade.
- Insisto em ver sua filha-redarguiu Allen Kennedy.
O gnio irascvel do Dr. Sakai manifestou-se, rompendo as cadeias do contrle. Ele percebeu-o, reconhecendo nisso o resultado de ter vivido muito tempo na Amrica, 
onde no recebera os necessrios ensinamentos de autodisciplina, na infncia ou nas escolas pblicas. Mas era tarde de mais. Impossvel conter a crescente indignao, 
no s contra o americano, mas tambm contra si mesmo por no poder ser integralmente japons.
- No admito americanos em minha casa - gritou, tentando fechar o porto com violncia.
Em Allen tambm se verificava um conflito ntimo. Apesar do desagrado que sentia em pertencer  raa dos vencedores, os efeitos da situao tinham-se insinuado no 
seu esprito. No se permitiu lembrar ao Dr. Sakai os seus direitos, mas encostou o ombro contra o porto e, para vergonha dos dois - e ambos o sentiam -lutaram, 
o japons para fechar o porto, o americano para abri-lo.
A parte da casa mais prximo ao porto era a cozinha. Yumi dormia, pacificamente, depois de ter lavado os pratos do jantar e varrido o cho. Acordou ouvindo vozes 
altas que falavam o idioma estrangeiro dos vencedores e correu para a porta. A viu, com horror, que seu amo lutava com um jovem e forte oficial americano, empenhando-se 
por manter o porto fechado.
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Yumi irrompeu como um furaco naquele silncio pacfico.
- Oh, senhora, o patro est a lutar com um oficial americano!
A Sr Sakai ergueu-se e saiu apressadamente do aposento, seguida por Yumi..
Josui no se moveu. Compreendeu imediatamente que Allen voltara. Que infelicidade a sua presena nesse momento! Porque viera a sua casa? Porque no lhe escrevera? 
Ela no podia ficar ali, porm. Qualquer que fosse a batalha, devia tomar parte, ou estabelecer a paz.
E foi assim que Allen Kennedy viu a sua amada, a jovem esbelta, aproximar-se envergando um quimono floreado azul e branco, mais linda do que a lembrana que dela 
guardava. O seu rosto estava plido e suplicante, e, como ele j se encontrava do lado de dentro do porto, foi-lhe ao encontro.
O Dr. Sakai l estava, exausto, comprimindo fortemente os lbios. Na sua frente, como guardas, encontravam-se a Sr Sakai e Yumi. Estava derrotado. Viu a filha hesitar 
e, de repente, os braos do americano envolverem-na. Ela resistia,  verdade, mas adivinhou que era s por causa da presena dele, da me e da criada. Se estivesse 
szinha, provvelmente no teria havido resistncia alguma. Perdera-a, quanto a isso no tinha dvidas. Restava, agora, encontrar uma estratgia.
Voltou-se para a sua fiel esposa.
-Traz a tua filha  minha presena -ordenou, e, com renovada dignidade, dirigiu-se para o interior da casa.
Antes de tudo, necessitava de alguns minutos a ss. Estava decidido a derrotar ainda aquele americano. No seria difcil. Perguntaria, simplesmente, quais eram as 
verdadeiras intenes do visitante. No acreditava em pretenses honestas da sua parte. Os americanos no casavam com japonesas. Sabia disso, tinha provas. Se necessrio, 
apresent-las-ia. No entanto, como poderia faz-lo na presena da esposa? Gemeu e sentou-se sobre uma almofada baixa, com as pernas dobradas por
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baixo do corpo, na posio que levara tanto tempo a aprender. Asim estava quando eles entraram. O rapaz mostrou-se, agora, bastante corts.
- Dr. Sakai, lamento muito o ocorrido. No sei mesmo o que se passou comigo. No tinha nenhum direito de me impor ao senhor.
O Dr. Sakai no respondeu. Apontou para uma almofada destinada s visitas, e observou com certo prazer que o rapaz tinha dificuldade em sentar-se adequadamente sobre 
ela. Permitiu a Josui ficar de p e franziu o sobrolho para Yumi, fazendo com que a criada sasse. A Sr Sakai ajoelhou-se discretamente atrs do marido.
De sbito o rapaz levantou-se outra vez. As pernas, pro
vavelmente... mas no, era para oferecer um lugar a Josui. - Onde vai sentar-se? - perguntou em voz baixa.
- Por favor, no pense em mim - implorou ela, angustiada.
- Penso, sim-replicou ele.
-Senta-te! -trovejou o Dr. Sakai para a filha.
Ela ajoelhou junto  me e Allen sentou-se novamente, com dificuldade, na almofada.
O Dr. Sakai ficou  espera. O outro que tomasse a iniciativa. No fora ele quem provocara aquela situao. Tinham-no ofendido. Ao mesmo tempo, pretendia ser ponderado, 
paciente, porm inexorvel, uma vez que o assunto fosse abordado.
- Pai - comeou Josui, com voz tmida.
Imediatamente ele lhe lanou um olhar to feroz, que ela se calou.
O americano veio logo em sua defesa.
- No  a si que cabe falar, Josui, mas a mim.
Assim, Allen foi obrigado a falar. Quando chegara a Kyoto nesse dia, trazia o esprito em confuso. A sua nica ideia clara era que tinha de ver Josui mais uma vez 
e julgar, se pudesse, quanto a amava e se suportaria uma separao
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definitiva. Agora sabia que isso era impossvel. A deciso
tinha-lhe sido imposta, em parte pela luta com o pai, mas
sobretudo pela viso do rosto plido e lvido de Josui. - Fale, ento- disse o Dr. Sakai, friamente. - Gostaria
de saber porque veio aqui.
- Vim ver sua filha.
O Dr. Sakai virou-se para Josui. - Conheces este homem?
- Conhecemo-nos - disse Allen. E a seguir contou, fluen
temente, a histria breve do seu encontro e como, depois de
poucas horas, tinham resolvido separar-se.
- Ento, porque voltou? - quis saber o Dr. Sakai. - Porque sei quanto a amo - disse Allen. O Dr. Sakai ficou impiedoso.
- O senhor no pode am-la! Ela est noiva do filho de
um amigo meu, Kobori Matsui. O casamento realiza-se dentro
de quinze dias.
O rapaz permaneceu imvel por alguns instantes. Depois
voltou-se para Josui.
-  verdade?
Ela inclinou a cabea afirmativamente e comeou a
chorar.
- Quisera que me tivesse contado - disse Allen.
Ficou mais um momento em silncio, pensativo. Depois falou novamente  jovem.
- Josui, sei que no posso v-la a ss, por isso tenho de falar-lhe como se estivssemos szinhos e peo-lhe que me responda da mesma maneira. Ama o homem de quem 
est noiva?
- No-respondeu ela em voz baixa. - Mas  um homem muito bom.
- Josui, continue a responder com sinceridade? Ama-me? Ela levantou o rosto, inundado de lgrimas. -Oh, sim, Allen Kennedy! - Ento quer casar comigo?
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"O mtodo americano", pensou o Dr. Sakai furioso; "sempre o ataque, a eterna ofensiva!"
- - Um noivado no pode ser rompido- declarou. - No no Japo.
- Mas se os prprios noivos decidem que j no querem casar, Dr. Sakai, suponho que podero desfaz-lo... no Japo moderno - observou Allen.
O Dr. Sakai estava abalado. Limpou a garganta e, colocando as mos sobre os joelhos, olhou para o cho,  sua frente.
- Quero contar-lhe um facto.
- Por favor, pai - implorou Josui.
Trata-se de algo que nunca contei a ningum - prosseguiu o Dr. Sakai, com voz embargada. - Nem sequer  minha esposa.
Por baixo das espessas sobrancelhas, lanou um olhar para aquela bondosa criatura.
- Perdoa-me, Hariko! Nunca to contei. Esqueci isso h muitos anos. Lembro-me agora smente por causa de nossa filha.
- No penses em mim-murmurou a Sr Sakai.
- Josui, minha nica filha- comeou ele. - Tu no podes casar com um americano. Digo-te isso porque sei. Nem mesmo este jovem sabe o que eu sei. Pode ser verdade 
que ele te ame, ou mesmo tu o ames, mas o amor no encerra nenhuma sabedoria. $ apenas uma emoo. Ele passa, mas a vida continua.
Falara com tanta gravidade e tristeza que todos lhe prestaram a mxima ateno. O silncio na casa era to profundo
que os pequenos rudos, que habitualmente passavam despercebidos, se fizeram notar de repente. L fora, no jardim, uma
cigarra esfregava uma na outra as asas rijas, um tordo chil
reava, o rumorejar da cascata sbitamente pareceu muito alto.
- Quando eu era novo, na Amrica- disse o Dr. Sakai,
com mgoa, amei uma jovem americana. Posso dizer que ela
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tambm me amou. Confessmo-lo um ao outro, Meus pais opuseram-se, mas eu fora educado como um americano e achava que no lhes assistia o direito de me negarem o 
que eu desejava de todo o corao.
A Sr" Sakai, de repente, tornou-se rgida. Juntou as mos e ficou a olh-las. O Dr. Sakai no voltou os olhos para ela.
-Oh, me! - exclamou Josui, a meia voz.
Seu pai continuou:
- Eu estava pronto a renunciar a tudo - disse em voz firme e fria. - At mesmo a abandonar meus pais. E ento aconteceu algo. O irmo dela ameaou-me com um revlver. 
Foi numa noite em que eu voltava tarde da Universidade. Como podia ele saber que eu passaria por ali? Ela deve ter-lhe contado. Encostou-me o revlver ao peito e 
disse:
" - Escute aqui, voc!" - Foi assim que . ele falou. " - Deixe minha irm em paz! No queremos um maldito japons na famlia, entendeu?" - Nunca mais voltei a v-la.
- Foi tudo? - perguntou Allen.
- como pode perguntar se foi tudo? - inquiriu o Dr. Sakai, com veemncia. - Naquela ocasio, significava tudo para mim. E significa outra vez tudo para mim, hoje. 
=- Ergueu a mo sacudindo o dedo em riste. - Pois, asseguro-lhe eu, isso acontecer novamente com a minha filha.
- A minha famlia no ameaa ningum com revlveres - disse Allen, com altivez.
- Acontecer a mesma coisa - insistiu o Dr. Sakai. No ser talvez com uma pistola. Ser de outra maneira. Asseguro-lhe que jamais admitiro um "maldito japons" 
na famlia!
- Compreendo o que o senhor sente - disse Allen, com simpatia. - Mas isso aconteceu h muito tempo, Sr. Sakai, antes de Josui nascer. As coisas, hoje, esto mudadas.
- Ah! exclamou o Dr. Sakai. - Eu leio os jornais. A diferena no  assim tanta. Muitos Estados no permitem o
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casamento a pessoas de cor. Diga-me uma coisa: a sua famlia senta-se  mesa com gente de cor?
Allen mostrou-se surpreendido:
- No me passaria pela cabea considerar Josui como uma pessoa de cor.
As faces de Josui tornaram-se rubras.
- Quero falar a ss com Allen Kennedy! - declarou sbitamente. -Tudo agora est confuso. Antes de qualquer coisa devemos esclarecer o assunto entre ns dois, pai.
Levantou-se com tanta deciso que o pai no pde impedi-la, e talvez no o tivesse feito se pudesse. Eles que fossem ao jardim e conversassem. Os jovens tinham sempre 
de conversar. Mas ele revelara-lhes o segredo amargo da sua existncia; no poderiam esquecer-se disso.
Ficou a ss com a esposa. Ela continuava sentada, imvel. Depois, olhando-a de soslaio, ele percebeu que as suas mos, fortemente entrelaadas, estavam trmulas. 
Estendeu a mo direita e cobriu-as.
- Abenoo o dia em que vi o teu retrato - disse. - No momento em que olhei para ele, senti que serias uma boa esposa, apesar de ser uma fotografia mal tirada, que 
nem de longe te mostrava to atraente como na realidade eras. S me trouxeste boa sorte. Que infeliz teria sido a minha vida se tivesse seguido outro caminho! S 
penso ser grato quele miservel que encostou o cano do revlver no meu peito.
Ela lutava com os soluos.
- Estou certa de que no tiveste medo dele - disse, com lealdade.
- Tive - afirmou o Dr. Sakai. - Recuei imediatamente, assegurando-lhe que em nenhuma circunstncia casaria com sua irm. Essa foi a verdade.
- Por favor, esquece - implorou a esposa. Retirou delicadamente as mos de sob a dele e secou os olhos com a ourela da comprida manga. - Estamos no nosso pas. No 
 necessrio recordar outras coisas.
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- Tens razo - disse ele. - Mas compreendes porque eu tinha de contar o que j esquecera?
- Por favor! - volveu ela em tom de splica.
- Se no tivesse esquecido - continuou ele obstinadamente -j te teria contado h muito tempo.
A situao exigiu mais foras do que ela estava em condies de demonstrar. Levantou-se graciosamente, apesar das suas pernas curtas, e inclinou-se diante do marido.
- Desculpa-me, por favor - disse em voz sumida - tenho alguns deveres a cumprir.
Saiu da sala em passos midos e, caminhando silenciosamente com as suas pantufas, foi para o aposento em que ela e Josui tinham estado a costurar. Pegou no pano 
de fina seda branca e comeou a coser, tendo o cuidado de enxugar os olhos de cada vez que se enchiam de lgrimas, para no manchar o tecido de seda. Nunca fora 
bonita. Recordava ainda muito bem como era nesse tempo: uma camponesa baixota, de rosto anguloso e queimado pelo sol. Ele no a escolhera. Seus pais haviam feito 
a escolha, tendo em vista que ela parecia forte e obediente, como de facto era, mas ele, ferido com a perda do seu amor, pouco se importava com quem fosse ela. De 
repente largou a agulha. Aquelas roupas talvez nem fossem necessrias. De que adiantava, pois costurar?
L fora, no jardim, os dois jovens tinham-se refugiado atrs dos bambus, que formavam ento grossos tufos perto do muro. Sentados lado a lado sobre um banco rstico 
de madeira, enlaavam-se, serenada por um momento a sua angstia. Allen no se sentia capaz de compreender a natureza do seu amor por Josui. Sabia, somente, que 
a amava como nunca amara antes e que iria at ao fim para possu-la.
- Voc sabe que no poder casar a no ser comigo - murmurou junto aos lbios dela.
-Agora sei-respondeu Josui, em voz entrecortada.
- Fugiremos - disse ele arrojadamente. - Voc  americana,
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Josui. Vamos proceder como americanos. No precisamos de obedecer como crianas.
- No, no podemos fugir-tornou a jovem com firmeza. Passou os braos pela cintura dele e inclinou a cabea para trs a fim de poder olh-lo bem. - Voc no conhece 
Kobori Matsui.  realmente um homem bom. Devo dizer-lhe tudo honestamente. Ele compreender.
Allen desejou que esse homem no fosse bom. Teria sido mais fcil tirar Josui das mos de um japons cabeudo como o era seu pai.
- No quero conhec-lo- disse abruptamente.
- Por favor - implorou ela - deixe este assunto comigo. Preciso conversar com meus pais. Devemos obedecer a meu pai nas menores coisas, voc compreende, Allen Kennedy.
- Escute, Josui, no continue a chamar-me assim. Diga apenas Allen.
- Allen - repetiu ela, e continuou como se no tivesse sido interrompida: - Naquilo que  mais importante, no podemos obedecer a meu pai. No desejamos separar-nos. 
Mas quando ele compreender isso, e eu o farei compreender, ento ser nosso dever atend-lo em tudo o mais.
Agora que se resolvera a casar com Josui, Allen estava disposto a fazer qualquer concesso.
-Tudo quanto quiser, querida. Mas que seja depressa! Depressa -repetiu ela, encostando a cabea no seu peito.
Era estranho que, depois de ter tomado uma deciso to importante, no pudessem continuar a acariciar-se mtuamente. Ficaram sentados, srios, bem juntos um do outro. 
Allen brincando distraidamente com a mo de Josui, como se fora um brinquedo. Principiava a perceber a existncia de imensos problemas, problemas cuja forma no 
era capaz de distinguir, mas que nasciam daquele encontro no silencioso jardim japons e, atravessando o oceano, iam centralizar-se na grande casa branca da sua 
terra natal. Que pensaria sua
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famlia? Decidiu no lhes contar nada. Esperaria at que conhecessem Josui. No era assunto para ser discutido. Tinham que ver aquela criatura adorvel, aquela jovem 
terna e delicada que, apesar de toda a doura, possua uma forte personalidade. E ela era to atilada, embora jovem, excessivamente jovem, e esse era o nico ponto 
que lhe causava preocupao. Mas era corajosa, tambm. Podia imagin-la dirigindo-se  me dele com o seu ar de suave orgulho e resoluta docilidade. Seria irresistvel.
Allen ocultou de Josui as suas dvidas; no diziam respeito a ela ou a ele, mas  prpria vida, cujos moldes estavam actualmente sendo rompidos. Antes dele, outros 
americanos tinham casado com japonesas, levando-as para a ptria. Alguns desses casamentos tinham sido felizes, outros no. No havia razo para que o deles no 
fosse bem sucedido, contanto que tivessem a necessria coragem. Mas no ia sobrecarregar a mente de Josui com tudo isso. Tinha preocupaes bastantes com a famlia 
e com o noivado que era preciso romper imediatamente. No suportava o pensamento de que Josui estava comprometida com outro homem.
- Como pde prometer casar-se com outro? - perguntou de repente.
- Porque no? - indagou ela. - No Japo  preciso casar com algum. Voc no me pediu em casamento, Allen.
A culpa era sua, naturalmente, e nunca deveria esquecer isso.
- Quando poderemos casar? - perguntou com impacincia.
- Como havemos de fazer? - disse Josui, suspirando. - Primeiro preciso falar com Kobori. Ele far tudo da melhor maneira.
- Bem - tornou Allen, levantando-se. - Ainda que me desagrade, tenho que deixar essas coisas para voc resolver. Entende disso muito mais do que eu.
De repente, sentiu cimes.
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Tem a certeza de que no prefere casar com o seu japons? Seria muito menos incmodo.
Ela cobriu-lhe os lbios com a mo.
Cale-se. Voc disse-me que sou americana. Se  assim, quero casar com um americano. - Fitou-o, trmula de amor. - Quero casar consigo!
Novamente se lanaram nos braos um do outro. O velho e terrvel anseio apossou-se dele, fez-lhe o sangue correr mais rpido nas veias, acelerou-lhe o bater do corao. 
Quase sufo
cado disse:
- Que no demore muito, Josui. Pela minha parte, comearei a agir amanh. Tenho que falar com o meu coronel, obter a sua ajuda. Talvez possa evitar algumas formalidades. 
Vamos agir o mais depressa possvel, querida. Voc aqui junto de seu pai... no o deixe influenci-la.
- Oh, no! - exclamou ela. - Depois que Kobori souber, ele no opor mais obstculos.
Bem, tenho que apanhar o comboio das cinco horas. Sa sem licena, apesar de que a minha ausncia s por um dia no ser notada.
- Escreva-me, Allen!
- E voc a mim, querida.
- No sei escrever cartas muito bem, mas farei o melhor que puder.
Separaram-se relutantes. Ela temendo que o pai a chamasse para adverti-la de que j tinham conversado de mais, e Allen com medo de perder o comboio. Trocaram um 
beijo longo, depois outro.
J quase sabe beijar como uma verdadeira americana,
Josui.
- Oh, ento sabe como elas beijam?
- Tolinha, toda a gente que vai ao cinema sabe.
- Sim, mas aqui a cena do beijo  cortada antes de apresentarem o filme.
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- Mas na Amrica no. Escreva-me ainda hoje  noite, sim, Josui?
- Vou tentar. E voc tambm, Allen.
- No se incomode se eu escrever  mquina.
-Oh, n-o! - Foi um "no" prolongado, suave como
um suspiro.
Separaram-se. Ficando outra vez szinha, ela viu a sua imagem reflectida no lago. Porque havia o amor de encerrar tanta tristeza? Amava-o de mais. Seria melhor que 
tivesse amado Kobori, trazendo assim a felicidade a todos. Se, naquela manh, no tivesse parado sob o arco de glicnias ao passarem os soldados, no teria visto 
Allen, nem ele a ela, e tudo teria corrido normalmente, como j no era possvel agora. Seus pais tambm estavam magoados com aquele amor que a enchia de dor e xtase. 
E da parte da famlia dele, l na Virgnia, quem poderia saber? Mas ela seria uma nora to boa, que no poderiam odi-la.
Finalmente entrou em casa, surpreendida por seu pai no a ter chamado. No o viu em parte alguma. Poucos minutos depois sua me saiu do quarto onde ele estudava 
e dormia, e cujas paredes nunca eram movidas.
- O teu pai no est a sentir-se bem, de novo - disse a me. - Este dia foi muito cansativo para ele. No lhe fales mais hoje. Se tiveres alguma coisa para dizer, 
diz-mo a mim.
Me e filha ficaram hesitantes, uma em frente da outra. De que maneira, pensou Josui, poderia infligir-lhe mais mgoa, como sabia que era obrigada a fazer? O amor 
era uma terrvel fora propulsora que a impelia  extrema crueldade. Odiava a crueldade e fora uma criana muito carinhosa. E agora via-se obrigada a ferir at sua 
me, que nunca lhe dissera seno palavras de bondade e cuja vida inteira tinha sido devotada  famlia. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Fitou a me, penalizada, 
sem poder falar.
Foi a me que falou por ela:
- Queres casar com aquele americano, no ?
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-Sim, me! Mas, oh!, antes no fosse assim. Antes nunca o tivesse visto.. Poderia ento casar com Kobori e ser feliz, pois nunca teria conhecido outra coisa. E, 
com o tempo, teria aprendido a am-lo, como a me amou meu pai. No chegou a ver meu pai antes de casar, no foi?
Sua me no' sorriu. A minha vida foi completamente diferente da tua. Eu no fiz mais que obedecer. Esse era o meu destino.
- Mas tem sido feliz! - exclamou Josui.
- Sim - respondeu a me. - Mas a minha felicidade foi fcil de obter. Nunca esperei ter to boa sorte como a que tive.
Continuavam de p e Josui colocou a mo no brao da me.
- Me, compreende-me quando digo que o amo tanto que s fao o que sou obrigada a fazer?
A me olhou-a com estranha e inexprimvel tristeza.
- Ontem eu no teria compreendido. Hoje, posso compreender.
Desviou o olhar do rosto da filha. Os seus lbios plidos tremiam.
- Oh, me, no! exclamou Josui. - J passou tanto tempo... E o pai j esqueceu tudo.
- No esqueceu - insistiu sua me, com voz sumida.
- Foi s o orgulho -respondeu a me com a mesma voz presa. - O amor  que foi ferido. Por isso quis deixar a Amrica. O seu amor ferido, sim. Ele amava a Amrica 
e quando se voltaram contra ele, como... como fez a jovem americana, novamente o amor  que foi ferido, esse amor que principiou na sua mocidade e aumentou sempre 
at que, por fim, ele deixou a ptria. Era a Amrica a sua ptria.
- Oh, me, me! -sussurrou Josui. No sabia como consol-la.
-  natural que ames o americano - prosseguiu a Sr Sakai. - E, sendo assim, deves casar com ele. No deves casar com Kobori. Deves fazer o que teu pai nunca pde 
fazer,
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e voltar para a Amrica. Sou eu quem pertence ao Japo, smente eu. E por isso te ajudarei.
Pela primeira vez nas suas vidas, as duas mulheres se abraaram, chorando nos braos uma da outra.
Na manh seguinte, o Dr. Sakai levantou-se cedo e sombrio. Sua esposa, que ele julgava ser o que sempre parecera, uma mulher simples e dcil, revelara-se, durante 
a noite, uma criatura inteiramente diferente. Tomara o partido de Josui contra ele, declarando, injustamente, que era ele prprio a causa daquela desero. Com uma 
lgica singularmente deformada, dissera que, por no ter ele conseguido casar com a americana a quem amara quando jovem e inexperiente, Josui devia agora casar com 
um americano.
Tinham discutido horas a fio.
- Acredita, Hariko, sinto-me realmente feliz por o destino me ter preservado de tal casamento. Que teria sido de mim quando quiseram mandar-me para o campo de concentrao' 
Suponho que teria tido filhos. Para onde iriam? Tambm para o campo de concentrao? Eu no poderia ter trazido para o Japo crianas mestias. Sabes como so encaradas 
neste pas. Teriam sido criaturas sem ptria, exiladas no mundo. No, eu estou contente por no ter cometido essa loucura. Vou tentar salvar tambm minha filha.
A mulher fizera-lhe, ento, uma declarao completamente inexplicvel.
- E eu salvarei Kobori Matsui! Salvarei um jovem e bom japons de casar-se com uma rapariga que ama um americano! Josui no ser sua esposa. Eu irei dizer-lho, se 
tu no o fizeres.
Nunca sonhara que aquela criatura calma, que vivera tantos anos a seu lado, pudesse ocultar tanta rebeldia, tanta deciso. E, por no t-la conhecido sob esse aspecto, 
sentiu medo do seu desespero. Conhecia a tendncia funesta da sua raa, a fcil transio do desespero ao suicdio.. Para o japons havia uma ponte larga e sempre 
pronta entre a vida e a
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morte. No era preciso vacilar muito para realizar uma jornada to curta. Com o seu modo de pensar obstinado, instintivo e pouco esclarecido, Hariko no compreendera 
absolutamente a finalidade da revelao que ele fizera no' dia anterior. Dera ao caso uma significao totalmente diversa, uma significao pessoal, feminina, e 
ele sabia que jamais conseguiria dissuadi-la. Era muito provvel que ela fosse procurar pessoalmente o Sr. Matsui ou Kobori e, caso ele no o permitisse, ou quisesse 
impedir-lhe de qualquer forma a sada de casa, bem poderia pr termo  vida em sinal de protesto
Assim, o Dr. Sakai levantou-se pela manh gemendo e convencido de que a sua nica esperana era a filha, que ao menos tivera instruo.
Mas Josui no se encontrava em parte alguma. Era tarde, perto do meio-dia, quando ele se sentiu bastante bem para poder levantar-se, e ela sara; segundo lhe disse 
Yumi, pelas dez horas. A criada serviu-lhe o almoo em silncio, pois sabia do alvoroo da casa. Quando ele perguntou pela patroa, que se levantara cedo, Yumi respondeu-lhe 
que estava ocupada, nessa manh, a preparar uma nova proviso de cho-yu. A Sr Sakai recusava-se a comprar esse indispensvel molho de soja, preferindo o sistema 
a que fora habituada na fazenda, isto , comprar o melhor feijo soja e deix-lo passar pelo longo processo da fermentao. Durante esse trabalho no gostava de 
ser importunada.
Em tais circunstncias a casa no oferecia repouso. Decidiu ir para o hospital trabalhar.
- A sua jovem patroa disse aonde ia? - perguntou a Yumi, quando esta lhe estendeu o chapu e a bengala. .
- Ela disse que ia buscar alguns livros  escola.
Era mentira. Josui tinha sado sem dizer a ningum aonde tencionava ir. No entanto, ao ver o rosto lvido do seu patro, Yumi sentiu que mentir era um acto de caridade. 
Ele saiu sem mais uma palavra.
Naquele momento Josui conversava com Kobori. Dormira
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pouco, mas, deitada calmamente no leito, deixara passar as horas e ao amanhecer tinha tomado uma deciso. Quanto mais cedo visse Kobori, tanto melhor. Desejava, 
acima de tudo v-lo antes de falar com seu pai novamente. Queria dizer-lhe: "Pai, est terminado. Em vista das circunstncias, Kobori j no quer casar comigo. No 
 possvel voltar atrs."
Depois de ter falado assim ao pai, escreveria ento a Allen dando-lhe a mesma notcia, embora por outras palavras. Dir-lhe-ia que estava livre. Ele devia indicar-lhe 
onde se encontrariam.
Depois de ter tomado esta deciso ficou mais calma e adormeceu. Era cedo ainda quando acordou. Levantou-se, lavou-se e envergou um vestido de seda, azul-escuro, 
que sabia no a tornar muito atraente. Penteou os cabelos com simplicidade e no aplicou rouge nem baton. Penteou os cabelos. Tomou o alimento que Yumi lhe serviu 
e saiu sem sequer ter visto a me.
Falando-lhe no seu trabalho quotidiano, -Kobori tinha dito que costumava chegar tarde ao escritrio, de modo que entrou num parque e ficou sentada por algum tempo 
num dos bancos  beira dum pequeno lago, Alguns crisntemos prematuros floresciam j nos canteiros e os peixinhos dourados nadavam alegremente. Havia no ar uma brisa 
mais fresca; o calor passara, por fim. Szinha e rodeada daquele silncio geral, Josui pde sentir na natureza a interrupo do crescimento, a quietao da terra, 
o mergulho no sono. Uma parte da sua prpria vida se acabara tambm, a primeira mocidade. Escolhera o seu destino como mulher. Se fosse tmida ou medrosa por natureza, 
talvez aquela solido momentnea lhe houvesse incutido medo, mas no era tmida ou medrosa por natureza, Sentia em si uma fora imensa, a capacidade de enfrentar 
todas as dificuldades que viessem a surgir. A sua coragem natural dava-lhe tambm a aptido de confiar, no s em si prpria como em todo aquele que o merecesse, 
e em Allen ela confiava
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inteiramente. O mundo modificava-se e, juntos, poderiam encarar sem medo tudo quanto o futuro lhes reservasse.
Um pouco antes do meio-dia levantou-se, caminhou para a rua principal da cidade e entrou num edifcio alto, moderno, onde funcionavam os escritrios da firma Matsui. 
O elevador levou-a ao sexto andar e ela deteve-se em frente  entrada da Casa Matsui. Um jovem japons, trajando roupas ocidentais, aproximou-se.
- Posso servi-la em alguma coisa? - perguntou em ingls. Ela respondeu, tambm em ingls: - Faa o favor de dizer ao Sr. Kobori que a Sr Sakai deseja falar com ele 
por alguns minutos,
Se tivesse respondido em japons, talvez, no tivesse sido
anunciada com tanta presteza. O rapaz afastou-se logo e pouco
depois ela viu Kobori, com aparncia muito cuidada e agradvel, no seu fato ocidental de flanela cinzenta, que a saudou
com o grau adequado de cordialidade e afecto. Curvaram-se
um diante do outro, sem se apertarem as mos.
- Entre, por favor- pediu Kobori.
- Receio que esteja muito ocupado- disse Josui em
japons.
- Eu nunca estou muito ocupado volveu Kobori, com
um leve sorriso. - Devo chamar o meu secretrio?
Fez essa pergunta em considerao a Josui, que poderia
no gostar de ser vista entrar a ss com ele no escritrio.
- No, por favor - respondeu Josui.
Conduziu-a ento ao seu gabinete e deixou a porta
entreaberta.
- Sente-se, por favor - disse, oferecendo-lhe uma confortvel poltrona ocidental. O aposento era amplo e todos os mveis pesados. As paredes brancas ostentavam apenas 
alguns belos caquemonos pendurados atrs da escrivaninha.
Kobori no se sentou  sua mesa. Tomou lugar noutra poltrona e assim ficaram como se estivessem numa sala de visitas, talvez em casa dos Matsui, onde havia salas 
de estar
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mobiladas  moda japonesa e tambm  ocidental. Frente a frente com ele, Josui sentiu uma profunda tristeza por ter ido  sua presena com to cruel objectivo. Ali 
estava ele sentado, um homem alto e bondoso, com o rosto oval liso e plido a sorrir, os olhos castanhos a fit-la, radiantes. Josui sentiu a confiana simples, 
que nela depositava, o prazer que lhe dava o noivado, a f absoluta que tinha na sua prpria boa sorte. Era fcil perceber que nunca soubera o que significava uma 
decepo ou experincia amarga, filho bem-amado que era de um homem rico, e herdeiro de todos os bens do pai. Quo agradvel poderia ter sido o seu amor, se ela 
nunca tivesse conhecido Allen!
Josui censurou-se ento. Como poderia ter sido agradvel? O clmax da vida' era .o amor, e jamais teria conhecido o que ele significava se tivesse simplesmente casado 
com Kobori.
Segurando a bolsa de couro com ambas as mos, inclinou-se para a frente e disse:
- Kobori, vim aqui com um intuito estranho e cruel.
difcil diz-lo.
Ele permaneceu imvel.
No precisa ter medo de mim, Josui.
Sem maiores prembulos ela desferiu o golpe. - No posso casar consigo, Kobori.
Ele olhou-a; ainda imvel, aguardando. "Oh", pensou ela,
"vai sentir de mais".        
- A culpa  toda minha -acrescentou rpidamente. Nunca deveria ter me comprometido consigo. Esse foi o meu
erro. Eu sabia o que se ocultava no meu corao. Mas julguei
que estivesse morto.  agora, inesperadamente e at contra o
meu desejo, reviveu.
Kobori falou, escolhendo as palavras, um tanto seca
mente at.
- Quer expressar-se de modo mais concreto?
Josui olhou para a bolsa.
- Na Primavera passada, conheci um americano. Descobrimos
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logo que nos amvamos, mas chegmos  concluso de que seria melhor separarmo-nos, e ele partiu. Pensei poder esquecer essa experincia, porm ontem ele voltou. 
Tambm no resistiu. Sabemos, agora, que no nos  possvel esquecer. Seria uma injustia contra si esconder a verdade.
Kobori humedeceu os lbios plidos.
-Agradeo-lhe por ter-me contado- disse.
Josui esperou que continuasse a falar e no ousou levantar os olhos. Mas parecia que ele nada mais tinha para lhe dizer.
- Que dizem seus pais a isso? - perguntou, finalmente.
- No aprovam-replicou ela. - Minha me, no entanto, pensa como eu: que tenho de fazer o que estou a fazer. Meu pai est zangado, simplesmente. No sugere nada de 
construtivo. Odeia a Amrica, como sabe. -lhe horrvel pensar que voltarei para l.
- Mas voc gosta da Amrica - observou Kobori, com ar pensativo. - Eu mesmo nunca duvidei disso. Tinha feito planos de, uma vez por outra, lev-la comigo para passar 
umas frias l. Temos negcios com firmas americanas e teremos muito mais quando a ocupao do pas tiver terminado. Planeava passar, talvez, diversos meses na Califrnia.
Inclinou-se para a frente, de sbito, escondendo o rosto entre as mos.
Lamento muito, muito! -murmurou ela.
Sim- disse Kobori, com o rosto ainda oculto nas mos. Bem, nada se pode fazer. Foi muito louvvel da sua parte ter vindo pessoalmente contar-me. Sem dvida, por 
algum tempo eu terei de... reordenar os meus pensamentos.
- Espero que encontre outra pessoa- observou ela, e percebeu logo o deslize que cometera.
- Nem posso pensar nisso-redarguiu ele.
Baixou as mos e Josui viu, aliviada, que no estava a
chorar, embora a fitasse com olhos tristes e cheios de amor. -Suponho que no tornaremos a ver-nos a ss, Josui.
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- No haver necessidade, penso - replicou ela. - Assim ser mais fcil para ambos.
- Ento  melhor que lhe diga agora o que desejo dizer-lhe, se me permite.
- Certamente eu no lhe proibiria isso -tornou ela.
Josui sentia mais leve o corao e ansiava por retirar-se. Mas devia ao menos esperar para ouvir o que ele desejava dizer-lhe.
Kobori inclinou-se ainda mais, apoiando os cotovelos nos joelhos, para olh-la com maior intensidade.
- Josui,  pouco o que tenho para dizer. S isto: se algum dia precisar de mim, seja qual for a razo, procure-me. No deixe que o seu orgulho a impea de fazer 
isso.
- Oh, Kobori! - exclamou ela, - Serei muito feliz, no haver necessidade disso; mas como  bondoso!
Ele tentou sorrir.
- Deixe o caminho aberto,  s o que lhe peo.
Ela pusera-se de p, inquieta, ansiosa por ir embora.
- Prometo-lhe, Kobori.
Era uma palavra pouco adequada e ela sentiu-o, mal a pronunciou. Prometer! No tinha mantido a promessa que lhe fizera antes. Mas, agora, estendeu a mo e, pela 
primeira vez, sentiu o aperto daquela mo larga, macia e quente a cobrir inteiramente a sua, que ficava to pequena e firme dentro dela.
Ele pareceu emocionado, e de repente brilharam lgrimas nos seus olhos. Mas sorriu e inclinou-se; Josui inclinou-se tambm. Tudo estava terminado.
Depois que ela saiu, Kobori ficou sentado algum tempo na poltrona. Deixou que a catstrofe o inundasse como uma onda imensa. Muito tempo atrs, quando menino, seu 
pai ensinara-lhe como devia lutar com o mar. Tinham, ento, uma casa na praia de Kyushu, e durante o Vero passava a maior parte do dia dentro de gua. Cedo aprendera 
a nadar, mas fora seu pai quem lhe ensinara como devia fazer para no ficar extenuado.
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- No se pode vencer o mar - dissera-lhe. - O mar  imenso como a eternidade e imutvel como o destino, Em comparao com o mar, o homem  menor que um pequeno peixe. 
No lutes contra o oceano. No queiras combater as vagas. Entrega-te e,  medida que as ondas flurem, vai acompanhando o seu movimento. Sers ento sustentado pelo 
prprio mar.
Estas palavras vieram-lhe  mente. Aquilo que acabara de ouvir prostrara-o. Permitira-se confiar plenamente na segurana do seu amor a Josui. Nunca amara outra mulher. 
Como a maior parte dos homens, tambm ele fora a casas de prazer, tomara parte nas orgias que os homens proporcionam 'uns aos outros, rira com jovens bonitas e escutara 
a sua msica. Mas no tinha desejado para esposa outra mulher seno Josui. Agora ela nunca seria sua esposa. Esse pensamento era to monstruoso que, por um momento, 
sentiu-se atordoado, como se a areia fosse sugada sob os ps e as ondas rebentassem da poltrona e assim permaneceu, completamente inerte, deixando que as vagas da 
dor revoluteassem em seu redor. Assim tinha de ser - assim tinha de ser!
Quase uma hora depois abriu os olhos, ergueu-se, foi buscar um bule que estava sob o abafador, em cima de uma pequena mesa perto da sua escrivaninha, e encheu uma 
taa de ch quente. Sorveu-o com vagar, sentindo frio e cansao, como se realmente tivesse estado no mar. No poderia vencer to depressa aquela sensao de frio.
No entanto, transcorrida outra meia hora, tocou a campainha da sua mesa. O secretrio apareceu e ele comeou a ditar-lhe as cartas daquela manh.. Enquanto se ocupava 
disso, pensou que  noite, mal chegasse a casa, teria de dizer a seu pai. Os preparativos para o casamento tinham de ser interrompidos imediatamente. Os convites 
deviam ser cancelados. J no era possvel devolver ao joalheiro o presente de npcias que escolhera para Josui, um jogo de prolas rosadas, legtimas, colhidas 
ao largo da costa da India.
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- Eu j contei a Kobori - disse Josui.
Sei pai s chegara  meia-noite, porm ela tinha ficado  sua espera. A me estava a par do ocorrido. Tinham guardado as vestes de casamento, que no iam ser usadas 
agora. Josui no sabia o que se passava no ntimo de sua me. A Sr Sakai dobrara as roupas com todo o cuidado, no permitindo que a filha as tocasse. Os tecidos 
preciosos foram guardados no depsito, numa cmoda de madeira de cnfora. Tinham levado a tarde inteira ocupadas com essa tarefa e a me no lhe dirigira nenhuma 
pergunta, nem mesmo sobre o que Kobori dissera.
-  muito tarde - respondeu o pai, quando Josui lhe disse que precisava falar com ele.
- No conseguirei dormir enquanto no lhe contar o que fiz - insistiu Josui.
Ocultando o desespero e a fadiga, o Dr. Sakai sentara-se e ela, de p, declarara-lhe que estava resolvida a casar com o americano.
- No sei como dizer ao meu amigo Takashi Matsui, nem como ele o dir ao filho -observara o pai.
Foi ento que Josui lhe comunicou que Kobori j sabia, pois ela lho contara.
- Disseste-lhe? - perguntou o pai, incrdulo. - Como pudeste ser to audaciosa? V como j ests mudada!
- Kobori  to bom que pude contar-lhe - respondeu ela, baixando a cabea.
- Ele  to bom!...  to bom! - arremedou o pai. - Mas parece no ser bastante bom para casar contigo.
-  bastante bom, sim- exclamou Josui com coragem.Acontece apenas que amo outro homem e Kobori compreende a situao.
- Isso no diminui o escndalo -afirmou o pai.
Ficou sentado ali, de sobrancelhas franzidas e taciturno, mas exausto, como Josui bem o percebeu. O seu belo rosto estava plido como cera e os olhos fundos nas 
rbitas. De
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repente bateu com as palmas das mos, trs vezes, com fora.
- Esse americano nunca casar contigo!
- Casar, sim! - exclamou Josui.
- como poder casar? - perguntou o pai. - Na Amrica os casamentos so sempre realizados numa igreja. O casamento civil no  suficiente. No o consideraro como 
tal. E como poder haver festas e convidados? Quem servir de testemunha? As testemunhas so necessrias do ponto de vista americano.
- No quero festas nem convidados - disse Josui. - E qual  a nossa religio, pai? Ns no temos igreja.
- Eu sou budista - declarou ele. - Os americanos tm os seus deuses e sacerdotes e ns temos os nossos. A cerimnia teria de ser realizada no templo budista, na 
presena dos deuses e dos sacerdotes.
- Estou certa de que meu... que ele... estar de acordo com isso. Deseja fazer tudo que o pai exigir- disse Josui.
- Excepto deixar-te em minha casa - observou o Dr. Sakai, com amargura. - Isso no far. Entrou aqui como um ladro, roubou o meu tesouro e nega-se a devolv-lo. 
Que mais posso exigir dele?
Josui baixou ainda mais a cabea. No entanto, observando-lhe o rosto, ele no notou ,nenhum sinal de que estivesse disposta a ceder. O seu lbio inferior, rubro 
e cheio, no tremia. Foi ele quem cedeu repentinamente e, levantando-se de um salto, afastou-a com o brao, num gesto que era quase um golpe.
Faz o que entenderes - disse speramente. - Vai para a Amrica. Mas quando te correrem de l, como correram a todos ns, no queiras voltar para junto de mim.
Ela levantou a cabea, to orgulhosa e encolerizada como ele.
- No voltarei para junto de si, isso prometo-lhe pai!
Em Tquio, Allen falava com o seu comandante. Estavam os dois sentados a ss no gabinete do coronel. Havia pilhas de
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papis  espera sobre a mesa e, de quando em quando, o coronel lanava um olhar furtivo para eles. Enquanto Allen falava, o monte avolumava-se na sua imaginao, 
tomando propores cada vez maiores.
- Naturalmente,  assunto pessoal seu - disse o coronel com relutncia. - Ainda assim, admiro-o. Voc tem alguma coisa mais que o simples esprito militar. No h 
nele nada de mal, mas os melhores homens so sempre os que tm algo mais que a mentalidade comum do soldado. Na minha opinio, se voc quisesse, poderia subir muito, 
obter at cinco estrelas.. Naturalmente que, casado com uma japonesa, no ter a oportunidade. A esposa  muito importante para o homem que pretende fazer carreira 
nesta profisso.
- Sei que o senhor tem razo - disse Allen Kennedy. Cynthia, por exemplo, teria sido a esposa ideal, bonita na sua loura plenitude, cheia de tacto, amvel, simples 
por natureza, sem ser tola. Mas ele no estava apaixonado por Cynthia.
Voc no poderia fazer um arranjinho? - insistiu o coronel. - Os japoneses no encaram esse assunto como ns. Os homens aqui encontram muitas oportunidades para 
isso. Elas nem contam com o casamento. Os homens japoneses casam com o melhor partido que lhes aparece, sem pensar em amor. O amor  coisa diferente.
O coronel era um homem instrudo. Sabia que o sexo, embora constitudo sempre do mesmo desejo instintivo, encontra satisfao de maneiras to diversas quanto  diverso 
o temperamento dos prprios homens. O rosto bem talhado, expressivo, talvez um pouco delicado de mais, do jovem que o fitava com olhos azuis resolutos, revelava 
uma natureza mais complexa que a do soldado da rua. O apetite sexual poderia arder numa compleio como a sua, porm smente a magia da imaginao romntica era 
capaz de aplac-lo. No sendo o impulso do touro, era, contudo, um impulso igualmente definido, embora com ramificaes tanto na mente como na alma e, portanto, 
muitssimo mais difcil de satisfazer.
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Suponho - disse Allen, com relutncia - que, se eu fosse um dos que entram em "arranjos", como diz o senhor, teria sido melhor. Mas, por infelicidade, eu... no 
posso...
O coronel inclinou a cabea afirmativamente.
Bem, os homens no so iguais. D-me alguns dias para pensar.
Allen levantou-se imediatamente, compreendendo que o coronel dera a entrevista por terminada. Devo...
- Mandarei cham-lo quando tiver chegado a uma concluso - disse o comandante, j ocupado em separar os papis.
- Mais uma coisa, coronel disse Allen, permanecendo no lugar. - Estamos ambos decididos. No se trata de "querer" ou "no querer". A questo  simplesmente como 
fazer o que pretendemos. Em poucas palavras, que deve fazer um americano quando deseja casar com uma japonesa de boa famlia? s o que vim perguntar-lhe, coronel.
O outro exasperou-se.
- Deixe isso comigo, sim, Keneddy? No posso ver o meu melhor oficial dar um passo desses, sem pensar mais maduramente. Agora  impossvel ocupar-me deste assunto... 
olhe para isto! - E agitou um punhado de papis.
- Sim, coronel! - respondeu Allen, e retirou-se.
Na verdade, o que o coronel pretendia era ir para casa e falar com sua esposa, mas um homem solteiro no seria capaz de entender isso. Assim que Allen saiu do aposento, 
deixou de fingir que trabalhava. Fumou vrios cigarros enquanto reflectia, depois chamou a esposa ao telefone. Ela respondeu-lhe que no estava a fazer nada de especial.
- Pensei que ias jogar bridge, hoje - disse ele. - Hoje no, amanh.
- Ah, sim? Bem, acho que vou chegar cedo para almoar. Acabo de ter notcias desagradveis.
Deixou o gabinete, lamentando no ter trazido um sobretudo leve naquela manh. O ar estava cheio de uma luminosidade
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cintilante e nas ruas j se encontravam por toda a parte vendedores de crisntemos precoces. Nunca tinha visto flores assim, maiores at que as amarelas, enormes, 
que costumava comprar para Edna usar quando iam assistir aos jogos de futebol em New Haven. Ela, tinha sido um verdadeiro sucesso como esposa de um oficial. Sabia 
sempre o que estava bem e agia de acordo. Tratava as mulheres dos oficiais de categoria inferior sem arrogncia, e as de posio superior  sua exactamente com o 
devido grau de deferncia, sem exagero. Possua senso de humor, mas, graas a Deus, tambm sem exagero. Levava a srio a vida militar, como cumpria a uma mulher 
casada com um coronel.
Estava  sua espera. Vestia um fato de l, cor de avel, que parecia quente sem ser pesado. Era uma mulher de olhos e cabelos castanhos e, embora o marido suspeitasse 
que ela tingia os cabelos para ocultar os fios grisalhos, em hiptese alguma teria tentado desvendar os seus pequenos segredos. No tinha nada de pudica. Compreendia 
os homens. No obstante, gostava de estar s enquanto se vestia, e o coronel j percebera que no era bem-vindo quando ela estava "a arranjar-se" como ele costumava 
dizer. Sorriu agora ao ver a esposa.
- Ests bonita.  novo esse fato?
- Cus, no! Tem pelo menos dez anos. No recordas que o comprei em Londres quando estvamos l?
- Nunca sei o que tu compras -redarguiu ele. - O almoo est pronto?
- Preparei uns coktails,
-Muito bem.
Enquanto tomavam os aperitivos na ampla e ensolarada sala de estar da casa que fora requisitada a um milionrio japons, ele relatou-lhe, a triste novidade.
- Kennedy envolveu-se com uma japonesa de classe elevada - comeou abruptamente. - Quer casar com ela.
- Oh, Robert! - gritou a esposa, como se fosse culpa dele.
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- Eu sei - volveu o coronel - mas que podemos fazer?
j lhe disse tudo o que tu ests a pensar.
- Ele no poder fazer uma coisa... temporria? - Foi o que lhe sugeri.
- E?...
O coronel estalou levemente os lbios aps um gole do aperitivo_ e secou com um guardanapo minsculo o bigode aparado.
- No  que Kennedy seja pudico de mais para uma soluo dessas - disse cuidadosamente. - No creio que se trate de uma questo de moral.
- Que  ento?
- Ele  excessivamente refinado. Entendes o que eu quero dizer? No  capaz de ter relaes com mulheres para depois abandon-las simplesmente. A espcie de mulher 
com que se pode fazer isso no o interessa. E as que o atraem so do feitio das que no querem ser tratadas assim.
- Oh,  romntico! - exclamou ela com nfase.
- Pode ser - admitiu o coronel. - D a isso o nome que preferires. Conheci homens incapazes de realizar o acto sem prembulos romnticos.  uma maada, para no 
dizer mais. Falta de realismo. No se pode contar com homens assim. Prefiro um camarada que se ponha na fila at chegar a sua vez, pague o seu par de dlares e depois 
volte ao trabalho.
Ela era uma mulher extraordinriamente compreensiva. Podia-se falar em assuntos como aquele, sem que se sentisse chocada. Sabia o que queria dizer. E, como conhecia 
bem os homens, no se entusiasmava por eles, criando-lhes situaes embaraosas.
- No tomes mais que dois, Robert - advertiu-o quando ele encheu o copo de novo. -Sabes qual  o efeito quando bebes ao meio-dia.
- Sim, com os diabos! - disse o coronel, com ar sombrio. Sua mulher sabia preparar um bom cocktail, saboroso e seco. Detestava a bebida adocicada. - E ento?
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- Estou a pensar - replicou ela.
Bebia muito pouco, mas nunca se recusava a acompanh-lo. Estava sempre disposta, ainda que raramente mostrasse entusiasmo. Era sensata de mais para isso.
- Vou dizer-te - exclamou alguns instantes depois. - Porque no lhe arranjas uma licena?
- Agora? Quando a situao na Coreia est a tornar-se ameaadora?
- Manda-o para casa, para a atmosfera do seu lar. Ele mora na Virgnia, no ? Lembras-te das fotografias que nos mostrou, da grande casa branca com os pilares? 
V se o mandas para casa, quanto antes. Pe todos os meios em aco, Bob! Ele h-de encontrar por l uma pequena que o faa esquecer. Aposto que  um simples caso 
de continncia, no de consciencia.
- Rapariga esperta! - disse ele com convico.
Sentia-se aquecido pelo lcool, pelo sol que inundava a ampla sala, e pela sensao geral de conforto, segurana e superioridade da sua vida. Estendeu o brao, prendeu 
a esposa pela nuca e atraiu-a para si, dando-lhe um grande beijo.
- s a melhor esposa do mundo -murmurou, junto aos seus lbios condescendentes.
Kobori no foi mais cedo para casa, embora estivesse terrivelmente fatigado. Apesar do seu corpo mole e pesado, era um homem sadio e forte, que nunca sentia cansao 
fsico, mas de fcil fadiga mental. Se tinha alguma religio, era a de que a expresso de felicidade e contentamento devia ser conservada a todo o custo. Considerava 
isso a sua obrigao filial, como nico filho que restava aos pais. Admirava seu pai mais que qualquer outro homem, porque sabia que tinha sacrificado muito pelos 
seus princpios. Assim, seu pai, antes da guerra, fora quase o nico entre os magnates do comrcio do Japo a declarar que a poltica dos militaristas que controlavam 
o governo estava errada.
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- No  possvel mantermos um imprio pela fora - declarara Takashi Matsui, quando chateado perante um comit da Dieta.
- A Inglaterra f-lo - objectou um general.
- Mas os tempos mudaram - lembrou o Sr. Matsui. - A India de h trezentos anos atrs no pode ser tomada como exemplo da China de hoje. Os chineses no se deixaro 
dominar pelo Japo. Nunca foram um povo subjugado..
- Se no levarmos avante a nossa poltica de construo de um imprio - insistiu o general - mergulharemos ns prprios na colonizao. No acredite que o Ocidente 
tenha renunciado  ideia imperial. Os Estados Unidos s agora se esto transformando numa potncia. Os americanos sonham com o imprio.
- Sonham com o comrcio! - observou o Sr. Matsui, com teimosia.
- Comrcio! Comrcio! - retorquiu o general com desdm. - Todos os imprios nascem do comrcio. Os ingleses foram  India para comerciar e o resultado foi um imprio 
de trezentos anos. Se no nos apoderarmos da sia, os americanos o faro.
- No esquea que hoje tambm temos de contar com a Rssia - disse o Sr. Matsui, com brandura. - A Rssia representa um perigo maior que a Amrica.
O general respondeu to alto que as suas palavras ressoaram pelo salo.
Enfrentaremos um de cada vez, se nos d licena!
Takashi Matsui afastou-se sem ter propriamente cado em desfavor, pois era muito rico, e a sua famlia muito antiga e respeitvel. Mas retirou-se prudentemente da 
actividade. Os interesses dos Matsui foram postos de lado e smente aps a ocupao comearam a erguer-se de novo. Nesse intervalo o irmo mais velho de Kobori foi 
morto e o outro encontrava-se perdido pela Rssia. Vendo a profunda tristeza dos pais, Kobori procurou confort-los por todos os meios, e descobriu que o
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melhor conforto era o de parecer sempre feliz e contente na presena deles. Nunca lhes revelara, portanto, os aborrecimentos prprios e esta disciplina severa fizera 
dele um homem controlado e amadurecido.
O seu primeiro pensamento, ao dirigir-se agora para casa, prendia-se, como de costume, ao pai e  maneira mais suave de comunicar-lhe o golpe que o atingira, fazendo-lhe 
sentir que no tinha sido esmagador. Sua me compartilharia dos sentimentos do pai. Era uma japonesa  moda antiga, subjugada suavemente e havia tanto tempo, que 
hoje representava apenas a sombra do marido e j no um ser independente.
A tarde estava clara e fresca, e as ruas orladas pelos cestos dos vendedores de crisntemos. Olhou-os de passagem para ver se havia alguma variedade de crisntemos 
que o pai ainda no possusse. Finalmente avistou uma, cor-de-rosa prola, muito plida, cujas ptalas se encrespavam em redor de um centro amarelo como ouro. Parou 
a fim de adquirir o vaso e mandou enrol-lo num pedao de jornal velho. A seguir transportou-o, cuidadosamente, pelo pequeno trecho que o separava do porto de sua 
casa. Antes da ocupao, nenhum homem teria sequer pensado em carregar assim um vaso de flores, mas agora isso era considerado uma prova de esprito democrtico. 
Kobori gostava da convenincia que esta liberdade proporcionava.
Seria agradvel apresentar ao pai a nova variedade de crisntemo, pensou. Serviria de introduo, aps a qual, mais tarde ou talvez imediatamente, pudesse relatar 
a triste notcia. Esperaria pelo momento oportuno, mas desejava que surgisse quanto antes, pois teria menos dificuldade em controlar-se depois que o pai soubesse; 
seria ento obrigado a assegurar-lhe que no estava to abalado quanto era de esperar e que certamente no iria querer para esposa uma mulher que dava o seu consentimento 
contra vontade.
Conforme tinha por hbito a essa hora da tarde, seu pai passeava no jardim. Tal como acontece com a maior parte dos cultivadores de jardins, nunca conseguia deleitar-se 
tanto
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quanto desejava com a perfeio do seu, pois Os seus olhos demasiado zelosos enxergavam sempre algum defeito, muito insignificante para ser notado por uma pessoa 
estranha.
Kobori viu o pai entre os canteiros regulares de crisntemos, com os lbios franzidos, inclinando-se sobre uma maravilhosa touceira de flores vermelhas e cor de 
ouro.
- Kobori! - exclamou o pai. - Acho que estes no so to lindos quanto os do ano passado!
O rapaz inclinou-se.
- Irei v-los. Mas em primeiro lugar, meu pai, ns temos esta variedade crespa, cor-de-rosa? No consigo lembrar-me de a ter visto.
O Sr. Matsu estendeu as mos com avidez. Foram aquelas
duas mos estendidas que causaram um choque em Kobori. Eram to transparentes que deixavam aparecer cada um dos ossos. Como estava magro seu pai! Olhou para aquele 
rosto querido e observou nele a mesma magreza. O Sr. Matsui trajava, como habitualmente, roupas japonesas e o pescoo estava descoberto. Kobori pde ver as cavidades 
da clavcula, as tmporas fundas. Ele era mais alto que o pai, mais corpulento e forte do que O Sr. Matsui nunca fora, e sentiu agora intensa compaixo por esse 
homem idoso, colocando-se quase na sua posio. Forou-se a rir.
- O senhor no tem esta variedade? Descobri realmente um novo crisntemo para si!
O rosto moreno e magro do seu pai cobriu-se de inmeras rugas.
- No imaginaria isso possvel!
Os crisntemos do Sr. Matsui eram famosos.
Ambos se inclinaram sobre a nova flor, absortos na sua beleza frgil.
- Onde iremos plant-lo? - perguntou O Sr. Matsui, impaciente. - De certo que no entre estes vermelhos e cor do ouro. Tua me vai gostar do novo tipo. Parece-se 
com ela. Vou plant-lo aqui, onde ela poder v-lo da janela do seu quarto.
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Colocou cuidadosamente a planta num outro canteiro e depois esfregou as mos para limp-la da terra. A cena era to agradvel, o ar estava to delicioso, que Kobori 
resolveu aproveitar aquele momento feliz.
- Pai, estou contente por ter encontrado este crisntemo para o senhor. Isso me facilita a tarefa de lhe contar uma coisa menos agradvel! O casamento no se realizar.
O Sr. Matsui voltou-se rapidamente para o filho.
- Que dizes?
Sakai decidiu no casar comigo-tornou Kobori, com calma.
Takashai Matsui pestanejou; por um instante ficou impossibilitado de falar. Kobori aproveitou o choque momentneo do pai.
No deve aborrecer-se, pai - disse suavemente. - Sempre pressenti que este casamento no se realizaria. Penso que, dada a afeio que dedica ao senhor, o Dr. Sakai 
se empenhou de mais em convencer a filha. Sabe quanto ele o admira. Vai sofrer muito. Devemos pensar como poup-lo. Estou de facto agradecido a Sakai por ter-me 
avisado a tempo.
Ela, pessoalmente... - tartamudeou o pai.
- Sim-respondeu Kobori, com serenidade- Ela  muito americana, o pai sabe.. Veio simplesmente ao meu escritrio e exps-me os seus sentimentos. Prefere casar com 
um americano.
H um americano? - quis saber O Sr. Matsui.
- Parece que sim- disse Kobori. - E, nessas Circunstncias, estou certo de que assim  melhor.
J ento O Sr. Matsui se refizera o suficiente para ficar zangado.
Certamente que  melhor assim, certamente! Uma jovem que se porta dessa maneira nunca serviria para entrar na nossa antiga famlia. Mas e tu, meu filho?
Kobori sorriu.
- O pai est vendo. Sinto-me perfeitamente satisfeito!
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Takashi Matsui estendeu a mo e segurou um dos braos do filho. Tranquilizou-o sentir os msculos fortes por debaixo da manga de flanela.
- Que embaraoso para ti, meu filho, que ela te tenha procurado pessoalmente!
- De forma alguma -redarguiu Kobori em tom despreocupado. - Gostei at da sua franqueza. Foi algo de novo. Ela  uma jovem inteligente. Penso que ser mais feliz 
na Amrica do que aqui. Afinal de contas, passou os primeiros quinze anos da sua vida na Califrnia. Depois disso, suponho que nunca poder ser inteiramente japonesa. 
Temos de pensar smente em seu pai.  um homem extraordinrio que muito sofre, segundo creio, porque perdeu uma ptria e no consegue tornar a viver a sua vida na 
outra,
Foram caminhando lentamente, de brao dado, em direco  casa.
- Como diremos a tua me? - murmurou O Sr. Matsui.
- No lhe digamos nada agora - sugeriu Kobori. - Vamos jantar como habitualmente. Ento,  noite, depois que se recolherem, talvez o pai possa dizer-lhe a ss, Amanh 
decidiremos como nos comportaremos com relao ao Dr. Sakai. No devemos ser precipitados. Temos que lhe dar tempo para superar a sua decepo e criar um estado 
de esprito adequado. Devemos esperar por esse estado de esprito a fim de adoptarmos uma atitude correspondente,
O Sr. Matsui apoiou-se no brao de Kobori.
- Penso 'unicamente em ti, meu filho. Contanto que no estejas ferido...
No h nada que me possa ferir -afirmou Kobori e olhou sorrindo para o rosto erguido do pai.
To lmpidos eram os seus olhos castanhos, to tranquilizador o tom da sua voz suave, que O Sr. Matsui acreditou nele.
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- Portanto - disse o coronel - voc pode ir para casa na quinta-feira, meu rapaz. Fique o tempo que quiser, dentro dos limites razoveis, naturalmente.
Allen repuxou os lbios num sorriso.
No pense que me deixo enganar, coronel!
O comandante no levantou os olhos dos papis que assinava. Sentia-se animado e eficiente naquela manh, cheio de confiana em si prprio.
- Quem est a querer engan-lo? - retrucou. - No me importa saber se voc se deixa enganar ou no. Quero que v para casa e pense. Volte para a atmosfera do seu 
lar, veja a sua famlia e olhe para as garotas.
- Isto no vai alterar coisa alguma, senhor.
-Talvez . altere- disse o coronel. - E se assim no acontecer, no Volte para c.
Acrescentara a ltima frase movida por uma repentina clera diante da teimosia do jovem oficial. Dera muitos conselhos a Kennedy, tinha gostado do rapaz e despendido 
muito tempo e ateno com ele. A raiva apossou-se do coronel ao pensar que tudo isso talvez fosse esforo perdido, por causa de uma jovem japonesa. Que fosse requintada, 
pensou, mas no havia tambm americanas requintadas? No acreditava em mistura de raas. J havia milhares de crianas mestias americano-japonesas, milhares de 
crianas americano-chinesas, assim como na India havia centenas de milhares de crianas anglo-indianas. Era uma das malditas consequncias da guerra e nem mesmo 
o Pentgono conseguia resolver o problema. Enquanto tratavam de preservar a Amrica para os americanos, os prprios soldados minavam o plano todo. E at Kennedy! 
A satisfao do instinto era compreensvel, quando os homens se encontravam em pas estrangeiro, mas o casamento!
- Muito obrigado, senhor! - disse Allen, formal.
- Oh, voc voltar! -rosnou o coronel.
Allen saiu. Trs dias! Que poderia fazer em trs dias?
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Estava furioso com a armadilha que o coronel lhe preparara e na qual se via forado a cair. Certamente tinha havido telefonemas atravs do Pacfico. De quem teria 
partido a ideia? Da esposa do coronel, naturalmente! S uma mulher seria capaz de um plano to ardiloso. Na Primavera anterior, teria ficado louco de alegria com 
a oportunidade de ir a casa. Agora a nica coisa que desejava era permanecer no Japo- Para sempre, se essa fosse a nica maneira de ficar com Josui. Sentiu-se chocado 
com a sua prpria infidelidade, pois naquele momento teria, de bom grado, feito o juramento de nunca mais voltar a casa, de jamais rever seus pais, se isso lhe desse 
a certeza de poder passar o resto da vida com Josui. Havia algo mais do que amor na sua clera. Nunca fora contrariado daquela maneira. Muito pouco lhe fora negado 
na vida. Filho nico, fora sempre querido de mais para sentir-se frustrado, e no estava disposto a submeter-se agora  frustrao. Conseguira sempre aquilo que 
desejava.
Trs dias!
-Arrume as suas coisas - dissera-lhe o coronel. - No vou pedir-lhe nada, mas aconselho-o a embarcar sem ver de novo a rapariga.
Bem, isso no faria. Iria a Kyoto no primeiro comboio que pudesse apanhar.. Naturalmente, tinha de partir para a Amrica. Deixar de ir seria insubordinao, em tal 
grau que preferia nem sequer pensar nisso. Mas, de qualquer maneira, precisava convencer Josui de que voltaria. Se ao menos o rapaz japons no estivesse to prximo 
dela... A dvida era se Josui seria capaz de resistir.
Essa dvida perturbava-o de tal maneira que chegava a ser intolervel. No teria prazer em estar em casa, se no estivesse seguro a respeito de Josui e o nico caminho, 
bem o sabia, era casar imediatamente. Casariam agora, to depressa quanto fosse possvel. Mas como? Levaria uma eternidade para conseguir a permisso e, de qualquer 
forma, provvelmente o
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coronel bloqueara esse caminho. Como casavam os japoneses? Ou quem sabe se poderia convenc-la a...
Telegrafou a Josui, dizendo que chegaria no dia seguinte no comboio da tarde. J no poderia ir hoje no da manh. Faria as malas e preparar-se-ia para passar todos 
os momentos com ela. Oh, havia de convencer a sua querida, apert-la nos braos, cativ-la e demonstrar-lhe tanto amor que ela no seria capaz de recusar-se a ser 
toda sua, com ou sem casamento. E, depois que o seu amor tivesse sido selado Pela consumao, poderia viajar e voltar quanto antes.
Havia uma soluo ainda melhor! O seu crebro trabalhava com rapidez enquanto se dirigia para casa. Pediria a transferncia. Ficaria na Amrica e talvez pudesse 
obter um trabalho nos escritrios do Pentgono. Possua muitos anos de experincia, passados nas ilhas do Pacfico, no Japo, na Coreia e agora novamente no Japo. 
Sem dvida poderiam aproveitar os seus servios. E ento Josui iria reunir-se a ele. Era cidad americana por nascimento, e no haveria dificuldades com respeito 
 sua entrada no pas.
Sentiu o corao mais leve. Talvez at fosse melhor assim, apesar da cilada do coronel. Poderia precisar de algum tempo para convencer a famlia. Sabe-se l que 
ideias obscuras no teriam a respeito dos japoneses! Estava satisfeito por ter-se dado ao trabalho de, quando escrevia  me, descrever-lhe as paisagens, contar-lhe 
as aventuras divertidas que lhe aconteciam e os prazeres da vida que levava no pas. Caso tudo se resolvesse de maneira satisfatria, gostaria de viver ali. Era 
um pas agradvel, onde se vivia bem e o povo era encantador. Sim, com o tempo chegara a essa concluso. Era estranho acordar s vezes, no meio da noite, de um sonho 
horrvel, um pesadelo das selvas onde o terror, pronto a saltar sobre eles de um instante para o outro, era um japons nu, pintado de matizes verdes que o tornavam 
invisvel a poucos metros de distncia. Naqueles dias aprendera a dormir semidesperto, a ouvir, a sentir a presena do inimigo. Certa vez, ainda quase
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adormecido, erguera-se de um salto e enterrara o seu punhal curto no corpo musculoso de um japons. Mas nunca conseguira habituar-se quilo. No era um matador por 
instinto. O pesadelo recordava o momento em que a lmina penetrara na maciez da carne, atravs da pele. Esta, a princpio, oferecia resistncia  ponta do punhal, 
e depois...
Entrou abruptamente num posto telegrfico e escreveu a
sua mensagem a Josui. CHEGO AMANH  TARDE. RECEBI ORDEM DE IR PARA CASA. Escreveu at a e ento parou. A notcia iria amedront-la, e era preciso evitar isso. 
Mordeu o lpis e acrescentou: TEU AT A MORTE, ALLEN.
O telegrama chegou  noite. O Dr. Sakai recebeu-o do mensageiro e leu-o antes de entreg-lo a Josui. ,Ela ouvira soar a sineta. Avistara o mensageiro e suspeitara 
"de que o telegrama lhe era endereado. Nem lhe ocorrera a ideia de opor-se a que o pai o lesse em primeiro lugar. Mais cedo ou mais tarde ela lho teria dado a ler.
O Dr. Sakai estendeu-lhe o telegrama sem comentrios, mas com uma expresso animada.
Josui leu-o duas vezes, devagar, deduzindo precisamente o que Allen tencionara dizer. Fora mandado para a Amrica por sua causa. Como oficial, tinha o seu valor. 
Seria obrigado a ir, mas queria dar-lhe a entender que estava resolvido a casar com ela.
Mas como poderiam levar isso a efeito? A sua mente rpida reuniu os factos e examinou-os.
- Precisamos casar imediatamente - disse ao pai.
- Probo-o- gritou ele. - Deixa-o ir. Esperaremos para ver se volta.
-Se no casarmos, irei com ele de qualquer maneira - declarou a jovem.
- Fechar-te-ei no quarto! - berrou o Dr. Sakai.
Ela riu-se, de modo muito pouco agradvel. O pai ficou chocado ao ouvi-la rir assim. O lindo rosto de Josui tornara-se
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desdenhosamente duro. Olhou de lado para o pai, os cantos da boca crispados para baixo.
- E o pai acha que ele ir permitir que me feche no quarto? Quebrar a casa toda. No viu como so capazes de se portar os americanos? Acha que pode atravessar-se 
no caminho deles? No se esquea de que so nossos conquistadores!
- Nada  mais terei a ver contigo!
- E eu irei com ele!
Sua me, ouvindo as vozes exaltadas, acudiu  pressa. Yumi encontrou-a no corredor e apontou com o dedo para a porta de entrada.
- A gente da rua! - sussurrou.
- Josui! Josui! - gritou a Sr Sakai. - Teu pai! Oh, no sejas m.
Colocando-se entre os dois, empurrou o marido com uma mo e a filha com a outra. Nenhum deles lhe prestou ateno. Continuaram a desafiar-se com os olhos.
-Uma oportunidade enviada por Deus para experimentar este estrangeiro - esbravejava o Dr. Sakai. - Mas esta criatura desavergonhada insiste em casar-se com ele antes 
da sua partida, para que no lhe possa escapar. Comeo a crer que no foi ele, mas sim ela que provocou todo o mal. Ela, postada ao porto para se fazer olhar. Ela, 
encontrando-se secretamente com ele.... devo pedir desculpas pelo procedimento de minha filha.
Ergueu o rosto para o tecto e levantou os braos.
A Sr Sakai voltou-se para Josui.
- No podes casar to depressa. Leva algum tempo. Ele precisa arranjar permisso.
- Irei com ele - insistiu Josui.
Olhou para o pai, para a me, e viu-os sbitamente unidos contra ela. Era uma coisa que nunca tinha visto, pelo menos desde que Kensan morrera na Itlia e ela se 
tornara filha nica.
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- Farei o que muito bem entender - gritou e correu pela casa at ao quarto.
Deixados a ss, os pais olharam-se com uma expresso de amargura.
- Que vamos fazer? - perguntou o Dr. Sakai, com desusada humildade.
- Ela  to teimosa- disse a Sr Sakai, tristemente.Lembra-te de que foi criada na Amrica. No a podemos modificar agora.
- Irei ao tempo falar com o sacerdote budista, o Hosshu - declarou o Dr. Sakai com igual tristeza. -Teremos de cas-la.
Allen Kennedy fez soar a sineta de bronze da porta. Temia a hora que tinha  sua frente, mas estava decidido. Se o Dr. Sakai lhe proibisse a entrada, no cederia 
terreno. Se ao menos Josui no fosse to jovem! Era difcil dizer a um homem que sua filha de vinte anos tinha idade bastante para saber o que queria. Mas o prprio 
Dr. Sakai devia conhecer a deciso, a firmeza, a calma, a fora de vontade de Josui. O seu rostinho doce e sereno ocultava um gnio arrebatado. Allen contava com 
esse gnio. Quantas vezes na vida ele prprio fora capaz de afastar os obstculos que lhe haviam posto no caminho, quando ficava bastante irritado como estava agora. 
Nem o coronel nem o Dr. Sakai, isoladamente ou em conjunto, o fariam mudar de ideias.
Mergulhado nesses pensamentos, esperou diante da porta. Um momento depois abriram e Yumi, a criada baixa e atarracada, apareceu. Disse algumas palavras em japons 
que ele entendeu como um convite para entrar. Atravessou a soleira e ela no deu mostras de apreenso; portanto, compreendera bem. A criada inclinou-se, fazendo-lhe 
sinal para que a acompanhasse. Ficou surpreendido, mas obedeceu. A casa estava em silncio. No ouviu som de vozes nem passos. Uma armadilha? Ideia fantstica; no 
entanto ocorreu-lhe.
No havia armadilha alguma. Foi introduzido num aposento
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amplo e belo, cujas paredes de rtulas recobertas de papel, corridas para um lado, deixavam aparecer um jardim primorosamente cuidado, com uma cascata a cair de 
degrau em degrau pela encosta de um pequeno outeiro que imitava uma montanha.
O Dr. Sakai e a esposa estavam sentados, ele  direita e ela  esquerda, diante do nicho onde havia uma tigela rasa com galhos de folhas outonais um pouco para o 
lado de um pergaminho que representava uma paisagem. Levantaram-se  sua entrada. Ambos trajavam roupas japonesas e meias de seda reforada, brancas. O quimono de 
crepe de seda pesada, vermelha, que a Sr Sakai usava, tinha um desenho de glicnias em flor. O do Dr. Sakai era de cor escura e por cima dele vestia uma sobrecasaca 
curta. Tudo muito formal na verdade! Mas porqu?
-Sente-se, por favor- disse o Dr. Sakai em ingls perfeito. - Ou prefere uma cadeira ocidental?
- Estou acostumado com os hbitos japoneses - respondeu Allen.
Respondeu s suas mesuras, depois dobrou as longas pernas com destreza, embora desgraciosamente, e sentou-se sobre os tapetes do soalho. Onde estava Josui? Ficou 
 espera. Caso a tivessem mandado para longe iria  sua procura. Toda aquela formalidade se destinava, sem dvida, a fazer-lhe compreender que no era bem-vindo.
Para sua surpresa, o Dr. Sakai comeou a falar com desembarao e sem clera.
- Vivi muitos anos na Amrica, Sr. Kennedy, e sei que os americanos gostam da franqueza. Sejamos francos.
- Perfeitamente - murmurou Allen.
- Depois de conversar com minha filha - continuou o Dr. Sakai - convenci-me de que a ela cabe, em parte, a culpa desta situao infeliz.  muito embaraoso para 
a nossa famlia, pois est ou, melhor, estava noiva, oficialmente, do filho de um dos meus mais ntimos e prezados amigos. Tenho andado
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muito perturbado para poder renovar essa amizade. Agora, compelido pelo seu telegrama repentino, apenas tenho podido pensar no que fazer por minha filha. Quais so 
as suas intenes, Sr. Kennedy?
Formulou a pergunta em tom de altivez. Allen, respondeu-lhe com simplicidade e imediatamente.
- Quero casar com Josui antes de ir para os Estados Unidos, Dr. Sakai. O que quer dizer, hoje ou amanh.
- como  possvel isso? - perguntou o Dr. Sakai. -O senhor no poder obter a permisso necessria.
- Sei disso, senhor. Mas existem muitos meios, em diversos pases, de estabelecer um casamento legal. Lembro-me de que um amigo meu, na Formosa, queria casar-se 
com uma jovem japonesa. O casamento foi realizado de acordo com as leis japonesas e smente um ano depois conseguiu repetir a cerimnia legal na Frana. Mas, ainda 
assim, o casamento foi reconhecido por todos como vlido. Pensei em qualquer coisa semelhante, senhor.
A seriedade de Allen, a sua simplicidade, e sobretudo a cortesia e o ingls excelente que usava, confundiram um pouco o Dr. Sakai. Este tipo de americano ainda no 
o encontrara no Japo. Ali estava um homem muito diferente da turba de soldados que costumava ver nas ruas e da qual se esquivava, nunca dirigindo um cumprimento 
a quem quer que fosse.
- Ainda assim  irregular! - exclamou com dvida.
- Tudo, hoje em dia,  irregular - disse Allen. - Os costumes e normas entre os pases encontram-se em grande desordem.
Allen inclinou-se para a frente, persuasivo.
-Senhor, amo sua filha e desejo casar com ela. Pretendo lev-la a minha casa e apresent-la a meus pais. Quero que a vejam como ela . No tenho licena para a levar 
agora comigo e por isso me vejo forado a deix-la aqui at arranjar a sua ida. Embora no tenha ainda falado a ningum, resolvi no voltar ao Japo para viver. 
Tratarei de conseguir uma nomeao
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para Washington em vez de Tquio. Quero ser livre e viver a minha prpria vida com sua filha. Penso que no meu pas atingiremos melhor este propsito do que aqui. 
Espero que o senhor e a Sr Sakai nos iro visitar e que tambm ns possamos visit-los. Mas antes de partir, Josui tem que se tornar minha esposa, senhor. Ser 
mais fcil para ela ir reunir-se a mim se o casamento j tiver sido realizado.,
No se pode saber o que o Dr. Sakai teria respondido, porque, nesse instante, Josui afastou um biombo. Este caiu ao cho e ela, entrando impetuosamente no aposento, 
postou-se diante dos pais.
- Pai, me, farei o que Allen disse!
Ficou ali parada, radiosa num quimono branco, os braos abertos, parecendo um belo pssaro, uma criatura alada, de cabea erguida, faces rubras, olhos escuros e 
brilhantes. Allen nunca vira tanta beleza. Levantou-se e ficou a olh-la, enlevado.
Josui, ento, voltou-se para ele com as mos estendidas. Allen aproximou-se e prendeu-as. Permaneceu assim smente um segundo, um luminoso segundo de hesitao, 
e depois, vendo a expresso dos olhos dela, envolveu-a nos braos. Atrs deles, o pai e a me continuaram sentados, imveis. A Sr Sakai desviou o olhar mas o mdico 
manteve-o fixo neles.
Nos braos do seu amado, Josui virou-se para os pais.
- Pai, me, estamos prontos!
Os pais levantaram-se e o Dr. Sakai falou:
-Sr. Kennedy, isto estava previsto. Somos budistas e eu tomei as providncias necessrias no templo budista.  tudo irregular, o senhor compreende. No h precedentes, 
mas o Hosshu compreende a situao especial destes dias de ocupao. Realizar a cerimnia de acordo com o ritual japons. Quanto  cerimnia no seu pas, devemos 
confiar na sua honra.
Baixou a cabea e, sem esperar pela resposta de Allen, dirigiu-se para a porta. A Sr Sakai seguiu-o, passando pelo rapaz sem fit-lo.
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Josui acompanhou os pais com o olhar. Depois voltou-se para Allen e ele viu brilharem lgrimas nos seus olhos.
- No deve ficar magoado com meus pais - disse ela, suplicante. -  to difcil para eles. No pode imaginar! Eles no tm outro filho.. Meu marido deveria ser um 
filho para eles.
- E no posso ser eu esse filho?  - perguntou Allen.
Josui sacudiu a cabea.
- No esto em condies de receb-lo... ainda no - disse simplesmente.
Encostou por um momento a cabea no peito de Allen e ouviu-lhe o bater do corao contra a sua testa. Oh, poderia confiar nesse corao!
-Talvez eles aprendam - disse Allen.
Agarrou-lhe a cabea com ambas as mos e apertou-a ao peito.
Quem poder conhecer os primeiros momentos da alma de uma criana que ainda no nasceu? Agita-se com o vento suave entre as flores da glicnia que destilam a sua 
fragrncia. Fulgura no cintilar dos primeiros vaga-lumes da Primavera sob os pinheiros e ao primeiro beijo no jardim. Adquire forma nas lgrimas e sofrimentos dos 
coraes apartados; aproxima-se com o beijo final e aguarda a sano dos deuses.
No grande templo, sob o espesso colmo secular, estava reunida a pequena comitiva nupcial. Yumi e o jardineiro eram as testemunhas. Estavam em p atrs dos amos, 
aturdidos e sem entender. O Hosshu olhava o casal, tendo,  direita e  esquerda, dois sacerdotes de categoria inferior. No trazia a conscincia tranquila, pois 
no aprovava aquele casamento. Mas o Dr. Sakai insistira com ele, chamando-lhe a ateno para os tempos mudados.
-Ser necessrio que a nossa religio se adapte, se quiser sobreviver - dissera obstinado.
A fisionomia do Hosshu tinha deixado transparecer dvida. Era um homem velho, erudito e eremito. Nunca aprovara
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os imitadores do cristianismo que inventavam hinos budistas parodiando os dos cristos. Desagradava-lhe, tambm, a Associao Budista de jovens. No eram esses os 
meios de servir aos deuses.
- No pode imaginar quanto eu sofro-observara o Dr. Sakai, sombriamente. -S me resta uma alternativa: ou perco minha filha ou encontro algum meio de realizar esse 
casamento.
- O senhor concedeu-lhe demasiada liberdade -sugerira o Hosshu.
- Todos os meus erros do passado no modificam o presente - fora a resposta sensata do Dr. Sakai.
Uma ddiva considervel para o templo, a promessa de lealdade do prprio Dr. Sakai e tambm a crescente impacincia do mdico tinham, finalmente, convencido o ministro 
de que, pelo menos naquele caso, devia modificar a sua opinio. Consentira, portanto, em realizar a cerimnia que o aguardava agora. Cheio de dignidade, entrou para 
o vestbulo do templo e, batendo um grande gongo, esperou que o som morresse no tecto alto. A seguir dirigiu-se ao altar e fez um sinal para que os noivos, pais 
e testemunhas se aproximassem. Ali esperou, parecendo ainda mais alto nas suas vestes sacerdotais. O americano no usava um traje negro como devia, mas o Dr. Sakai 
dissera que, em virtude da ocupao, muitas coisas estranhas tinham de ser aceites. A mulher, ao menos, trajava um quimono branco.
Fitou longamente o jovem americano  sua frente e depois afastou os olhos.. No olhou para a jovem. Iniciou a cerimnia com a exortao, que entoou em japons com 
a sua voz clara e alta.
- Estamos aqui reunidos sob o olhar do nosso Compassivo Buda para conduzir este casal a uma perfeitssima unio matrimonial. O casamento  a fonte mais sagrada de 
toda a vida, a que as sucessivas geraes da humanidade devem a sua existncia e de onde todos os sucessivos cdigos de moralidade
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derivam a sua origem. Nada acontece sem causa. Saibam, portanto, que a unio sagrada de duas pessoas, a qual dever durar a vida inteira, no sucede por acaso. E, 
na realidade, a consequncia preestabelecida de muitas vidas passadas e o fruto da benevolente orientao de Buda.
Deixou pender sbitamente a cabea e a sua voz desceu ao murmrio de uma prece:
- Que este novo casal que entra no sagrado estado do matrimnio guarde este abenoado momento nos seus coraes, permanecendo eternamente fiel aos juramentos, preservando 
o amor e o respeito mtuo, auxiliando-se na dor e no sofrimento, mantendo-se puro de corpo e mente e encorajando-se um ao outro na observncia de todas as virtudes. 
So essas as condies essenciais para uma vida matrimonial feliz e o verdadeiro modo de viver conforme os ensinamentos do Buda.
Levantou novamente a cabea e fitou em cheio os dois jovens, fixando o olhar em Allen.
- Portanto - disse com voz autoritria - antes de proferirem estes juramentos, lembrem-se que  dever do marido manter e amar a esposa, ser-lhe fiel no pensamento 
e nas aces, confort-la na doena e na dor e auxili-la na educao dos filhos.
E, dirigindo-se a Josui:
-  dever da esposa amar e ajudar o marido, ser paciente,
amvel e fiel em todas as circunstncias.
Depois, falando a um de cada vez, prosseguiu:
- Declara solenemente que no conhece impedimento
algum que os proba de se unirem legalmente pelo matrimnio? Josui olhou para Allen e disse-lhe em voz baixa o signifi
cado daquelas palavras.
- No conheo nenhum impedimento -respondeu Allen em ingls.
- Declaro solenemente que no conheo impedimento
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algum - disse Josui, com firmeza, em japons. No haviam j sido vencidos todos os impedimentos?
O Hosshu voltou-se novamente para Allen.
- Allen Kennedy, aceita esta mulher, Josui Sakai, como sua legtima esposa?
Josui olhou de novo para ele.
-Sim -respondeu Allen em ingls. Ao pronunciar essa palavra, a sua voz tremeu, apesar do esforo que fez para mant-la firme.
- Josui Sakai - disse o Hosshu  jovem-aceita este homem, Allen Kennedy, como seu legtimo esposo?
-Sim -respondeu Josui em japons.
Allen, que j fora instrudo antes de entrar no templo, tirou do dedo mnimo o anel de sinete e entregou-o ao Hosshu, que o colocou no dedo de Josui.
- Desde que concordaram em casar de conformidade com o ritual budista - disse gravemente - declaro-os marido e mulher. Que estejam sempre cercados de infinito amor 
e compaixo.
Ficou parado um instante e depois, voltando-se, conduziu-os at ao altar onde Allen, orientado por gestos, colocou bastezinhos de incenso nas cinzas da urna, diante 
dos deuses que se inclinavam sobre eles, e Josui encostou a torcida de papel acesa ao incenso de aroma adocicado.
E o Hosshu, em p, abaixo do grande Buda dourado, que se destacava dos demais deuses de menos categoria, falou assim:
- O abenoado Buda disse: "Sustenta pai e me, ama esposa e filhos e segue uma profisso pacfica.  esta a maior das bnos".
Estas palavras foram dirigidas a Allen. Terminada ento a Cerimnia, voltou-se e ficou de frente para os deuses; quatro sacerdotes postaram-se s suas costas, formando 
uma barreira que o ocultava aos olhos dos demais.
O Hosshu agora falou ao Buda a ss, em voz to baixa que
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no se podiam ouvir as suas palavras. Era uma explicao, um pedido de perdo, uma prece implorando a bno se fosse possvel; se no fosse, pedia ento o regresso 
da jovem s e salva  sua terra e ao seu povo.
O Buda, de um dourado to intenso que o fazia parecer de ouro macio, permaneceu imvel como sempre, as mos postas num gesto de bno eterna e universal, o olhar 
fixo e impassvel.
Estranha irrealidade, pensou Allen, que no baixara a cabea. Olhou para os vultos paramentados e curvados do Hosshu e dos sacerdotes, e para a imagem acima deles. 
A presena slida do Buda no o fazia parecer mais real que a deidade invisvel numa igreja crist, mas tambm no o fazia parecer menos real. Pois o ar do templo 
tinha algo de sagrado, no pela presena dos deuses mas pelas preces e lamentos daqueles que l iam implorar, pedir, e procurar aquilo que no podia ser encontrado. 
A atmosfera da humanidade estava encerrada ali, procurando alcanar o alm inatingvel, suplicando a resposta que nunca  dada. Ali estava ele tambm, com Josui, 
e lentamente, afinal, baixou a cabea. Renunciara havia muito tempo  orao e  crena. Mas quando estava em casa, ia  igreja com seus pais, cantava hinos que 
aprendera na infncia e inclinava a cabea. Neste dia a orao brotou espontneamente dentro dele, impelida por uma necessidade pessoal. Estremeceu ao sentir a sua 
premncia, e naquela prece muda, aquele ser que seria dado ao mundo, aproximou-se mais da vida e do nascimento.
No quarto em que Josui passara a meninice, Allen estava deitado agora ao lado dela como seu esposo. Os pais tinham-se retirado. Tinham voltado aps a cerimnia no 
templo e, numa breve alocuo de boas-vindas, o Dr. Sakai dissera a Allen que ele era agora aceite na casa. Ningum mais lhe recusaria a entrada; podia entrar e 
sair conforme lhe agradasse.
Antes que Allen pudesse agradecer, retirara-se. A Sr Sakai
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no aparecera. Yumi servira o jantar aos noivos no quarto de Josui e depois da refeio, ainda em silncio e sem um sorriso, estendera sobre o tapete os acolchoados 
de seda que lhes serviriam de cama. Feito isso, inclinou-se profundamente diante de cada um, empurrou as paredes de rtulas, fechando-as, e apagou as luzes dos corredores. 
Estavam finalmente a ss e ningum mais se interpunha entre eles.
No pensavam na criana, naquela noite. Os amantes no pensam. S sentem o seu amor, que nasce to vasto, to vago, impregnando o mundo inteiro, e tudo quanto vem 
 amor e tudo o que sentem  amor. E ento aquilo que  difuso e sem forma concretiza-se, mas  a prpria forma deles que toma o contorno de um homem e uma mulher, 
os seus prprios contornos que se estreitam e ganham em fora e ritmo, no frmito do sangue e na exigncia exclusiva do corpo. O ser que aguardava no espao foi 
chamado  vida, mas eles no sabiam. A me era jovem e virgem, e nem toda a virgem pode conceber to fcilmente como as mes dos deuses concebem. A primeira visitao 
nem sempre  suficiente. Ou talvez a causa seja o pai. Nem todos os homens so deuses. Aqueles dois jovens no sonhavam com a alma da criana, uma nebulosa que a 
cada instante se aproximava mais de um ponto fixo, de uma forma definida.
Os pais no tinham conscincia do ser que esperava, daquele ente que viria ao mundo. S tinham conscincia um do outro, das suas mos trmulas, dos corpos que palpitavam 
at consumar a revelao do amor.
Aparentemente, continuavam szinhos na casa. Era espaosa e, sem dvida, em algum lugar, nos aposentos separados por biombos, viviam,  parte, os mais velhos. Mas 
a qualquer parte que se dirigissem, Allen no via ningum, com excepo da criada silenciosa.
-  maravilhoso isso da parte dos teus pais - disse a Josui no dia seguinte - mas no quero que pensem que  necessrio. Tu e eu poderamos ir para uma hospedaria.
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- Oh, no! - exclamou ela. - Para um lugar estranho? No. Como no temos casa prpria, meus pais assim o desejaram. Mais tarde lhes demonstraremos a nossa gratido 
de alguma forma.
Nenhum deles falava em filhos. Naturalmente era melhor que no houvesse filhos. Dentro de poucas horas ele partiria e ela ficaria szinha.
- No por muito tempo, meu amor- disse-lhe Allen. - Talvez s por algumas semanas.
Mas as semanas parecem anos, quando h apenas poucas horas, um dia ou dois para o amor. Ela chorou durante a segunda noite, a ltima noite, e o amor seguia-se ao 
carinho. Estava cheia de estranhos pressentimentos; de que no o veria mais, de que ele desapareceria no alto mar, de que o avio se despedaaria de encontro a uma 
montanha, ou de que algum da sua famlia os separaria. Aquela seria toda a sua vida em comum e no haveria mais continuao, estava convencida disso.
Allen tomou-a nos braos e Josui encolheu-se contra ele, pequena, chorando sobre o seu peito nu. No havia meio de faz-la acreditar nas suas promessas. Ela consumia-se 
de medo. A separao do inevitvel amanh talvez jamais tivesse fim, insistia. Iam ser separados para nunca mais se unirem. Ela sabia.
- Mas como podes saber, Josui? - perguntou ele finalmente, contrariado. - Por que razo justamente eu, entre tantas centenas de milhares de pessoas que atravessam 
o oceano em avies, estaria destinado a afogar-me ou espatifar-me contra uma montanha? E como podes suspeitar da minha famlia, se nem sequer a conheces, ou ento 
suspeitar de mim, se j me conheces bem?
Por fim, teve de ser at um pouco cruel.
- Josui, pensas que foi fcil para mim? Se no te amasse, estaria agora aqui?
S havia uma resposta a essas perguntas e temores. Renovaram
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o seu amor uma e muitas vezes, carne contra carne, corao contra corao, enquanto o futuro ser esperava.
No dia seguinte deu-se a temida separao. Ele no deixou que Josui o acompanhasse at ao comboio, nem ela se animava a ir. O pai e a me apareceram por alguns instantes. 
Inclinaram-se, os homens trocaram um aperto de mo e depois os pais afastaram-se, deixando os dois szinhos. Allen teria jurado que a sua carne sangrava quando se 
afastou de Josui. Sentiu a dor de uma ferida em carne viva ao desprender as suas mos das dela.
- Escreverei todos os dias - prometeu.
- E eu tambm - murmurou ela, com o rosto desfigurado e banhado em lgrimas.
- Contaremos tudo um ao outro - prometeu ele. - Pensa em mim, querida. Trabalharei dia e noite para levar-te  Amrica. Agora um sorriso, querida.... s para este 
ltimo instante! Pensa na noite que passou. Ah, isso, minha querida!
Afastou-se depressa, voltou a cabea para v-la apoiada  porta, quase a desmaiar; sbitamente, voltou e abraou-a fortemente, mais uma vez.
- No devo olhar para trs -murmurou com a voz entrecortada.
Esforou-se para no voltar a cabea e chegou apenas a tempo de apanhar o comboio, que j saa da estao.
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SEGUNDA PARTE

A Sr Kennedy j estava preparada para a vinda do filho. A esposa do coronel, a quem no conhecia, escrevera-lhe relatando tudo.
- Deixa-me escrever  me dele- dissera ao coronel. Se fores tu a faz-lo, pensar que tive com ele um caso amoroso e por isso ests a querer livrar-te do rapaz.
Assim, escrevera  Sr. Kennedy como uma mulher de idade suficiente para ser a me de Allen, e que fazia nicamente o que gostaria que lhe fizessem, caso se tratasse 
de um filho seu. Era um jovem oficial de qualidades extraordinrias, declarara, o brao direito de seu marido e um rapaz que devia ser salvo a todo custo. Era difcil 
dispens-lo naquele momento, quando, em consequncia de novas ordens do comando superior, muitos planos de aco estavam a ser experimentados. Mas seu marido estava 
disposto a fazer sacrifcios.
"Seu filho encontra-se to acima do nvel mdio, que os mtodos habituais no dariam resultado - escrevera. - Seria intil falar numa ligao passageira, em fins-de-semana 
ou coisa parecida. Seu filho foi educado nas tradies do Sul.  um gentleman e olha at uma japonesa com sentimentos cavalheirescos. Decerto julga tratar-se de 
uma rapariga de alta classe, que no admite outra soluo a no ser o casamento. Mas eu duvido que lhe tenha proposto uma situao diferente, e 
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claro que os japoneses esto todos vidos para entrar nos Estados Unidos. Pensam que  o cu na terra e, em comparao com o seu prprio pas, acredito mesmo que 
o seja."
A Sr Kennedy, que era uma mulher de temperamento reservado, respondera  carta com a gratido devida, mas com inteira confiana no bom-gosto e capacidade de julgamento 
do seu filho. Tratava-se de uma carta discreta e cautelosa. A esposa do coronel, que no conhecia reservas, e talvez nem fosse uma senhora no sentido estrito da 
palavra, leu-a em Tquio, surpresa, e atirou-a com impacincia por cima da mesa para que o coronel a lesse.
- Olha para isto - disse, autoritria. - Ela quer ou no quer uma nora japonesa?
O coronel leu a carta com ateno.
- Diabos me levem se consigo saber.  melhor no te meteres nessa histria. De qualquer forma, Kennedy falou em no voltar mais. Vou substitu-lo.
A Sr Kennedy mostrou a carta da esposa do coronel ao marido e depois, em segredo, a Cynthia, porque O Sr. Kennedy lhe dissera que no a exibisse perante ningum.
- Esta cidade  tagarela que nem uma comadre - declarou. - Pelo amor de Deus, Doura, guardemos os assuntos da nossa famlia dentro destas quatro paredes. Alm do 
mais, ainda no conhecemos a verso do rapaz.
Cynthia falou pouco. Leu a carta cuidadosamente e entregou-a  Sr Kennedy..
-As esposas dos coronis no so tidas por um tanto...
Fez uma pausa.
-Um tanto qu? - perguntou a Sr Kennedy.
- Faladeiras - disse Cynthia por fim, esforando-se por encontrar a palavra adequada, mas sem consegui-lo inteiramente.
-Talvez - concordou a Sr Kennedy. - Por outro lado, Allen  homem. Foi uma criana adorvel. Eu costumava pensar
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que ele sempre havia de ser diferente dos outros. Mas isso no aconteceu. E exactamente como o pai. E esteve afastado tanto tempo do convvio normal da sociedade. 
Gostaria que me ajudasse, Cynthia.
Cynthia abriu muito os seus olhos azuis.
- Certamente, Sr. Kennedy. Faria qualquer coisa por Allen.
A Sr Kennedy beijou-a, pondo-se nas pontas dos ps para alcanar a jovem. Depois que Cynthia saiu, deu uma volta pela vasta e linda residncia para certificar-se 
de que tudo estava na mais perfeita ordem. Teria mandado decorar novamente os aposentos de Allen, se houvesse tempo. Mas no era possvel. S lhe restava cuidar 
que os lenis de linho fossem mudados, os cobertores arejados e vasos com pequenos crisntemos claros fossem colocados sobre a lareira e em cima da escrivaninha. 
No ltimo momento ainda colheu uma rosa amarela que ps dentro de um pequeno vaso de prata, sobre a cmoda. Queria criar ambiente, o ambiente familiar, de tradio 
doce e envolvente, enquanto o seu amor tudo esperava do nico filho e herdeiro. Sabia, desde h muito, que contrari-lo, opor-se a ele, seria pr tudo a perder. 
No devia suscitar-lhe a clera. No tornou a falar na japonesa, nem mesmo ao marido. Trataria de esquec-la. Como se no existisse.
Quando, finalmente, Allen chegou, ela estava parada no vestbulo, trajando o seu vestido de tarde de chiffon cinza prata, e estendeu-lhe os braos.. O rapaz correu 
para ela, envolveu-a nos longos braos juvenis e encostou o rosto ao seu. Como precisava curvar-se, aquele seu filho to alto!
-Acho que cresceste! - exclamou A Sr Kennedy, rindo e afastando-o ligeiramente.
- E a me est perfumada como sempr disse ele. Nunca ficavam srios um com o outro, graas a Deus. Ela troava de tudo e o seu toque era leve como o das asas de 
um beija-flor.
- Oh, o teu rosto! - exclamou esfregando a face. - No fizeste a barba desde que saste do Japo.
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De facto, a sua pele delicada estava vermelha no lugar em que o filho encostara o rosto.
- D-me cinco minutos - disse ele e precipitou-se pela escada acima.
Seu pai descia ao seu encontro e os dois estreitaram-se num forte abrao. O Sr. Kennedy nunca deixara que o filho abandonasse, ao crescer, essa expresso de afecto.
- A me mandou-me fazer a barba- disse Allen. - Isso faz com que me sinta em casa novamente.
- Ento no te reterei - observou o pai, com brandura.
Eram sempre assim. Quando regressava a casa, por mais tempo que tivesse ficado ausente, seus pais continuavam os mesmos. Era como se nunca tivesse partido. Allen 
entrou impetuosamente nos seus aposentos e ficou a olhar com carinho a sua sala de estar, o amplo dormitrio com a vista maravilhosa para o Oeste e, mais alm, o 
seu confortvel quarto de banho. Ele e Josui poderiam ter o seu prprio lar dentro do lar da famlia. Talvez seu pai tivesse agido inteligentemente ao decidir viver 
ali sem labutas e aborrecimentos. Allen nunca o vira feliz. Num mundo conturbado, aquele era o lugar que mais se aproximava do paraso, e no havia razes para que 
ele e Josui no pudessem viver nele.
"Querida- escreveu-lhe naquela noite. - Estou sentado
na minha saleta de estar, a sala que irs compartilhar comigo. Deixa-me descrev-la para que te sintas em tua casa quando te trouxer ao colo para ela. J conhecers 
essa superstio?"
E passou a descrever os quartos e a casa, a aparncia de seus pais, os morros e vales que, da janela perto da sua mesa, podiam ser vislumbrados tambm ao luar. Havia 
crisntemos sobre a escrivaninha, no grandes como os do Japo, mas pequenos, alegres, de ptalas mais fechadas. Contou-lhe que jantara szinho com os pais e Cynthia 
- Cynthia Levering, sua amiga de infncia, quase uma irm, somente no usava o nome da famlia. Agora, ela tambm era filha nica, pois os irmos tinham morrido 
na guerra, um no Pacfico e outro na Alemanha.
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"Ser boa amiga tua - escreveu. - E, acima de tudo, uma ptima pessoa e s dois ou trs anos mais velha do que tu".
Allen sentira surpresa ao ver como Cynthia se tornara bonita. A beleza viera-lhe tarde. Lembrava-se dela, desajeitada e plida, os louros cabelos lisos, a expresso 
tmida e humilde, com a humildade de uma rapariga que se v alta de mais em relao aos seus amiguinhos. A timidez desaparecera e a humildade tinha-se transformado 
em doce modstia. O cabelo sedoso era curto e anelado, a ctis perfeita, a boca de linhas suaves e os lbios no excessivamente vermelhos. Esguia e graciosa, aprendera 
a conformar-se tom a sua altura e mantinha a cabea sempre erguida.
Era agradvel, tambm, notar que estava contente em rev-lo, contente e sem receio de demonstr-lo. Teve vontade de falar-lhe logo a respeito de Josui, mas ainda 
no contara a seus pais e no lhe pareceu justo dizer-lho em primeiro lugar. Alm disso, Cynthia no se empenhou em v-lo a ss e ele teria chamado a ateno se 
procurasse uma oportunidade para falarem em particular.
Terminou a longa carta e ficou sentado um instante com os olhos fechados, relembrando e imaginando Josui. Oh, fizera bem em casar com ela antes de partir! Agora 
pertencia-lhe, viria reunir-se a ele e ningum os poderia separar. Recordou-a, movendo-se furtivamente naquela casa grande, metida nos seus pequenos quimonos japoneses 
se quisesse, a querida, pois ficavam-lhe to bem que a faziam parecer uma verdadeira pintura. No desejava que fosse inteiramente americana. Queria conserv-la como 
era, um tesouro oriental, algum que compartilhasse a parte da sua vida que no podia dividir com mais ningum naquela casa.
Dirigiu-se  longa porta envidraada que abria para o balco e ali ficou, olhando a noite enluarada. Havia anos inteiros da sua vida a respeito dos quais no podia 
falar, os anos de guerra, quando, muito jovem, fora separado cruelmente da
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existncia normal; cenas que se haviam gravado na sua mente, experincias que o tinham moldado to profundamente que jamais se livraria delas. Tinha a impresso 
de sentir ainda os miasmas das selvas hmidas, o horrvel pulular de serpentes e insectos, o constante perigo de morte, no s proveniente do inimigo, como tambm 
de doenas, e a putrefaco naquelas paragens que os raios do sol nunca atingiam. Mas a pior das recordaes ainda era a da lmina vencendo a leve resistncia da 
epiderme humana e afundando-se na carne macia e palpitante abaixo dela. Mesmo ali, onde a morte nunca chegara, no conseguia esquecer.
Voltou-se bruscamente e foi para o quarto de banho. Abriu as torneiras de gua fria e quente ao mesmo tempo e deixou a gua cachoar na vasta banheira. Purificar-se-ia 
de tudo aquilo e depois iria dormir.
- Como o achaste? - perguntou A Sr Kennedy ao marido.
- Parece muito bem, e muito feliz -replicou ele.
Iam preparar-se para a noite, ela no seu amplo quarto de dormir e ele no seu. Vestindo um casaquinho de rendas por cima da camisa de dormir, estava parada na porta 
aberta pela qual comunicavam os dormitrios. Ele amarrava o cinto do pijama.
- No direi uma palavra - declarou A Sr Kennedy. Ele que pense que no sei de nada.
- Acho isso muito prudente- observou O Sr. Kennedy.
Nunca acreditei em discutir as coisas.
Foi at  porta e beijou-a gentilmente.
-  melhor ires deitar-te - aconselhou. - Tiveste um dia
agitado.
A esposa ficou parada, indecisa.
- Ele  um belo rapaz - disse, pensativa. - Quando era menino, no pensei que viesse a ser to bonito. Estou satisfeita por se parecer contigo.
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- Nada disso -retorquiu o marido. - No se parece comigo. Sai  minha me e aos Lamberts. Parece-se com meu pai.
Beijaram-se mais uma vez e foram deitar-se nas suas camas separadas. A porta de comunicao ficava aberta. A certa hora da noite, A Sr Kennedy costumava acordar 
e ir, na ponta dos ps, fechar a porta. Ele nunca sabia quando isso acontecia. Mas pela manh encontrava-a sempre fechada. Por que razo a Sr Kennedy procedia dessa 
maneira, jamais indagara. No acreditava em discutir as coisas e evitava-o sempre que lhe era possvel.
- Eles sabem- disse Cynthia.
Encontrara-se com Allen por acaso na manh seguinte, enquanto fazia compras para sua me, que costumava esquecer sempre os artigos mais essenciais para o uso dirio 
da casa. Desde o seu tempo de menina, Cynthia fazia essa caminhada at ao centro da cidade para completar as compras da me. No ficava muito longe. Andando quinze 
minutos por uma rua sombreada de rvores, depressa chegava  parte da cidade onde ficavam as lojas. Mesmo depois de ter o seu carro prprio, costumava fazer o trajecto 
a p. Isso proporcionava-lhe uma oportunidade de falar com as pessoas. E assim encontrara Allen e ambos seguiram juntos, conversando com todos que encontravam pelo 
caminho. Cynthia no chegava a ser to alta como Allen.
Ele falara-lhe a respeito de Josui. Sentira necessidade de desabafar. Era impossvel pensar nela constantemente, escrever-lhe todas as noites e no contar nada a 
ningum. Mais cedo ou mais tarde devia revelar tudo aos pais, mas isso tinha de ser feito com precauo, no momento oportuno. Estava convencido de que a me no 
receberia fcilmente sua esposa, fosse ela quem fosse. No havia razo para pensar que Josui seria menos bem-vinda que outra qualquer, mormente quando a me soubesse 
que j estavam casados; mas, por outro lado,
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tambm no havia motivo para imaginar que isso a faria mais condescendente.
O que no admitia nem perante si prprio era que falava com Cynthia a respeito de Josui em benefcio dela mesma. Desprezava os homens que imaginavam estarem as mulheres 
apaixonadas por eles e, assim, o subconsciente dizia-lhe que teria sido fcil voltar para Cynthia, se no tivesse conhecido Josui. A maneira agradvel e a genuna 
doura com que o tratava podiam significar tudo, ou coisa alguma. Ele nunca se esforara por descobrir a profundeza dos seus sentimentos. Era possvel que procedesse 
com todos da mesma maneira.
Allen estacou.
- Eles sabem? -repetiu, incrdulo.
- A esposa do coronel escreveu a tua me- disse Cynthia na sua voz calma e macia, arrastando um pouco as palavras  maneira das pessoas do Sul. Esforara-se por 
perder esse modo de falar, que no entanto lhe era inato.
- Mas o prprio coronel no sabe! - exclamou o rapaz.
- No fiques a parado, Allen - disse Cynthia. - As pessoas comeam a reparar.
Ele ento moveu-se apressado, e ela foi obrigada a fazer um esforo para alcan-lo. Riu-se.
- Tambm no precisamos correr. Que  que o coronel no sabe?
Allen diminuiu os passos.
- Casei-me com Josui. Ningum sabe disto a no seres tu. Queria dizer-to porque preciso da tua ajuda. Fui directamente a Kyoto e casei com ela para que ningum mais 
nos separasse. Sei por que razo fui licenciado: para que esquecesse Josui. O coronel e a esposa imaginaram que, se voltasse para casa e tornasse a ver tudo isto 
aqui - o seu olhar abrangeu a rua arborizada, as lojas, as grandes casas brancas recuadas dos passeios - esqueceria.. Ento aquela mulher dos diabos escreveu a minha 
me!
Franziu as sobrancelhas. Cynthia olhou-o de soslaio, com
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um rancor que chegava a envergonh-la. Que direito tinha ele de ir para um pas estrangeiro e arranjar uma esposa estrangeira? E as mulheres como ela, que envelheciam 
em todas as pequenas cidades e aldeias da Amrica? As estrangeiras que casassem com homens da sua terra. Allen pertencia-lhe. Se no o tivessem mandado embora  
fora - que era o recrutamento seno isso? - agora estariam casados, com certeza, e ela viveria na casa dos Kennedy, o lugar que era quase o seu desde que nascera. 
Se ele no fosse to atraente, se a sua cabea no se elevasse acima da dela -jamais casaria com um homem mais baixo, e quase todos eram de menor estatura que a 
sua - talvez no tivesse tomado a deciso que tomou to repentina e instintivamente como se no fosse uma mulher civilizada que vivia num pas civilizado. Resolveu 
aliar-se  me de Allen e no a ele. Faria o que estivesse ao seu alcance para impedir que a japonesa viesse.
Allen continuava a falar, rpidamente e em voz baixa:
- Vou mand-la vir assim que puder. Por sorte  cidad americana. Nasceu aqui. Na verdade, Cynthia, s aos quinze anos  que foi para o Japo. At estudou aqui. 
O seu ingls  perfeito... ou quase perfeito. Quando no presta muita ateno, chama-me Allen Kennedy.
- Pensei que fosse um tanto difcil casar com uma japonesa- disse Cynthia.. Sob o seu chapu de feltro claro, sorria constantemente, observando a rua, acenando de 
vez em quando a algum conhecido.
A todo o momento eram interrompidos no caminho por pessoas que ambos conheciam, e agora, antes que Allen conseguisse responder  pergunta de Cynthia, foram forados 
a parar novamente.
- Allen Kennedy, no ?
Um grupo de lindas jovens, a caminho de uma reunio matinal no clube de bridge, circundou-os.
- Certamente no a veremos no clube esta manh, Cynthia!
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- E no podemos critic-la por isso!
As suas vozes juvenis e claras ressoavam no ar frio outonal; trajes novos de Outono, casaquinhos claros, saias esvoaantes, chapus pequenos de cores alegres, cabelos 
lustrosos, olhos brilhantes e curiosos e pequenas mos irrequietas cercaram Allen e Cynthia com um entusiasmo que era inocente e ao mesmo tempo cheio de astcia 
feminina. Olhos jovens e femininos observavam Allen, lbios vermelhos se entreabriam. Em cada um daqueles rostos maquilhados havia o olhar penetrante da fmea que 
espreita a caa szinha, pronto para, a qualquer momento, desertar das companheiras quando surge o macho desejado. Era cada mulher por si, mas Cynthia era a afortunada, 
em cuja companhia ele andava. Um impulso vingativo se apoderou do corao de Cynthia, habitualmente generoso. Sorriu a todas e disse com a sua bela voz:
-Allen acaba de me dar uma notcia maravilhosa. Casou-se com uma linda jovem japonesa, pouco antes de voltar para c.
Dava pena ver a sbita mudana nas fisionomias e a luta para dissimul-la, o instantneo esforo de contrle, a artificial expresso de alegria e as falsas congratulaes.
"Oh, Allen, que maravilha!"
"Fale-nos dela."
"Tem um retrato?"
O rapaz lanou um olhar indignado a Cynthia.
- Bem, eu no tencionava anunci-lo desta maneira - conseguiu dizer.
Tinha uma pequena fotografia que Josui lhe dera antes da partida, um instantneo que a mostrava em roupas escolares. No era um bom retrato. A sua expresso era 
de seriedade, o vestido no lhe assentava bem, o cabelo estava liso. Mas as jovens pegaram no retrato, passaram-no de uma para outra e, ao verem aquele jovem rosto 
austero, exclamaram aliviadas e cheias de triunfante piedade:
- Ela  um amor, Allen!
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Entregaram a fotografia a Cynthia com meneios e sor
risos, e afastaram-se, enquanto a jovem continuava a caminhar,
estudando as feies de Josui. Os olhos_ eram estranhos. - No est nada parecida- observou Allen. - Ela  muito
bonita e fica linda nos seus trajes japoneses.
- Mas no vai poder usar roupas japonesas aqui, no ?
-sugeriu Cynthia. - Chamaria muito a ateno. No achas? -Suponho que sim- disse Allen. Tirou a fotografia das
suas mos e tornou a guard-la na carteira.
Continuaram a caminhar por alguns minutos.
- No me contaste como se casaram-lembrou Cynthia. - Casmos num templo budista. O budismo  a religio
da famlia.
- Que interessante! Diz-me,  como a cerimnia da nossa Igreja Episcopal?
- No... quer dizer, sim. Suponho que as coisas essenciais so as mesmas em todas as religies. Havia um ministro e sacerdotes, e os deuses.
- Deuses?
-Sim, imagens, como as dos catlicos. Naturalmente no
adoram as esttuas, elas s servem para melhor concentrao
do pensamento em algum grande santo ou em Deus.
- E tu prometeste amar... e tudo o mais?
- Fiz todas as promessas - disse ele com firmeza. Porque", pensou, "fazia tantas perguntas? Seria realmente
sua amiga?"
- Que ideia foi essa de contar a todas aquelas moas? - perguntou. - Vo espalhar a notcia por toda a cidade.
- Foi por isso mesmo que contei -respondeu ela com mais calma que habitualmente. - Quanto mais cedo todos souberem, tanto melhor. At logo, Allen, preciso ficar 
aqui.  uma loja de chapus e creio que no queres entrar.
Ento ela no era sua amiga!
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Josui tinha recebido a sua primeira carta. Continuava a frequentar a Universidade e ningum sabia de coisa alguma. O pai declarara que s permitiria a participao 
do casamento depois de chegarem os papis da Amrica, A carta veio enquanto ela estava ausente de casa. A Sr Sakai recebeu-a, viu de quem era e deu-a ao marido. 
O Dr. Sakai guardou a carta na gaveta de cima da sua escrivaninha. Durante dois dias no a entregou a Josui. Enquanto ia e vinha do hospital, e se ocupava com os 
seus doentes, pensava na carta e no lhe tocava. Ultimamente visitava O Sr. Matsui todos os dias, pois o seu velho amigo sofria de inflamao da vescula biliar 
e piorara por ter abusado de caranguejos no Outono. O Sr. Matsui era um homem bastante moderado, mas todos os anos, naquela poca, no resistia  tentao de comer 
alguns caranguejos, acompanhados de vinho. Tratava-se de um prato que apreciava sobremaneira. Algumas vezes os caranguejos faziam-lhe mal, outras no; dependia do 
que os crustceos tivessem comido antes. Nesse Outono, tinham sido perniciosos. O Sr. Matsui adoecera seriamente; por vrios dias o Dr. Sakai estivera apreensivo 
e Kobori mantivera-se sempre a seu lado. Por fim o doente melhorou e, embora o filho ficasse em casa trabalhava no seu gabinete e j no permanecia constantemente 
 cabeceira do pai.
O Sr. Matsui estava deveras grato por ter escapado  morte e, envergonhado pela sua falta de comedimento, afirmou ao Dr. Sakai que esse ano lhe servira de lio 
e que no tornaria a comer caranguejos. Sentia-se to bem que pediu ao amigo que viesse fazer-lhe uma visitinha para uma palestra amigvel aps o seu trabalho no 
hospital. O Dr. Sakai atendeu-o com prazer. Sentia-se cansado, mas achava que jamais poderia reparar o comportamento de sua filha diante da famlia Matsui, nem demonstrar 
suficiente gratido pela sua magnanimidade. Quando tentara expressar esse sentimento, O Sr. Matsui limitara-se a sorrir e dizer, com um aceno de mo:
- Essas coisas no so importantes.
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Nunca deixava transparecer o menor sinal de aborrecimento ou vingana no seu modo de proceder. Talvez o assunto no fosse realmente importante. Mesmo assim, o Dr. 
Sakai era orgulhoso de mais para esquecer o incidente.
Naquele dia,  tardinha, sentado junto ao leito do amigo, sentiu vontade de fazer-lhe confidncias. A casa estava silenciosa e as portas fechadas; devido ao frio 
outonal, um braseiro de bronze, de trs ps, no meio do soalho, difundia um calor suave. Uma leve corrente de ar passava pelo aposento, proveniente de uma janela, 
entreaberta para purificar o ar do fumo.
O Sr. Matsui estava deitado na sua esteira, a cabea e os ombros cobertos com um casaco curto de seda cinzenta, cruzado no peito e amarrado sob os braos. Parecia 
quase completamente restabelecido. O tom amarelo da sua tez desaparecera e a fisionomia, que estivera torturada pela dor, recobrara a expresso de paz.
- Devo-lhe a minha vida - disse.
-S cumpri com a minha obrigao - afirmou o Dr. Sakai. - Fez mais do que isso - insistiu O Sr. Matsui. - Agora
todas as dvidas esto saldadas.
O Dr. Sakai compreendeu e sentiu-se comovido. Curvou-se para a frente e falou em voz baixa:
- Necessito do seu conselho. Chegou uma carta para minha filha. Est dentro da minha escrivaninha. Cometeria um erro, se no lha entregasse?  para sua prpria felicidade 
que ainda espero v-la separada do americano..  no seu interesse, o senhor compreende? Estou certo de que ser infeliz na Amrica, assim como eu o fui.
O Sr. Matsui ps-se a reflectir, nicamente como amigo. De forma alguma aceitaria mais aquela jovem na sua famlia, pois, pelo que ouvira dizer, o casamento consumara-se, 
e para seu filho s serviria uma virgem.
- Sou de opinio que deve dar-lhe a carta - disse. - Afinal de contas, ela  sua filha. Concordo plenamente com o
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senhor; mas no seio da famlia, as relaes correctas devem ser mantidas.
O Dr. Sakai inclinou-se levemente.
Em seguida O Sr. Matsui mudou de assunto. - Penso ampliar o vestbulo da casa de ch.
Mais tarde, quando Josui foi dar boa-noite aos pais, o
Dr. Sakai abriu a gaveta da escrivaninha.
- Chegou esta carta para ti, durante a tua ausncia
disse.
No disse em que dia a carta chegara e Josui tambm no indagou. Inclinou-se profundamente diante do pai e da me e dirigiu-se para o seu quarto. Oh, uma carta! 
No pde abri-la logo. Encostou-a ao rosto, ao peito, e depois aos lbios. A seguir passou a examin-la com ateno. O seu nome estava escrito bem nitidamente: Sr 
Allen Kennedy e, em baixo, Josui Sakai, na dvida; depois o nome da rua, Kyoto, Japo, e os selos de cor viva. Tinha chegado por via area e a que preo! Mas ele 
queria que a recebesse logo e portanto devia l-la cuidadosamente, mas no antes de se ter lavado. Colocou a carta sobre a pequena cmoda enquanto se preparava. 
S depois de vestir a macia roupa de dormir de seda azul e branca, de ter escovado e entranado o cabelo, pegou na tesoura, cortou o envelope com cuidado, sem tocar 
nos selos, e retirou de dentro as folhas de papel.
Leu palavra por palavra, cuidadosamente, considerando cada uma delas indispensvel e preciosa. Durante a leitura tentou ver exactamente o que ele via, com o auxilio 
das suas recordaes de Los Angeles. Mas na Virgnia tudo era melhor do que as coisas que recordava, e foi-lhe preciso forar a imaginao para ver os morros ondulados, 
os jardins e a manso que era o seu lar. Demorou-se mais ternamente na descrio dos seus aposentos nos quais, um dia, iria viver com ele. Allen contava-lhe tudo, 
falava na grande cama coberta com uma colcha de cetim castanho-dourado, os mesmos tons dourados nas cortinas e nos tapetes, e desenhos em vermelho intenso
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e amarelo-plido; mesmo assim era um quarto simples, dizia ele. Mas como podia ser simples? Na sala de estar havia uma lareira. Ele tinha dois aposentos s para 
si - e para ela - e eram to grandes, quase como o jardim da casa ali em Kyoto. Imaginava a janela grande, os livros na estante perto da lareira e as poltronas macias, 
cada uma de tamanho suficiente para dar lugar a ambos, escrevia Allen. Leu e releu a descrio dos quartos, pois seriam o seu lar e devia familiarizar-se com eles 
para que, ao ocup-los, se sentisse em sua casa. Seus pais estavam bem. Ainda no lhes contara.. Ela, porm, no devia ter medo, pois estavam mais do que nunca amveis 
com ele. Iriam receb-la com satisfao, primeiro por causa dele, depois por ela prpria. Devia trazer muitos dos seus lindos quimonos, no para us-los na rua, 
naturalmente, mas dentro de casa.
Finalmente, Josui apagou a luz, aconchegou-se sob os cobertores e, com a carta apertada de encontro ao peito, chorou mansamente durante longo tempo, porque estava 
to longe dele, to szinha e to feliz.
Allen precisava contar aos pais - agora, imediatamente! Quando pensava em seus pais, era sempre a me que tinha em vista. Aquele homem complacente que era seu pai 
escutaria fcilmente a voz da razo. Ficou indeciso ao separar-se de Cynthia. O problema era se deveria contar primeiro ao pai e pedir-lhe ajuda, ou procurar logo 
a me e falar-lhe abruptamente, sem rodeios, partindo do pressuposto de que o que fizera seria aprovado. Ponderou as relaes existentes entre o homem e a mulher 
que eram seus pais. Por intuio sabia em que consistiam. Durante toda a sua vida, quando se tratava de coisas menos importantes, ponderara a mesma questo. Quando 
menino, um pouco por covardia, ou porque sempre desejara ardentemente aquilo que queria, a ponto de considerar insuportvel uma recusa, s vezes dirigia-se ao pai 
e ento ambos, juntos, iam falar com a me. Mais tarde, j adolescente, tambm s por meio da intuio e da experincia, percebera
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que o pai no representava um auxlio para ele. Pelo contrrio, sua me assumia uma atitude hostil quando o pedido era feito por intermdio dele. Era aconselhvel 
falar directamente com ela, tal como quando frequentava a Universidade em Charlottesville e desejara intensamente um carro conversvel. Fora o pai que hesitara, 
e as suas dvidas fizeram com que a me tomasse uma atitude firme. "Acho que Allen deve ter o carro", declarara. "Precisa de independncia".
Suspirou profundamente. Bem, era o que precisava agora. Iria directamente a ela, imediatamente, pois dentro de pouco tempo os telefones comeariam a retinir e. a 
me o receberia com frieza por ele no lhe ter contado. Subiu correndo a escada de mrmore branco, chegou  ampla varanda de colunas e entrou em casa, gritando:
-Me, onde est?
Ela gostava de o ouvir cham-la.
- Estou aqui! -respondeu uma voz distante. - Aqui, no jardim de inverno.
A casa tinha um jardim de inverno de formato octogonal, antigo, que seu av mandara construir atrs da ala esquerda. Comunicava, por meio de uma porta, com a actual 
sala de jantar, que naquele tempo fazia parte do salo de bailes. Este fora dividido mais tarde; construra-se ali uma biblioteca e aproveitara-se o espao excedente 
para aumentar as salas do andar trreo. Seu pai considerava o salo de bailes antiquado e por demais ostentoso.
A me cavava a terra dum grande vaso de samambaias. A pzinha de cobre reluzia nas suas mos enluvadas. O sol da manh brilhava sobre as samambaias e os crisntemos.
- Que crisntemos! - exclamou ele. - So quase to grandes como os do Japo.
Ela no demonstrou interesse algum pelo Japo.
- Eu estava a pensar que devamos organizar uma reunio danante - disse. - Todos querem ver-te. O telefone no pra de tocar.
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Allen aproveitou a ocasio.
-  melhor que lhe fale num assunto antes que o telefone se encarregue disso. Cynthia disse-me que a me j sabe. Mas suponho que no saiba tudo. Ela contou-me que 
a esposa do coronel se sentiu na obrigao de lhe escrever.
Sua me continuou a cavar cuidadosamente entre as razes musgosas.
- Referes-te quela japonesa?
- Sim.
- Oh, no levei o caso a srio - disse ela, no seu tom de voz mais despreocupado. - Compreendo o que deve ter acontecido. Estavas longe, e decerto l no havia americanas 
atraentes. Mas agora ests aqui e...
- Espere, me.
Ela levantou os olhos e viu-lhe o rosto plido, a boca seca e contrada..
- Ora, o que h Allen?
- Est completamente enganada a respeito de Josu.  esse
o seu nome. Ela  minha esposa.
- Allen Kennedy.
Era assim que o repreendia desde a sua mais tenra infncia, de cada vez que ele no se portava bem: quando lhe tinha mordido o seio, quando atirava os brinquedos 
ao cho, quando enlameara o seu primeiro fatinho ou faltara  aula, quando lhe tirara uma nota de dlar da bolsa ou fumara o seu primeiro cigarro, quando voltara 
embriagado de um baile.
- Estamos casados, me - disse. - Quero traz-la para c
o mais depressa possvel.
Ela largou a pzinha e tirou as luvas.
- Vamos para a biblioteca - disse. - Temos que discutir
o assunto.
- No h muito que discutir, me. J est feito. - Mas seguiu-a e sentaram-se um de cada lado da lareira, onde no havia fogo.
- Conta-me tudo- insistiu ela. Estava sentada, as mos
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   entrelaadas; a voz perfeitamente calama e um leve sorriso nos lbios, mas os olhos... notou a perturbao nos seus olhos. 
   Contou-lhe tudo, furioso consigo mesmo e com ela, por sentir-se, j homem, perseguido por fantasmas de velhas culpas, pecados infantis pelos quais, naquela mesma 
sala, tantas vezes ela o repreendera. Tinha sempre de pedir desculpas, dizer que estava arrependido e nunca mais faria aquilo, e que a amava muito. O processo era 
imutvel: primeiro a sua clera, a sua aflio, depois o perdo, a necessidade de ouvi-lo dizer que da por diante seria um bom rapaz porque a amava.
    No seguiria o mesmo caminho desta vez, prometeu a si mesmo. Contar-lhe-ia tudo, simplesmente. Se no o quisesse mais em casa, que o dissesse. O mundo era grande 
e ele viajara muito.
    Ela porm, no se comportou como de costume. Depois de ter contado tudo, com excepo das horas profundamente sagradas das duas noites que passara com Josui, 
Allen foi obrigado a reconhecer que sua me estava a ser muito generosa. Ouvira sem se zangar, embora ele pudesse ver que ficara extremamente abalada. O facto de 
ela lutar consigo mesma de maneira to evidente amolecia-o contra sua vontade. Teria preferido que a me se zangasse, pois assim se sentiria fortalecido pela sua 
prpria clera.
      Vai gostar de Josui - disse, odiando a entonao quase suplicante da sua voz. -Ela no  como as outras japonesas, me. Fala correctamente ingls e conhece 
a nossa maneira de viver.
- Disseste que ela  inteiramente japonesa? - perguntou
a Sr  Kennedy.
    - Sim, mas nasceu na Califrnia. No lhe tinha dito ainda?
J lhe falara nisso, mas desejava repeti-lo.
-Ento ela tem o tipo japons? -disse a me.
-Eles no so escuros, me. Quero dizer, no so nada
parecidos com as pessoas de cor daqui.
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- Mas certamente no so brancos - exclamou ela, com dureza. A isso no tinha que responder. Houve um momento de silncio entre ambos. Depois ela prosseguiu, com 
a mesma aspereza na voz: - Parece to estranho que tivssemos lutado contra os japoneses. Eram nossos inimigos ainda no h muito tempo, e agora pedes-me para receber 
aqui uma japonesa.
- Me, sei o que sente. Eu sentia a mesma coisa, confesso. Antes de conhecer bem Josui, costumava pensar nisso e perguntava a mim prprio por que razo no a colocava 
ao mesmo nvel... dos outros. A resposta  que no a coloco ao nvel de pessoa alguma que tenha conhecido at agora, Josui  simplesmente ela mesma, a mulher que 
eu amo, e de quem fiz minha esposa. Acontece apenas que os seus antepassados vieram de umas ilhas do Oriente em vez do Ocidente. Poderia ter nascido na Inglaterra, 
por exemplo.
-Os nossos antepassados vieram da Inglaterra.
- Um grupo de ilhas, apenas - repetiu ele. - Depois lembrou-se de qualquer coisa e teve um sorriso contrafeito. - O pai dela pensava exactamente como a me. No 
me queria para genro por eu ser branco.
Isso no a interessou. No podia imaginar como era o Dr. Sakai. Allen continuou a olhar fixamente para o tapete vermelho a seus ps.
- A Sr Sakai foi muito correcta - prosseguiu. -  uma
verdadeira japonesa... uma dessas noivas de anncio... A me ergueu sbitamente a cabea. - Noivas de anncio?
O rapaz desejou no ter pronunciado a expresso.
- Oh, isso foi h muito tempo. As nossas leis de imigrao proibiam a entrada de asiticos e os homens que aqui viviam eram forados a escolher as esposas no Japo 
por meio de fotografias e casar por procurao ou coisa parecida.
- No pode ter sido de muito boa famlia, mesmo no Japo - respondeu ela, friamente. Ainda assim, no demonstrava interesse algum.
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Ele inclinou-se para a frente, apoiou os cotovelos nos joelhos e tentou sorrir, procurando no rosto da me um sinal de simpatia.
- Ento me?
Novamente os seus olhos se encontraram. -Se j est feito, como disseste... - Est, sim -repetiu ele com firmeza. -S nos resta...
- O qu, me?
Sua me no quis prosseguir.
- No, nada. Uma ideia absurda que me ocorreu. - Mas, minha me...
Ela, ento exclamou com arrebatamento:
- No, Allen, deixa-me ficar um pouco szinha. Terei
que contar a teu pai. Ser um golpe para ele. Tnhamos pensado que casarias com algum daqui... Cynthia, talvez... e
sonhvamos ver os nossos netos correndo pela casa. $ uma
casa to grande! Nunca tive tantos filhos como desejava. No
foi possvel, bem sabes.
-Talvez tenhamos filhos, me.
Sua inteno era confort-la, mas viu logo que cometera
um erro deplorvel. Agora sim, ela j no conseguiu con
trolar-se.
-Oh, no Allen! - gritou pondo-se de p.
- Me! - exclamou ele, alarmado. De um salto estava a seu lado para ampar-la. Ela caiu-lhe nos braos, chorando. No havia nada que pudesse fazer para conter-lhe 
os terrveis soluos. Nunca a tinha visto chorar; no costumava recorrer s lgrimas e ele sabia que aquelas no eram derramadas em defesa prpria. Segurou-lhe a 
mo, murmurando continuamente:
-Minha me... no faa isso. Vai ver.
Mas a me desprendeu-se e saiu da sala, correndo.
O Sr. Kennedy, que voltava de um tranquilo passeio pela
cidade, percebeu logo a alterao na atmosfera da casa. A caminhada
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matinal era um hbito adquirido depois da morte de seu pai, que o deixara herdeiro nico de considervel fortuna acumulada no comrcio de algodo em Nashville, Tennessee, 
e com a criao de cavalos no Kentucky. Todas as manhs, depois da sua primeira refeio, O Sr. Kennedy visitava alguns amigos, nunca os mesmos em dias consecutivos, 
e falando pouco e ouvindo muito, tornou-se um dos homens mais bem informados das redondezas. Vrias vezes por ano, empreendia viagens a diferentes lugares do pas 
para descobrir o que o povo dizia e pensava. Os seus conhecimentos gerais t-lo-iam habilitado a concorrer a um lugar no Congresso, e at no Senado, mas no tinha 
o desejo de fazer uso do seu cabedal de informaes ou de transmiti-las. Se tivesse sido criado noutro meio, teria sido professor de Filosofia, ou, se possusse 
talento verbal, poderia ter-se tornado poeta. Dadas as circunstncias, era apenas um homem benigno com um acervo de sabedoria que raramente vinha  luz, mas da qual 
no seu ntimo usufrua imensa satisfao.
Tinha uma natureza to sensvel que lhe bastou cruzar os umbrais da casa naquela bela manh, por volta do meio-dia, para notar que algo de anormal acontecera. Dirigiu-se 
de mansinho ao armrio de cabides, pendurou o sobretudo cinzento e o chapu e colocou a bengala dentro do grande vaso chins de porcelana azul que se encontrava 
a um canto do vestbulo. Logo depois sentiu os passos do filho no andar de cima e a seguir ouviu-o descer a escada.
- Ainda bem que chegou- disse Allen, surgindo da ltima curva da larga escadaria. - No sabia onde procur-lo. Acho que perturbei horrivelmente a me. Ela fechou-se 
no quarto.
A porta fechada era um sinal. Olharam-se.
- No sei como dizer-lhe - disse Allen.
- Creio que posso adivinhar - replicou O Sr. Kennedy.
Conduziu-o para a sala de estar, onde se sentou.
- Eu previa que isto iria acontecer mais cedo ou mais
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tarde - prosseguiu. - Sabamos, j h algum tempo, que tu tinhas um interesse pessoal no Japo. O coronel...
Allen interrompeu-o, com impacincia febril.
- Pai, o que transtornou a me foi o facto de eu ter casado com Josui.
Sentou-se no brao de uma grande poltrona de veludo, contrariando inconscientemente uma das primeiras normas que lhe haviam sido inculcadas na infncia.
O rosto grande e plido, de bochechas cadas, do Sr. Kennedy tornou-se levemente rosado. A sua pele era macia, e a barba ruiva estava sempre cuidadosamente escanhoada 
com excepo de um pequeno cavanhaque abaixo do lbio Inferior saliente. As plpebras dos seus olhos cinzentos-claros eram cor de cera e estavam quase sempre semicerradas. 
S quando se sentia perturbado costumava levant-las. F-lo agora.
- Filho, devias ter-nos dito- disse em tom de censura.
- No esperava casar imediatamente - retrucou Allen. - Porm, de repente, pareceu-me a coisa mais acertada a fazer. E continuo a pensar assim. Ela  de boa famlia. 
Alm do mais, no sou do tipo dos que agem de maneira diferente. Pelo menos, penso que no. Talvez seja simplesmente porque presenciei muitos casos desses e fiquei 
repugnado.
O Sr. Kennedy nada respondeu. As relaes entre ele e o filho eram estreitas mas inteiramente formais, sem lugar para sentimentalismo.
- Que espcie de rapariga  ela- perguntou. As suas mos grandes e brancas, colocadas sobre os braos da cadeira, pareciam singularmente impotentes como se nunca 
tivessem sido muito utilizadas, e de facto no o haviam sido.
- A me gostaria de Josui, se pelo menos se permitisse encarar essa possibilidade- disse Allen, argumentando. - A verdade  que sou feliz, pai. Apaixonmo-nos  
primeira vista. Poderia ser simplesmente uma rapariga bonita. Mas  muito mais do que isso.
- H quanto tempo a conheces?
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- No muito, mas o suficiente para saber que tem mais qualidades ainda por descobrir.
Levantou-se e comeou a andar pela sala, continuando a falar sem olhar para o pai.
- No lhe posso dizer porqu e como aconteceu. Trabalhei muito este ano, e especialmente depois das alteraes no comando. Um dia, alguns dos meus colegas resolveram 
visitar Kyoto e Nara e, como eu no tinha tirado nenhum dia de licena durante meses, resolvi ir com eles. Casualmente vi Josui no porto dum colgio. Creio que 
os nossos olhares se encontraram no momento psicolgico. Sabe Deus! Eu poderia ter passado adiante sem pensar mais nela. Mas no aconteceu. Voltei de tarde e foi 
assim que nos conhecemos. No  s ser bonita, pai, garanto-lhe. Ela tem qualquer coisa fora do comum, e talvez fosse isso que me chamou a ateno. No se parece 
com nenhuma mulher que eu tenha conhecido. Ou talvez seja porque  uma oriental; como posso saber? Andei trs anos l e pode ser que isso se tenha infiltrado no 
meu sangue. Muitos homens dizem que assim acontece, e que depois disso nunca mais se pode casar com uma americana.
O Sr. Kennedy, sentado ali, com a boca descorada e grande ligeiramente aberta, parecia desorientado, mas no o estava. Ouvia e reflectia. Sabia perfeitamente o que 
a sua Josephine, a sua pequena imperatriz, podia pensar daquilo tudo. E compreendia de que falava seu filho. Os homens do Sul por acaso no sabiam h muito tempo? 
Suas esposas deixavam-nos ir at certo ponto, mas nunca alm. As mars do oceano no eram mais bem reguladas que a preponderncia das mulheres brancas no Sul.
- A tua me nunca h- De gostar disso - observou com voz inexpressiva. - Uma ligao de outra espcie ter-lhe-ia sido indiferente. Suponho que as nossas mulheres 
esto acostumadas a isso. Mas receber aqui uma rapariga, e que no  branca, v bem, como nora...  coisa sria, e no sei se poder conformar-se.  melhor eu ir 
l para cima.
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Ergueu-se pesadamente, apoiando-se nas mos grandes, e atravessou a sala com passos lentos at  escada. Subiu devagar, assentando firmemente os ps em cada degrau. 
Ao chegar  porta do quarto de dormir da esposa, sacudiu de leve a maaneta.
- Abre a porta, Doura! - pediu.
Esperou e, alguns instantes depois, ouviu-a atravessar o quarto. A porta abriu-se e ele tomou-a nos braos com um gesto de paciente intimidade. Ela encostou a cabea 
no seu ombro e o marido ficou a acariciar-lhe os cabelos.
- Ele contou-te? - inquiriu, com o rosto contra o seu casaco.
- Sim, Doura.
- Que faremos?
- Eu acho que o melhor  no fazer nada. Deixa que as
coisas sigam o seu curso.
- Mas ele vai traz-la para c! - Teremos que deix-la vir. - No permitirei!
- Bem, se no queres permitir, ento j  outra coisa.
Acho que, nesse caso, ele sair daqui e iro morar noutro
lugar.
Ela afastou-o de si. O marido suspirou e ficou  espera, enquanto a esposa andava de um lado para outro, comprimindo as tmporas com um leno embebido em gua-de-colnia.
- Estou com uma terrvel dor de cabea.
-  o que eu temia.
Sentou-se com cuidado numa poltrona baixa forrada a tafet cor-de-rosa. Era pequena de mais para ele e no se sentia confortvelmente instalado, mas sabia que no 
existia no aposento outra onde pudesse sentar-se.
Esperou, enquanto ela humedecia as fontes, sentindo que a amava, que apesar da sua impertinncia, da sua vontade de domnio, do seu constante imprio, era uma boa 
mulher, uma
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boa esposa, e que nela se personificava a fora da nao. Se todos fossem como ele, no haveria ordem e nem talvez decncia. A casa seria uma balbrdia e as pessoas 
da cidade tirariam vantagem da sua fraqueza. Desejaria que ela pudesse am-lo com um pouco mais de paixo, mas nenhum homem pode ter uma boa esposa e uma amante 
ao mesmo tempo. Se tivesse sido mais activo, talvez tivesse cado nas tentaes em que caam os outros homens, mas isso acarretava muitos incmodos. Amava a paz 
e disfrutava-a em casa,  sua maneira.
- Doura - comeou delicadamente -tu s uma mulher superior e no devias afligir-te dessa maneira. Sei o que sentes. Tambm sinto qualquer coisa de parecido. Sempre 
desejei que Cynthia fosse a me dos nossos netos.. Mas o nosso rapaz quis uma coisa diferente e agora est feito. Nada podemos modificar. Devemos conformar-nos. 
Vejamos o que se pode fazer para que seja bem sucedido.
Ela torcia o leno, atando-o e desatando-o, com o rosto em fogo, ainda to belo sob os cabelos levemente grisalhos, cado sobre a nervosa actividade das mos.
- como pode ser bem sucedido? - perguntou. - O casamento representa mais do que a simples unio de duas pessoas, Tom.  a constituio de uma famlia. Eles no devem 
ter filhos. No devem!
O marido no respondeu. Sabia o que a esposa queria dizer. A imagem de pequenos mestios japoneses correndo pela casa era realmente enervante.
-Talvez no tenham filhos- observou sem convico.
- Bem sabes que ho-de ter-retrucou ela. - No leste as cifras de natalidade no Japo? Todas essas mulheres orientais procriam como coelhos. No!  preciso evitar 
isso!
Ele era de esprito muito delicado no trato com as mulheres para pedir uma explicao mais clara das palavras da esposa e, portanto, calou-se. Ficou ali sentado, 
com um aspecto lasso, o rosto da mesma cor acinzentada do cavanhaque, dos cabelos e das sobrancelhas.
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- Allen precisa ser chamado  realidade - disse ela. Deve ver por si mesmo que, simplesmente, no  possvel.
- Mas se j est casado! - lembrou o marido. - Pode divorciar-se.
O seu rosto iluminou-se com uma ideia, uma esperana
que surgia. Deixou cair o leno.
- Tom, talvez nem estejam realmente casados! - Ele afirma que sim, Doura..
- Mas talvez no estejam. O que  o budismo, afinal de
contas? No  uma religio verdadeira. E certamente um templo no  uma igreja; est cheia de dolos. Aqueles japoneses
com certeza o fizeram cair na armadilha.
O Sr. Kennedy sentiu pena da esposa.
- Isso no quer dizer nada para Allen. Prefere acreditar
que est casado com ela.
- No quer dizer nada, agora, mas espera. Quando se
convencer pura e simplesmente de que no d certo... Oh,
Tom, podes imaginar uma mulher de olhos oblquos a passear
na nossa casa ou mesmo na cidade? Quem ir convid-la para
uma festa? Ser o fim da nossa vida!
Ela era capaz de tudo, tanto para o bem como para o mal. - Doura, continuo a pensar que uma mulher com a tua
personalidade ajustaria as coisas perfeitamente no lugar. Faz o
melhor que puderes e todos te tero em mais alta estima
por isso.
Ela sacudiu a cabea, mordeu os lbios trmulos e levou as mos ao cabelo para ocultar o rosto.
- No posso, Tom. Vou fazer de conta que nada disso  verdade... e depois tratarei de fazer Allen ver as coisas como eu as vejo.
O Sr. Kennedy levantou-se.
- Bem, dei-te o meu conselho, bom ou mau. Vou dizer-te s uma coisa mais. Toma cuidado. Doura, conheces bem o teu filho!
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Retirou-se, sentindo que o que mais precisava naquele momento era uma boa dose de whisky.
Depois de preparar a bebida, sentou-se na varanda e comeou a beber lentamente, reflectindo sobre os problemas que envolvem as criaturas quando atribuem importncia 
pessoal  ambio, aos padres vigentes,  opinio pblica,  posio social e a todos os preconceitos comuns da humanidade. Se a pequena japonesa viesse para aquela 
casa, ele no alteraria os seus hbitos em coisa alguma. Ela nada poderia fazer que o aborrecesse. Se no era possvel ver felizes a esposa e o filho, ento ao menos 
ele o seria, pois a sua felicidade assentava no significado espiritual de uma boa alimentao, da regular funo do fgado, do leito mais confortvel que podia existir, 
e da possibilidade de dormir a noite inteira. Sabia que perdera algumas emoes estimulantes da vida, mas agora no fazia questo de se sentir estimulado.
De qualquer modo, estava aliviado por terem sido reveladas as ms notcias e porque sua esposa as enfrentara, embora ainda no soubesse com que consequncias. Conhecendo-lhe 
o temperamento, estava certo de que no tocaria mais no assunto. Iria articular os seus planos e p-los em execuo. Mais cedo ou mais tarde tomaria conhecimento 
deles, apesar de que, provvelmente, isto s aconteceria quando fosse tarde de mais para fazer alguma coisa. Era demasiado bem educado para permitir que se estabelecesse 
uma atmosfera de hostilidade na casa, e nessa noite, quando descesse para o jantar, a sua atitude seria a de sempre. Allen herdara muito de sua me
e tambm ele, provvelmente, se portaria como de costume. A simples passagem do tempo no apenas cura como traz novas revelaes e, quem sabe, um facto consumado 
no acabaria, com o tempo, por fazer parte integrante das suas vidas? Talvez se acostumassem at  presena de olhos oblquos.
Quando Allen saiu de casa, encontrou o pai dormitando,
O copo vazio no cho. Os passos acordaram O Sr. Kennedy que
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viu o filho de maleta na mo, sobretudo no brao e chapu na cabea..
- Vou passar uns dias fora - disse Allen ao pai. O Sr. Kennedy mal abriu os olhos sonolentos. - Onde?
- Em Washington.
- Que pretendes fazer naquela cidade infernal?
- Talvez procure um emprego. E quero saber o que 
necessrio para mandar vir Josui imediatamente. - Contaste a tua me?
- No. Diga-lhe adeus por mim, sim?  possvel que s me demore alguns dias. Se conseguir emprego, terei de voltar para levar as minhas coisas..
- Est bem, meu filho.
As suas plpebras fecharam-se novamente, mas Allen continuou parado.
- como est a me, agora?
-Melhor -respondeu o pai, sonolento. (O whisky dava-lhe sempre sono).
Ficou a ver o filho entrar no carro, guardado cuidadosamente para ele durante os anos de ausncia. Depois adormeceu profundamente.
A Sr Kennedy nunca acreditara no inevitvel e, no acreditando, nunca o aceitava. Entre as muitas amigas que possua, nenhuma era sua confidente, embora cada uma 
delas se julgasse suficientemente ntima para imaginar que conhecia todos os pensamentos e aces de Josephine. Nunca dizia ao marido seno o que desejava que ele 
soubesse e O Sr. Kennedy estava-lhe grato por isso. Conhecer todos os pensamentos e sentimentos daquela mulher voluntariosa s o teria horrorizado. Ela adivinhou 
que ele preferia saber o menos possvel e que a sua simpatia - at onde se permitisse tomar partido - talvez fosse para a jovem japonesa inocente que esperava ir 
viver naquela casa. Ocultaria essa simpatia como um capricho seu, j que
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nada podia fazer, mas Intimamente estaria ao lado de Allen. Os homens deixavam-se influenciar mais pela rebelio do que pelo amor. A Sr Kennedy pensava s vezes 
que a rebelio era o sentimento mais forte. Bem, ela tambm saberia rebelar-se.
A vida na casa continuou normalmente durante a ausncia de Allen e O Sr. Kennedy habituou-se a ouvir a esposa responder ao telefone com voz amvel: "Oh, minha querida, 
no levamos isso a srio. Voc sabe que ns, as mes, devemos estar preparadas para enfrentar incidentes dessa ordem na vida dos nossos filhos. No h nada a fazer, 
creia; so os percalos da guerra. No, ele no est realmente casado. Penso que foi uma espcie de cerimnia de noivado num templo budista e duvido muito que tenha 
algum valor aqui. Seja como for, j nem falamos no assunto."
Os dias, maravilhosos, seguiam-se uns aos outros. As roseiras, no jardim, comearam a florescer novamente e embora as rosas tardias exalassem um perfume mais intenso 
que as rosas da Primavera, no chegavam a alcanar o tamanho nem o vio destas. Allen enviava postais de vez em quando declarando sempre que voltaria em breve para 
levar as suas malas, mas no aparecia. Havia demoras que no conseguia compreender. Washington era um labirinto onde se' sentia perdido. At quele momento s obtivera 
uma promessa, que talvez nada significasse.
A Sr Kennedy lia os postais ao marido em voz alta, s refeies, com a fisionomia impassvel. Enviara cartas por avio  esposa do coronel em Tquio, agradecendo-lhe 
as advertncias e solicitando novo auxlio. - "Haveria possibilidades", perguntava, "de Allen ser enviado para a Europa? Essa seria a melhor soluo. Se pudesse 
ser mandado imediatamente, para no ter tempo de trazer a jovem, todos ns seramos poupados."
Por essa razo, Allen, em Washington, de departamento em departamento, encontrava uma estranha e desconcertante dificuldade. No voltar ao Japo era fcil. Conseguiu-o 
quase
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imediatamente. Recebeu ento a inesperada proposta de ir para a Europa, ocupando exactamente o mesmo posto que tivera no Japo. Reconheciam nele a capacidade pouco 
comum de elaborar anlises da situao poltica em pases estrangeiros, e algumas naes ao redor da Alemanha apresentavam aspectos que requeriam uma tal anlise.
O oficial corpulento e sagaz, mas bastante iletrado, que abordou o assunto, falou-lhe da seguinte maneira:
- O senhor escreve com clareza e isso  coisa que a maioria dos outros graduados das Universidades no so capazes de fazer. Quando leio os seus relatrios, fico 
logo a saber o que quer dizer.
- Obrigado! - disse Allen, decidindo que jamais iria para a Europa, pelo menos enquanto Josui no se reunisse a ele para irem juntos. A Europa era um mundo diferente, 
e ele j vivera em tantos...
Voltou para casa depois de chegar a um entendimento provisrio. Davam-lhe tempo para pensar, e, enquanto isso, continuaria em gozo de licena extra-oficial pelo 
tempo que necessitasse. Se no queria ir para a Europa... bem, no momento no havia outro lugar para ele em Washington. Allen ruminou a noticia com incredulidade 
e desconfiana. Parecia que algum trabalhava contra ele, mas no podia acreditar que fosse o seu velho coronel, pois este certamente estava ansioso por v-lo regressar 
ao Japo. No lhe ocorria nenhuma outra pessoa que tivesse influncia em Washington. De qualquer maneira, pensou, enquanto atravessava os frteis campos vermelhos 
da Virgnia, faria vir Josui imediatamente. Ao menos isso era-lhe possvel realizar, pois tomara as providncias necessrias durante a sua estada em Washington. 
Como Josui nascera na Amrica, no havia nenhuma barreira que pudesse impedir-lhe a entrada no pas. Trechos esquecidos da Sagrada Escritura, que ouvira a contragosto 
na igreja, quando menino, surgiram de novo na sua mente. Lembrou-se de S. Paulo, o proscrito, perante um oficial romano:
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"Comprei a minha liberdade por preo elevado", dissera o arrogante oficial romano.
"Eu, porm -retorquira Paulo, erguendo a cabea com orgulho - nasci livre."
Josui tambm nascera livre, tal como ele, Allen Kennedy. Perante a lei americana. Apegar-se-ia a este facto inaltervel.
Quando chegou a casa, certa noite, ainda cedo, seus pais jogavam xadrez na sala de estar. Ambos eram bons jogadores, mas sua me jogava um pouco melhor porque queria 
ganhar, enquanto seu pai no se esforava por isso.
- Vivam, campees! - exclamou ao entrar.
Ambos o olharam surpresos, contentes, mas sua me pareceu-lhe um tanto reservada. No permitiu, porm, que os seus sentimentos afectassem a cordialidade com que 
deu as boas-vindas ao filho. Levantou-se impulsivamente, beijou-o no rosto e com ambas as mos segurou-lhe o brao.
- Oh, como estou satisfeita por teres voltado! Espero que no tenhas conseguido um emprego, querido, ao menos por enquanto! A casa parece to vazia sem ti.
- De facto, no consegui. Ou antes, no quis o que me ofereceram. Propuseram-me ir para a Europa. Imagine! Por que razo iria eu para a Europa, onde no posso aproveitar 
coisa alguma do que aprendi na sia? Quem ganha? Aposto que  a mezinha.
- Senta-te e diz-me o que devo fazer - disse o pai. A rainha encurralou-me, como sempre.
- Oh, deixa-te disso! - exclamou a me. - Allen est
com fome. J comeste alguma coisa, meu filho? - Nem uma migalha.
Sbitamente Allen sentiu-se alegre. Aqueles no seriam rigorosos com ele. A me, naquele seu modo indirecto, estava a procurar dar-lhe a entender que no o seriam. 
Nunca pediria desculpas, disso no seria capaz, mas era esse o seu modo de proceder. Relaxou o corpo e, de repente, sentiu-se muito cansado. Tudo neste mundo era 
to complexo, to- intrincado,
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arrastando-se em cem direces ao mesmo tempo; mas ali, pelo menos, a existncia continuava como sempre fora. A pequena Josui poderia atravessar a soleira daquela 
porta aberta e a vida no sofreria qualquer alterao. Enquanto vivessem, cabia a seus pais manter a paz; uma vez desaparecidos, ele tomaria o seu lugar. Com fora 
de vontade e deciso, conservaria aquela casa como era e sempre fora, por todos os sculos dos sculos, amm.
Josui leu a carta como estava habituada a faz-lo, primeiro rpidamente, detendo-se em cada palavra de amor. Isso era importantssimo. A seguir releu-a com muito 
cuidado para compreender todas as instrues, descries e notcias. Depois disso, leu-a diversas vezes por dia, de modo a sentir-se mais perto dele, em comunicao 
com o seu corao. Atravs das cartas chegara a conhec-lo. Era estranho como a proximidade da carne constitua uma barreira para a compreenso mtua. Quando estava 
nos seus braos, ou mesmo ao v-lo aproximar-se dela, todo o pensamento cessava. Mas agora que o mar os separava, era por intermdio do esprito que podiam viver 
na presena um do outro. O pensamento flua livremente, a compreenso crescia.
Naquelas semanas de separao, aprendera a v-lo como era na realidade. No era to forte com o julgara a princpio. Tambm ele dependia at certo ponto dos pais. 
Esta descoberta surpreendeu-a, pois imaginara que os jovens na Amrica eram totalmente independentes das suas famlias e faziam o que entendiam, sem que ningum 
exigisse ou prestasse obedincia. Agora via que, apesar de ser assim, havia contudo exigncias familiares, e na casa dele era a me quem exigia, ao contrrio do 
pai, como ali. Pensou nisso durante muito tempo. No era ao pai de Allen, mas  me que devia agradar. Bem, isso no era difcil de entender pois at no Japo a 
sogra podia fazer a felicidade ou a tristeza de uma jovem esposa. Allen enviara-lhe pequenas fotografias da casa e de seus pais. Josui estudou
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longamente e por vrias vezes a fisionomia de ambos. Trouxe para casa a sua lente usada nas aulas de biologia e com ela examinou-lhes os traos e expresses fisionmicas. 
Pertencendo a uma raa antiga, herdara certa sabedoria humana e, com
longa e secreta meditao, chegou a formar um juzo surpreendentement acertado dos pais de Allen. Em determinada ocasio ficara apreensiva por causa de uma jovem 
de nome Cynthia. Cynthia soubera do seu casamento em primeiro lugar, mas ,josui esperava que se tornariam amigas. Ele no lhe enviara nenhum retrato dela e j no 
a mencionava.
As cartas falavam todas da sua ida para a Amrica e aquela, finalmente, dava-lhe instrues definidas para a partida e, acima de tudo, continha a passagem area. 
Era um tesouro. Examinou cada detalhe, lendo todas as palavras. Era to simples e, contudo, to valiosa; a sua permisso para entrar no paraso, As instrues eram 
bem claras. Nada seria difcil. Tinha o seu passaporte. Devia obter o visto e tomar o avio em Tquio. Ele estaria  sua espera em So Francisco com o carro, e fariam 
a lua-de-mel enquanto atravessavam o pas,
juntos, a 545.
Depois de ter lido a carta diversas vezes foi procurar a me. Ambas dariam a notcia ao pai quando,  noite, ele regressasse a casa. Encontrou-a junto ao pequeno 
lago, alimentando os peixes dourados de cauda em leque e agitando suavemente a gua com um pedao de bambu para faz-los subirem  tona. Estavam entorpecidos pelo 
frio, mas era ainda cedo de mais para se ocultarem no barro.
A silhueta frgil e curvada de sua me no jardim, de quimono azul prateado,  luz nevoenta do sol matinal, surgiu sbitamente como um quadro aos olhos de Josui. 
Iria sentir a falta daquela sua mezinha! A ansiedade de unir-se a Allen fizera com que mal pensasse nisso. Sua me era to silenciosa e to retrada, passava despercebida 
tantas vezes; agora, porm, pensando em ficar longe dela, sentiu uma relutncia que era quase dor. Ajoelhou-se a seu lado sobre a grama amarelada e
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por um momento no retirou a carta que guardara no seio.
    Os peixes comearam a surgir debaixo das pedras, movendo as caudas e barbatanas largas e finas, sem se Importarem com o alimento.
- Querem dormir -- observou Josui.
      Eles sabem que o Inverno est prximo - retorquiu a me.
Absorvida na sua tarefa, no olhou para Josui. Depois, como se soubesse que a filha a procurara com alguma finalidade, levantou os olhos de repente.
H alguma coisa?
      Sim -respondeu Josui, tirando a carta do peito. Ele quer que eu v. Mandou a passagem.
Retirou o bilhete do envelope e enttregou-o  me. A Sr Sakai virou-o de um lado para outro, incapaz de l-lo. Devolveu a carta, o envelope e a passagem  filha.
    -- Que dir meu pai? -- perguntou Josui. -- Nunca chegou a acreditar que Allen mandaria buscar-me.
    -Acreditar agora. A me ergueu-se e apertou bem a tampa do pequeno pote que continha o alimento dos peixes.
    Ficaram olhando a gua. Os peixinhos animaram-se de repente ao sentir o gosto da comida. J se haviam esquecido de que gostavam de alimento, Mas lembraram-se 
novamente. Ainda lhes restava tempo para comer antes de entrarem no sono.
    - Vai passar muito tempo at que eu torne a ver-te - disse a me. - Talvez nunca mais te veja. Teu pai no ir  Amrica. Ele disse-me..
- Virei v-la - prometeu Josui. Fechou a mo e introduziu-a
    na de sua me como costumava fazer quando pequenina. - Se tiveres um filho... - comeou a Sr Sakai e interrompeu-se.
A criana! Que iria ser? O seu nascimento era inevitvel. Mas queriam eles que nascesse? Todas as mulheres faziam essa pergunta a si mesmas. Quando h amor, no 
deve haver tambm um filho? A Sr Sakai sabia da existncia de um amor
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que nunca experimentara, mas cuja magia observara em Josui. Por intermdio da filha sentira o seu poder, uma fora transformadora que fizera de Josui uma mulher 
pronta a abandonar seus pais. Ela prpria jamais o sentira.. Quando, porm, os seus progenitores a enviaram  Amrica para casar-se com um homem a quem nunca tinha 
visto, obedecera cegamente. Era o seu destino. Josui fora mais afortunada que ela, ia ao encontro de um homem a quem j conhecia. No entanto, poderia uma japonesa 
chegar a conhecer realmente um americano? Era preciso esperar para ver. Afinal de contas, Sakai era japons e no se diferenava dos demais japoneses de cabelos 
negros, olhos negros e pele dourada, mas de que modo poderia Josui saber como seria o seu filho? Era possvel, at, que tivesse olhos claros como o pai. Que se havia 
de fazer ento? Essa possibilidade trouxe-lhe ao rosto uma expresso de alarme, que Josui percebeu.
- Que h, me?
- Ocorreu-me uma ideia - retorquiu a Sr Sakai, aturdida. - Josui, estive a pensar numa coisa! - Em qu, me?
- As mulheres americanas... nunca podem saber de que cor sero os olhos e os cabelos de seus filhos! No achas embaraoso?
-Me, isso ter importncia para mim? - perguntou
Josui.
-Acho que tem- disse a Sr Sakai com seriedade.Para mim teria sido horrvel se, quando te vi, tu no tivesses os olhos negros. Como posso sentir que a criana  
meu neto se os seus olhos no so pretos?
Oh, me!
Josui tentou rir, mas tambm ela se sentiu infeliz por um momento. Se seu filho tivesse olhos azuis, no estranharia? E, por outro lado, se se parecesse totalmente 
com ela, talvez Allen estranhasse. Isso seria, de facto, embaraoso, como dissera sua me.
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- Pode ser que eu no tenha filhos -= disse.
A me sacudiu a cabea.
- No podes dizer uma coisa dessas declarou em tom objectivo. - Quando  tempo de uma criana ser concebida, ela  concebida e nada a impedir de viver. O esprito 
aguarda no limiar a sua hora predeterminada. Quando  tempo de viver, ns vivemos, assim como morremos quando chega a nossa hora. O ciclo no pode ser apressado 
e to-pouco retardado. A vida de alguns  curta, e a de outros longa, mas  sempre o destino.
Explicava-se, assim, a pacincia da me, a sua docilidade, a sua resignao, a fonte da sua fora imensa e simples. Josui no soube o que responder-lhe e, sentindo 
a dignidade de sua me, curvou-se diante dela, retirando-se a seguir.
Pela primeira vez, depois deste momento em que vislumbrara o ntimo de sua me, sentiu a inevitabilidade do filho.
Quando o pai no fez qualquer objeco  sua viagem, Josui ficou surpreendida, ou sentiu que deveria ter ficado, mas tambm isso estava includo na sua convico 
de inevitabilidade. Ele conseguiu-lhe o visto do passaporte, acompanhando-a ao competente departamento em Tquio. Disse-lhe que tinha algum dinheiro depositado numa 
Caixa Econmica de So Francisco. Destinava-se a Kensan e, depois da morte dele, permanecera l. Faria agora a transferncia para o seu nome.
Tudo se resolvia com tanta facilidade que lhe parecia estarem os deuses a aplanar-lhe o caminho. A sua certido de nascimento, que provava ter nascido em Los Angeles; 
o seu passaporte includo no de seus pais, e que agora s precisava ser extrado separadamente com uma nova fotografia, tudo estava em ordem. A nica dificuldade, 
ela mesma a criara. Queria usar no passaporte o seu novo nome, Sr Allen Kennedy.
O pai ops-se.
- No, no o permitirei. Devers usar o meu nome e o
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teu, Josui Sakai. Talvez um dia necessites novamente deste
nome.
Ela zangou-se.
- Pai, como pode dizer uma coisa dessas? No quer acreditar em mim. No tem confiana em mim.
 na vida que eu no confio -respondeu ele.
Ela cedeu. A prpria vida deveria provar que tinha razo. Ele veria por si mesmo, quando tudo acontecesse como ela sabia que havia de acontecer. Os velhos eram descrentes. 
Depois de tudo arranjado, voltaram para casa e ela comoveu-se ao ver o esforo do pai em tornar-se amvel. No falou da sua partida, mas da janela do comboio chamou-lhe 
a ateno para certas coisas-um homem com um tumor no pescoo, Uma criana que sofria de uma doena dos olhos. Abriu a janela para chamar o homem, um simples carregador.
Voc a, com o tumor no pescoo. Isso pode ser operado. Porque no vai ao hospital de Tquio ou no me procura em Kyoto?
O homem era um sujeito ignorante e gritou:
A minha vida est neste caroo. Devo cortar a minha
vida?
O Dr. Sakai suspirou ao fechar a janela. A tarefa do mdico  rdua. Primeiro tem de dizer a um homem que pode ser curado, depois precisa for-lo a acreditar. O 
processo da cura  a ltima parte do trabalho e a mais fcil.
Por algum tempo comentou com Josui a teimosia da mente humana, principalmente a das pessoas ignorantes, entre as quais inclua a maior parte dos seres humanos e 
muito em particular, sentiu Josui, os jovens e as mulheres.
Nada, porm, era capaz de diminuir a sua felicidade. Agora que a data estava marcada e conhecida a hora exacta do embarque, o tempo escoava-se rpidamente. As manhs 
surgiam rpidas e as horas voavam nas asas da alegria. Sentia-se to feliz que chegava a ser cruel sem perceb-lo. No via as frutinhas vermelhas do jardim, que 
tanto prazer causavam
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todos os anos a seu pai. Por duas vezes se esqueceu de enfeitar o tokonoma, mas os pais no a repreenderam. Para eles, a filha j no lhes pertencia.
Percebeu aquela tristeza, mas sentia-se incapaz de compartilh-la. Estava transbordante de amor e alvoroo; o seu corao j atravessara o oceano, esperando, impaciente, 
na outra margem.
Quando chegou o momento da partida, quando se despediu da casa e do jardim, de Yumi e, por ltimo da me, quando saiu com o pai para o aeroporto, sabendo que smente 
poucas horas a separavam de Allen, ainda se sentia entorpecida de alegria. Era impossvel pensar nicamente em seus pais ou naquilo que ia deixar.
Poucos dias antes da partida recebera uma cartinha de Kobori Matsui. Era cordial e amvel. Desejava-lhe felicidades e dizia que pretendia remeter-lhe um pequeno 
presente de casamento para a Amrica. Caso os negcios corressem como ele e o pai esperavam, era at possvel que fosse aos Estados Unidos durante o prximo ano 
e, se ela estivesse de acordo, gostaria de visit-la e conhecer os seus novos parentes. Daria sempre grande valor  sua amizade e assegurava-lhe a dele, quer viesse 
a necessit-la, quer no. Josui leu a carta sabendo que fora ditada pela bondade de Kobori, mas at mesmo essa bondade se sentia incapaz de sentir. Como no desejava 
guardar a carta, nem deix-la, queimou-a na urna de incenso.
Por um momento, quando o avio levantou voo, teve uma rpida percepo do que fazia. Olhou pela pequena janela e viu seu pai, parado do lado de fora, alto e erecto, 
com o casaco folgado agitando-se ao vento. Tinha as mos juntas sobre a bengala, os ps, um pouco separados, firmemente plantados no solo, a cabea erguida na sua 
direco. No tinha a certeza se o pai podia v-la, mas naquele momento viu-o nitidamente. O dia estava lindo. Aps trs dias de chuva e tempestade, o Sol brilhava 
intensamente e a sua luz banhava o rosto enrugado e belo do Dr. Sakai. Josui percebeu nele uma nobre tristeza, um
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pesar digno, uma mgoa inexorvel, que a aparente tranquilidade dissimulava. Um sentimento de pungente compreenso trespassou-lhe o peito.
No podia durar muito. As asas grandes e brilhantes elevaram-na para o cu, e a terra foi-se tornando cada vez menor. Dentro de pouco tempo voava sobre o mar, e 
os seus pensamentos, os seus sonhos, voavam j muito  frente.
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TERCEIRA PARTE

No aeroporto de So Francisco, Allen viu-a descer e hesitar um instante, olhando de um para outro lado, _ sua procura. Apressadamente abriu caminho entre o pequeno 
grupo de pessoas, envergonhado de chegar  ltima hora por ter acordado tarde; justamente naquele dia.
- josui!
Ela avistou-o e um sorriso modificou-lhe o semblante. No primeiro momento, a expresso grave, de ansiedade, naquela fisionomia que ele pensava recordar to bem, 
fez-lhe sentir uma leve mas pungente decepo. No era to bonita quanto a recordava, ou seria devido ao traje cinzento que usava? Mas o sorriso, to encantador 
na sua reserva, f-la voltar a ser como antes. Aquele sorriso e a graciosa timidez com que ia ao seu encontro distinguiam-na entre' os demais. Tomou-a nos braos, 
a salvo no meio daquela gente estranha. Contudo, logo percebeu
olhares curiosos, de gente - que observava um jovem americano alto a abraar uma japonesa. Ningum disse uma palavra; todos continuaram o seu caminho, por demais 
ocupados para dispensar mais de um segundo ou dois  sua curiosidade. Allen conduziu Josui, enlaando-a, sem fazer caso da observao dos estranhos. Mas tambm - 
Ela notara os olhares de surpresa e desprendeu-se delicadamente, s permitindo que lhe segurasse a mo.
- Vamos directamente para o hotel, onde aluguei um
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apartamento - disse Allen. - Ficaremos nele alguns dias, querida. No h pressa. Quero ficar bastante tempo a ss contigo. Vamos demorar-nos muito por a antes de 
chegarmos a casa.
At l saberia como agir. Pretendia dizer a Josui qual era, exactamente, a situao em sua casa. Naturalmente, s podia revelar aquilo que ele prprio sabia e isso 
era quase nada, embora pressentisse muita coisa. Sua me decidira, simplesmente, ignorar tudo. Mas como ignorar Josui, quando estivesse parada diante da porta de 
sua casa? E ele estaria l, a seu lado.
Afastou esses pensamentos. Durante as semanas seguintes estariam a ss. Desejou que Cynthia no tivesse decidido passar a temporada em Nova Iorque.. Poderia ter 
sido um grande auxlio para eles. Bem, no necessitava de ajuda!
- Ests muito silenciosa, querida.
- H tanta coisa para ver.
Ele trouxera o carro e ambos tomaram lugar.
-  teu, Allenn?
-  nosso, querida. Tudo o que  meu te pertence tambm.
Ela sorriu e ele pegou-lhe na mo.
-  melhor guiares com cautela- disse josui, aps alguns
momentos de ansiedade. Allen riu.
- Estamos na Amrica, Josui. j no te lembravas?
Passou, porm, a dirigir com menos pressa, porque assim podia acariciar a pequenina mo que trazia o seu anel de sinete, de ouro, o anel que lhe colocara no dedo 
durante a cerimnia no templo. Nessa noite, quando estavam a ss na penumbra do belo aposento da casa, agora to distante de ambos, tirara-lhe o anel do dedo para, 
a seguir colocando-lo outra vez. Repetira ento as palavras sagradas: "Com este anel, torno-te minha esposa."
Ela no entendera bem, mas agora f-la-ia compreender.
Chegaram ao hotel, Josui ainda muito silenciosa, provvelmente um pouco aturdida, pensou Allen. Entregou a bagagem
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a um servente e depois tomaram o elevador at ao dcimo stimo andar, onde as janelas dos seus aposentos davam para o mar. Deu uma gorjeta ao rapaz e fechou a porta. 
Quando tirou o chapuzinho de Josui, que, em sua opinio, no lhe assentava bem, fez tambm deslizar o casaco dos ombros e tomou-a nos braos. Oh, a fragrncia da 
sua pele, a curva suave do pescoo, a presso dos pequenos seios contra o seu corpo! No pde esperar. E porque havia de esperar? Viu-lhe os olhos to escuros, to 
luminosos, a maciez dos seus lbios jovens. Ela compreendeu-lhe o anseio. Era a essncia de tudo o que  uma mulher, uma mulher do Oriente, que obedece ao instinto 
nas coisas do corao.
-Ainda me amas? - Deteve-se para fazer-lhe essa pergunta, para ouvir a resposta dos seus lbios.
- Amo-te - respondeu ela, no num murmrio, mas com voz agradvel e clara. - Vim de muito longe por amor a ti Allen.
Quando se iniciou a vida terrena daquele ser? Ignoravam em que momento luminoso do dia ou em que sombras da noite o seu esprito transpusera os umbrais da eternidade 
que antecede o nascimento, para entrar no mundo da vida. No sabiam se fora naquele primeiro aposento de biombos do outro lado do mar, ou l em cima no quarto com 
vistas para o Ocidente; se fora na cabana das montanhas onde passaram alguns dias, recusando-se a deixar os picos cobertos de neve, ou no pequeno hotel de uma cidadezinha 
da plancie imensa, ou em meio das colinas ondulantes do Centro-Oeste. Em qualquer parte no decorrer desses meses maravilhosos, em algum lugar naquela cadeia de 
dias e noites de amor, vivia j o ser que viria ao mundo, mas eles no sabiam ainda. No pensavam nele, s em si mesmos.
- Devemos comunicar a teus pais o dia exacto da nossa chegada - disse Josui.. Ambos tinham pensado nisso, secretamente, resistindo a admitir o facto de que um dia 
acabaria
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aquela viagem sublime, terminariam os dias maravilhosos e as noites de sonho. O cu era-lhes favorvel e o calor outonal propiciava a atmosfera mstica em que estavam 
vivendo. Sabiam que tudo havia de chegar ao fim; aquilo no era a vida, era smente o amor, e a fuso. de ambas as coisas teria que ocorrer. Josui, de natureza mais 
prtica, mencionou em primeiro lugar aquele ltimo dia. Sensvel a todas as mudanas de expresso dele, j percebera que Allen temia esse momento. Pressentia que 
alguma coisa assomava diante deles, no sabia o qu, mas preparou-se o melhor que podia para enfrent-la. Se fosse muito prudente, muito respeitosa e prestvel, 
pensando em primeiro lugar nos pais de Allen, talvez pudessem ser felizes juntos. Compreendia que estava nela a chave da situao.  noite, quando Allen dormia, 
Josui ficava a pensar no conhecimento cada vez maior que ia tendo daquele homem e, embora o amasse sempre mais, entregando-se de todo a ele, comeava a compreender 
vagamente que uma mulher no pode dar mais do que o homem deseja. A capacidade de receber deve igualar a de dar. Desej-la-ia ele inteiramente? Josui no tinha a 
certeza.
- Se no pararmos alguns dias por a - disse ele - no poderemos deixar de estar em casa depois de amanh.
- No queres ir para casa? - indagou ela.
-Oh, sim, naturalmente. Temos que nos fixar. Preciso pensar em arranjar trabalho. Talvez deixe definitivamente o Exrcito. Posso faz-lo, pois j terminei o meu 
tempo de servio h alguns anos. Talvez me contente com ser o que  meu pai: um cavalheiro estabelecido no campo.
Ela acompanhava cada uma das suas palavras com a mxima ateno, mas nem sempre compreendia as entrelinhas, o sentido adicional, as aluses prprias do idioma. Para 
ela, cada palavra inglesa no representava mais do que a definio contida no dicionrio.
- Devemos comunicar-lhes a hora da nossa chegada - disse, voltando ao seu conceito de dever.
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- Depois de amanh  tarde, pelas seis horas -redarguiu Allen.
- Ento, por favor, Allen, telefona amanh a teus pais pediu, carinhosa..
Ele achava as suas tentativas de control-lo to encantadoras como as imposies de uma criana. Mostrava-se cativantemente ansiosa em gui-lo, ao mesmo tempo que 
o adorava e lhe obedecia. A seu ver, era 'indispensvel que Allen se portasse sempre da melhor maneira possvel, pelo menos com relao aos outros. Ria nas ocasies 
em que ele era "mau", como lhe chamava quando no queria levantar-se pela manh, quando deixava o pijama em desalinho no soalho, quando lhe desarranjava o penteado 
ou amarrotava o vestido, quando a provocava para obrig-la a discutir, o que ela fazia com tanta seriedade e compenetrao que o olhar de Allen acabava por o trair. 
Ao ver o riso despontar na sua fisionomia ela gritava: "Allen mau!" e levava a pequena mo  prpria boca para esconder o prprio sorriso. Tratava-o com excesso 
de mimos, dizia ele. Josui nunca esperava que Allen a auxiliasse nas pequenas obrigaes domsticas, que surgiam nos lugares por onde passavam. Servia-o como uma 
coisa natural, segurando a toalha para quando terminasse o banho e lavando-lhe a mquina de barbear aps o uso. A princpio Allen protestara contra isso. - Olha 
c, querida, tu s minha esposa e no minha escrava!
Ela, porm, no desistiu e ele acabou por ceder, pois essa era a sua maneira de expressar-lhe amor. Allen teve de reconhecer que era agradvel ser servido. Dava-lhe 
uma sensao de comodidade e libertao das mincias. Josui mostrava que no fundo era inteiramente japonesa. Uma americana jamais o teria servido assim. Comeava 
a compreender por que razo diziam ser impossvel casar com uma americana aps ter conhecido uma mulher do Oriente.
- Vais ento telefonar a teus pais, hoje de manh?perguntou Josui, meigamente, na manh seguinte.
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-Sim, mais tarde respondeu ele, vagamente. Na bruma purprea dos Alleghenies nascera um novo e incomparvel dia. No queria pensar no seu fim.
Em breve, porm, percebeu que Josui estava preocupada. Sentada a seu lado no carro, procurava conter-se, e Allen sentiu a sua angstia.
- Acalma-te, Josui; eu vou telefonar - disse.
-Sim -respondeu ela - ; seria to bom que o fizesses
agora, no achas? Allen riu.
- Est bem. Vamos parar no primeiro telefone pblico. Presta ateno para ver a sineta azul.
Dez minutos depois ela viu o sinal no meio de um grupo de casas que mal chegava a ser uma aldeia.
- Ali! Ali! - gritou, apontando com o dedo mdio da mo direita.
Allen viu-se obrigado a ir naquela direco. Parou o carro.
- Espera-me aqui.
Agora, chegado o momento, sentia-se preocupado e relutante. No era to infantil que sentisse medo, acontecesse o que acontecesse? Poderia ir viver com Josui em 
qualquer parte do mundo que lhes agradasse. Mas no desejava abandonar a sua casa. Os anos passados no estrangeiro tinham aprofundado o seu amor pela ptria, pelo 
seu Estado, pela sua cidade, e pela casa grande que seu bisav construra para abrigar as geraes futuras. Esse modo de vida talvez estivesse condenado, mas perduraria 
pelo tempo que ele vivesse, ao menos na Amrica. Desejava viver desse modo, poder tornar-se um homem como seu pai, sbio, despreocupado, satisfeito.
Enquanto na cabina esperava a ligao, esses pensamentos passavam-lhe pela mente. E seria Josui capaz de tomar o lugar de sua me?
- A sua ligao! - entoou a voz da telefonista atravs do fio.
- Est, pai? Aqui  Allen!
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Pedira ligao pessoal para o pai, temendo o efeito que a notcia, dada assim ao telefone, poderia causar em sua me.
-Sim, filho! - A voz do pai chegou-lhe aos ouvidos surpreendentemente forte e vibrante. -Onde  que ests?
- Nos Alleghenies. Queria avis-lo de que provvelmente chegaremos a casa amanh  noite, ou na manh seguinte se nos demorarmos pelo caminho, como  bem possvel.
- Ah, sim! Bem... - o pai hesitou. - Allen talvez seja melhor ficarem a primeira noite num hotel. Precisamos ter uma conversa, meu filho.
Que  que h?
- No te posso dizer agora. Precisamos conversar. Sugiro-te que fiques em Richmond.  tarde irei para l e esperarei por ti. Quando chegares, telefona-me para o 
clube.
- Muito bem, estaremos l.
Qualquer que fosse o assunto que seu pai achava necessrio discutir com ele, desejava saber de que se tratava e enfrentar a situao.
- Adeus, pai. At amanh.
- At amanh, filho.
Desligou o aparelho e demorou-se um pouco na pequena casa de comrcio. Comprou algumas barras de chocolate e esperou o troco. Queria ganhar tempo, para deixar desaparecer 
a expresso de ansiedade do seu rosto. O olhar de Josui era to penetrante que conseguia ler os seus pensamentos e adivinhar o seu estado de esprito. No pretendia 
esconder-lhe nada, a no ser para poupar-lhe aborrecimentos. Ele tambm comeara a conhec-la melhor e descobrira a facilidade com que se desesperava, a tendncia 
para acreditar sempre no pior, em que discernia uma caracterstica do temperamento japons. Ela no devia perder as esperanas agora, logo de incio. Quando voltou 
para o carro, sorria e ofereceu-lhe o chocolate.
- Oh, muito obrigada! - exclamou ela. Allen gostava de fazer-lhe pequenos presentes para ouvi-la agradecer com voz terna e doce. - Falaste com os pais?
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- Sim, com meu pai. Passaremos a primeira noite em Richmond num bom hotel. Meu pai disse que ir l ter connosco.
- Oh, quanta gentileza! - tornou ela. Os seus olhos, sbitamente, encheram-se de lgrimas. - Espero que no esteja muito velho. Tanto incmodo! E tua me?
   - H-de querer ficar em casa para preparar tudo - inventou ele.
Josui sentiu-se muito feliz depois disso. Ps-lhe na boca pedacinhos de chocolate enquanto ele dirigia; quanto a ela, pouco comeu. A seguir enrolou o resto no papel 
prateado e depois em papel de jornal, colocando-o no compartimento das luvas para outra oportunidade. Os seus hbitos de economia sensibilizavam-no. Era cuidadosa 
com as sobras de alimentos, com o seu vesturio e o dela guardava as meias folhas de papel de escrever, os selos de centavo e todas as pequenas miudezas que podiam 
ser desperdiadas. Vivera no meio de um povo ensinado a aproveitar ao mximo todos os bens materiais. Allen perguntava a si mesmo qual seria a sua reaco diante 
do enorme esbanjamento da casa grande, dos quatro criados, dos cestos de comida que levavam para casa, da quantidade de alimentos que eram deitados fora, da despreocupao 
com o dinheiro, as roupas e todos os objectos que na Amrica podiam ser substitudos to fcilmente. Ficou preocupado com a ideia. Havia algo de inflexvel nela. 
Sob aquela aparente condescendncia tinha princpios que no podiam ser alterados. Para o seu esprito jovem, de ideias claras e mesmo rgidas, a noo do que era 
correcto possua um valor absoluto. Embora se deixasse arrastar pelo seu amor, aquela noo permanecia. Zelava por tudo o que considerava acertado, em atitudes, 
na linguagem e no comportamento. No esperava o mesmo da parte dele, mas consigo prpria era implacvel. Ele podia prever um futuro em que ela o defenderia com fervor, 
zelaria pelo seu dinheiro, pelos seus alimentos, pela sua felicidade. No lograria convenc-la de que o desperdcio pudesse ser justificvel,
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ou que os furtos insignificantes de velhos criados no eram roubos. Tudo seria feito para o seu bem, mas ele previa que o amor de Josui, embora apaixonadamente terno 
poderia ser tambm inexorvel.
Em Richmond escolheu um pequeno hotel, situado numa rua sossegada, e foi bastante sincero consigo mesmo para reconhecer que o fizera com o propsito de chamar menos 
a ateno quando entrasse com Josui. Tinha que acostumar-se aos olhares curiosos, s perguntas no formuladas. A mesma curiosidade e as mesmas perguntas deviam tambm 
ter surgido no Japo a seu respeito, mas ele no notara. Teria Josui percebido, sem nada lhe dizer? No a interrogaria agora porque, se ela no o tivesse notado, 
poderia causar-lhe sofrimentos a que era prefervel poup-la.
O hotel era agradvel. Josui gostou do ambiente tranquilo, um pouco antiquado, e, depois de se instalarem no pequeno apartamento cujas janelas davam para um parquezinho 
quadrado, onde algumas rvores ostentavam ainda as cores outonais, Allen telefonou para o clube de seu pai.
O Sr. Kennedy aguardava a chamada. Chegara no dia anterior e passara o tempo a visitar velhos amigos, no nas suas residncias, o que evitava sempre que possvel, 
mas nos seus escritrios. Aparentemente, todos tinham tempo disponvel, e se alegravam em v-lo porque trazia consigo um repertrio de novidades. Tom Kennedy era 
melhor que um jornal.
- Estarei a em breve, filho-respondeu  pergunta de Allen.
Colocou o auscultador no lugar, atravessou o quarto amplo e confortvel que alugara no clube, vestiu o sobretudo de tweed castanho-acinzentado, ps o chapu de feltro 
castanho um pouco disforme e desceu a escadaria larga e curva. No havia elevador, e, se houvesse, no o teria utilizado.
L fora, uma onda retardada de calor hmido tornava o ar sufocante, e O Sr. Kennedy chamou um txi.
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- Leve-me ao Mansfield ordenou, e ficou imvel, alheado, enquanto o carro percorria o caminho tortuoso atravs da cidade. No tencionava esconder do filho a longa 
conversa que tivera com Josephine. Quanto antes Allen soubesse o que devia enfrentar, tanto melhor. Havia de passar algum tempo at que se chegasse a conhecer o 
fim de tudo aquilo. Desceu do carro em frente ao hotel, pagou e sacudiu a cabea negativamente para o rapazinho preto parado diante da porta.
- No me vou hospedar. S vim visitar uma pessoa.
Surpreendeu-se consigo mesmo. Porque no disse: "Vim visitar o meu filho?=" Haveria nele, tambm, aquela maldita relutncia? Se assim fosse, extermin-la-ia. Desprezava 
os preconceitos. No ntimo, estava convencido de que chegaria inevitvelmente o dia - e quanto antes melhor - em que todas as pessoas seriam da mesma cor. Que tivessem 
todos pele parda! Que importava? S assim se eliminaria pelo menos uma fonte de aborrecimentos no emaranhado dos assuntos humanos. Certa vez estivera em Nova Iorque 
e l encontrara, num jantar pblico, uma dessas fervorosas redentoras da nao.
- Mas, Sr. Kennedy, que faremos com o problema da cor? - perguntava a mulher, com insistncia.
Longe do seu Sul natal e a salvo entre estranhos, ocupado em trinchar a mais dura galinha assada que lhe fora servida na vida, respondera alegremente:  clare-la, 
 clare-la!" A mulher no lhe dirigira mais a palavra.
Encaminhou-se para a portaria do hotel.
- Diga aO Sr. Allen Kennedy que seu pai vai subir - ordenou ao plido empregado.
- Sim, senhor-redarguiu este, fitando-o demoradamente.
"Ento os outros olhavam assim, hem? Pois no tomaria conhecimento."
- O elevador  ali, senhor - indicou o empregado.
- Irei pela escada - replicou O Sr. Kennedy. S precisava de subir um andar. Como odiasse exerccios fsicos, tranquilizava a conscincia subindo as escadas. Os 
degraus eram cmodos
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e o corredor do primeiro andar atapetado. Os seus passos no faziam rudo e ele bateu com fora na porta - nmero vinte e dois, dissera Allen. Ouviu um gritinho 
feminino atravs da bandeira aberta e, depois, a resposta de Allen.
-  meu pai.
A porta abriu-se imediatamente. No aposento s estava Allen, que lhe sorria.
- Josui foi ao quarto de dormir arranjar os cabelos. Est ansiosa por se apresentar da melhor maneira possvel. Entre, pai.
-Acho que as mulheres so todas iguais nessa questo de cabelos - disse O Sr. Kennedy.
Entrou e deixou que Allen o auxiliasse a tirar o casaco e a guardar o chapu e a bengala. Depois sentou-se na cadeira mais confortvel e passeou os olhos pela pequena 
sala de estar. No devia perder tempo, mas ainda se demorou a acender um charuto.
- Antes que ela entre, filho, preciso dizer-te que tua me no anda de muito bom humor. No gostaria de falar nisso diante de tua esposa, mas tu e eu teremos de 
reflectir na situao.
Allen ficou onde estava, petrificado ante a expresso de seriedade e desalento de seu pai.
- Quer dizer que ela no deseja ver-nos em casa?
Na fisionomia do Sr. Kennedy estampou-se um ar desconsolado. Virou a cabea e chupou o charuto.
-Receio que no, filho. Pelo menos, ainda no est preparada para receber tua esposa em casa. Naturalmente sempre ter prazer em ver-te. Alis, at me recomendou 
expressamente que te dissesse que sers sempre bem-vindo e que o teu quarto ser conservado tal como est, pronto para receber-te quando quiseres.
-Um momento...
Allen saiu rpidamente da sala e dirigiu-se para o quarto de dormir, fechando a porta de comunicao. Houve um longo
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silncio, uma espera prolongada. O Sr. Kennedy continuou a fumar o seu charuto. Era comprido e fino e, quando o segurava entre os dedos, uma longa e tnue espiral 
de fumo se elevava da ponta. Fez votos por que Allen no tivesse ido contar  jovem. Era mais fcil encontrar uma soluo quando as mulheres ignoravam o assunto. 
Mas, como a maior parte dos maridos recm-casados, Allen provvelmente achava que devia contar tudo  esposa. Os homens levavam algum tempo para aprender e um pai 
tambm no podia ensinar nada ao filho.
Os seus pensamentos voltaram-se para a sua prpria esposa e para a noite infeliz que havia passado. Contara-lhe a verdade, dizendo que ia a Richmond para encontrar-se 
com Alen e sua mulher. Em vez de mostrar-se grata, censurara-o acerbamente,
por coisas que ele de modo nenhum podia evitar.
-Temos de nos conformar da melhor maneira possvel com a situao - argumentara. - Do contrrio, quem sair prejudicado? Tu e eu, micamente. Os jovens podem ir 
embora e viver a sua vida em qualquer outro lugar. Tu e eu  que ficaremos szinhos nesta casa. No podemos renegar o nosso nico filho, Doura!
- Nem estou a pedir isso-tornou ela. - Digo, simplesmente, o que sempre tenho dito, que ele no poder traz-la aqui.
- Esto casados, Doura -lembrara.
No bonito rosto de sua esposa aparecera uma expresso que muito tempo antes j percebera ser de desdm. Notara-a pela primeira vez durante a lua-de-mel, e j no 
recordava
o motivo. Lembrava-se, apenas, do choque que tivera ao ver aquela linda boca, feita para os seus beijos, torcida num esgar desagradvel at para o seu amor. Naquele 
tempo, no sabia que o amor no modifica nem mesmo a pessoa amada. Nos anos seguintes no deixara de am-la, mas j no a amava sem restries. Havia dias, horas 
e, sem dvida, muitos momentos em que preferia no pensar nela e durante os quais o seu amor ficava  espera.
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- No esto casados! - declarara ela firmemente. Falava com voz arrastada, terna e macia, a mais delicada das mulheres quando o desejava ser, mas de vez em quando 
usava aquele tom spero e decidido que ele temia.
- Doura, porque dizes isso novamente? Eu j te expliquei que um templo  a mesma coisa que_ uma igreja. - O templo no me interessa.
O Sr. Keneddy no gostara da expresso de triunfo que lhe percebia no rosto. J a vira por duas ou trs vezes, uma delas quando a esposa matriculara Allen no colgio 
militar contra a vontade dele e do filho. Deixara-a fazer o que queria porque, se insistisse na retirada do rapaz, teria provocado um escndalo.
- A questo no  o que lhe interessa... - comeou.
Ela interrompera-lhe os rodeios com uma exclamao cortante.
-Tens razo! O que importa no  a minha opinio nem a tua.  a lei. A lei deste Estado probe os casamentos entre pessoas brancas e de cor.
Encarara o marido de frente, obrigando-o a olh-la.
- Josephine! - protestara ele. - Sabes bem que a lei foi feita contra os negros!
-  a lei repetiu a esposa.
Ele levantara-se, deixando-a szinha, mas antes de poder conciliar o sono, telefonara ao seu advogado, Bancroft Haynes. Era verdade. A lei do Estado proibia o casamento 
de Allen porque a jovem tinha sangue asitico. E agora precisava diz-lo ao rapaz de qualquer maneira.
A porta abriu-se e Allen entrou com Josui. O Sr. Kennedy temera aquele momento. Levantou-se vagamente da poltrona, olhando fixamente para a jovem que seu filho trazia 
pela mo, uma jovem tmida, linda, cuja tez cor de marfim se tornara rubra e cujos grandes olhos escuros estavam hmidos de medo. "Que rosto adorvel", pensou, "que 
criana tmida, torturada,
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ansiosa por agradar, implorando ser compreendida!" Toda a sua compaixo o impeliu para ela.
- Esta  Josui - disse Allen.
O Sr. Kennedy atravessou pesadamente a sala e estendeu-lhe a mo grande e macia.
- Tenho muito prazer em conhec-la, minha senhora - disse com a maior cortesia. - Vem de muito longe e apresento-lhe as minhas boas-vindas.
Sentiu a pequena mo na sua, firme, e apertou-a suavemente.
- Deve estar cansada e talvez com um pouco de saudades.
- Oh, no, obrigada - respondeu Josui, numa voz que era quase um murmrio. Estava impressionada com a estatura do Sr. Kennedy. Era to alto! Mas percebeu-lhe imediatamente 
a bondade. Sorriu; os seus lbios tremiam e os olhos tornaram-se ainda maiores quando os levantou para ele.
O Sr. Kennedy fitou-a quase com ternura, satisfeito por Verificar que, decididamente, ela no era de cor. Ora, havia muitas raparigas das melhores famlias do Sul 
que tinham a tez bem mais escura. Havia de dizer isso a Josephine.
- A senhora  muito pequenina, hem? - comentou; e, voltando-se para o filho: - So todas to pequenas como ela?
- Josui no  assim to pequena, pai -respondeu Allen.
Estava reanimado. Seu pai logo se mostrara sensvel ao encanto delicado e quase comovente de Josui. Sentia-se orgulhoso por isso. O pai havia de compreender que 
um homem se apaixonasse por ela, e estaria do lado deles.
Parada entre os dois homens altos, Josui sorriu de repente. J no sentia medo. Aquele homem grande e robusto, que era seu sogro, os ajudaria e tudo correria bem. 
Gostava dele, no havia razo para tem-lo e seria muito feliz em sua casa. No admirava que Allen fosse maravilhoso, sendo filho de tal pai. E ela tambm seria 
uma nora perfeita.
Afastou-se de Allen.
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- Por favor, queira sentar-se, pai - exclamou. - Allen, no temos ch. Pede l em baixo, por favor, um ch e qualquer coisinha para comer.
- No quero comer nada - disse O Sr. Kennedy, com a
mesma ternura na voz. Como era graciosa! -Tomei agora
mesmo a minha refeio da manh e Allen lhe dir como me  alimento bem nessa ocasio. Durante o dia como pouco e s  noite costumo jantar.
Sentou-se e ela inclinou-se para ele.
- Um whisky com soda - ofereceu amvelmente - ou uma coca talvez?
Durante a viagem aprendera a beber e dizer "coca", porque no gostava de lcool.
- Bem, um whisky com soda, ento - respondeu O Sr. Kennedy, para ser amvel.
Allen teve de pedir o whisky e ela no sossegou enquanto o empregado no o trouxe numa bandeja. No permitiu que Allen tocasse no copo ou no gelo, queria fazer tudo 
szinha. S ficou tranquila quando, depois de t-lo servido e de ter posto a seu lado uma mesinha onde colocou tudo, viu O Sr. Kennedy com o copo na mo. Ficou de 
p, esperando ansiosa, at que ele sorvesse o primeiro golo.
- Est bom?
- Perfeito -afirmou O Sr. Kennedy, cordialmente, disposto a dizer qualquer coisa que lhe agradasse. -Agora sente-se tambm, minha querida, e descanse. Quero ouvi-la 
conversar. Quero saber como a trata o meu filho. E ele que a trate muito bem!
-Senta-te, Josui - ordenou Allen.
Ela sentou-se imediatamente, sem responder, com o seu corpinho gracioso ainda tenso, olhando ora para um, ora para outro.
- Ela enche-te sempre assim de mimos? - perguntou O Sr. Kennedy ao filho.
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-  a noo japonesa do que deve fazer uma mulher - disse Allen, sorrindo.
Ento lembrou-se. O longo hbito fazia com que lhe fosse fcil esquecer as coisas tristes, difceis ou perturbadoras e, por um momento, esquecera-as. Mas, naturalmente, 
no podia falar diante daquela criaturinha. Partir-lhe-ia o corao e isso no devia acontecer. Era preciso ajudar o filho a encontrar a soluo acertada. Mas qual 
era, exactamente, a soluo acertada?
Ficou srio e Josui, que reflectia logo o estado de nimo das pessoas mais chegadas, olhou para Allen e sentiu medo novamente. Desejou que ele soubesse japons, 
pois assim poderia perguntar-lhe se fizera alguma coisa mal. Allen no a olhava; ento, sbitamente, no suportou mais o silncio e o olhar triste do pai, no para 
ela ou para Allen, mas para o copo que tinha na mo, o tapete a seus ps e a janela. Aproximou-se furtivamente de Allen e ps-lhe a mo no ombro.
- Fiz alguma coisa errada? - perguntou num murmrio.
- No, claro que no -respondeu Alen na sua voz natural. - Mas acho que meu pai quer conversar a ss comigo, Josui. Vai para o outro quarto, sim?
Ela percebeu, instantneamente, que havia algo muito errado, mas obedeceu como uma criana. Foi at  porta do dormitrio, abriu-a e entrou, fechando-a a seguir 
sem fazer rudo.
O Sr. Kennedy compreendeu que precisava enfrentar a
situao. No havia possibilidade de o evitar. Ps o copo em
cima da mesinha.
- Filho, tenho ms notcias, muito ms. Allen esperou, sem responder.
- Posso falar-te sem rodeios? - perguntou O Sr. Kennedy. - Naturalmente, pai.
- Esperava que dissesses isso mesmo.
Inclinou-se para a frente na poltrona e apoiou os cotovelos
nos joelhos, deixando pender entre eles as grandes mos macias. Juntou-as, entrelaando os dedos.
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- Filho, acho que tua me tem razo. O teu casamento no  legal.
- Que quer dizer com isso? - perguntou Allen.
- No nosso Estado, no  -respondeu o pai pesarosamente. - Existe uma velha lei que probe casamentos entre as raas. Tua me descobriu-a, no sei como. Suponho 
que alguma amiga tenha ouvido falar disso em qualquer parte. Talvez j soubesse, mas no acredito.
- Essa velha lei foi feita para as pessoas de cor - disse Allen com frieza.
-  verdade-tornou o pai. Transpirava abundantemente; grossas gotas se formavam sobre a testa alta escorrendo-lhe pelas faces. - Mas parece... perdoa-me, filho... 
que inclui qualquer pessoa que no seja branca.
- Quem disse isso?
- Perguntei a Bancroft Haynes e ele confirmou. Levantou-se e foi  janela ficou a olhar para fora, dando alguns minutos para se refazer.
- No precisamos viver neste Estado - disse o rapaz.
-  claro que no. - O Sr. Kennedy voltou-se, aliviado com a sada que o filho encontrara. - O que deves fazer  ir para outro Estado e realizar o casamento civil. 
A estaro seguros. Se tens a certeza do que pretendes fazer...
- Porque me pergunta se eu tenho a certeza? - volveu Allen, sbitamente encolerizado com o pai, ofendido com a manifestao de dvida.
O Sr. Kennedy respondeu, apaziguador:
- Tu  que sabes quais as tuas intenes, filho. Eu disse por dizer.
- Certamente iremos para outro Estado - continuou Allen no mesmo tom de clera. - Iremos para Nova Iorque. Hei- De encontrar um emprego l. Pode dizer  me que 
nunca mais voltarei para casa.
- No vou dizer-lhe uma coisa dessas -retorquiu O Sr. Kennedy, com censura na voz. Tornou a sentar-se, pegou
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no copo, bebeu metade e colocou-o de novo sobre a mesa. - Acho que nem deves pensar nisso. Espero que apareas em casa muitas vezes. Es o nico filho.
- Ela no me trata como se o fosse.
- Ests a comportar-te como uma criana. Ela quer-te de mais, acho eu. No consegue separar-se de ti, a  que est o mal;  como se a placenta ainda sangrasse. 
No  apenas por ti,  pela prpria vida que ela espera encontrar em ti. Quando soube que no poderia ter outro filho, pensei que morresse de tanto chorar e que 
jamais se conformaria. Sentado naquela velha cadeira do meu quarto, segurei-a nos braos a noite inteira. Nenhum de ns pde dormir. Acho que nunca perdoou a Deus. 
No voltou a rezar  noite, h j muitos anos, apesar de ir  igreja todos os domingos. Guarda consigo esse ressentimento. De certo modo que no entendo, recrimina-me 
at a mim, embora, sabe Deus, eu no tenha culpa.
- Ela qer impor a sua vontade em tudo-resmungou Allen.
O Sr. Kennedy evitou discutir o assunto.
-  uma criatura maravilhosa, infantil e digna de compaixo - disse com meditativa ternura. Pela primeira vez falava ao filho como a um homem. - E to forte, capaz, 
activa e autoritria que s vezes mal a suporto. E ento lembro-me da outra faceta do seu carcter, da criana castigada que . No posso esperar que compreendas 
isto, filho. Mas eu compreendo. Faz tudo a seu modo, e confesso que a achei interessante. No poderia ter amado uma mulher que no fosse interessante.
Olhou para o filho com ar tmido, quase implorativo, como se a revelao contivesse uma splica silenciosa. Allen estava comovido e ao mesmo tempo embaraado. No 
conseguia imaginar sua me no papel de esposa. Era uma nudez que devia ser coberta imediatamente. Levantou-se quase bruscamente, ansioso por fugir quilo.
- Vejo que fez tudo quanto pde por ns - disse. -O resto  comigo, pai. Ficar para almoar connosco, no ? Penso que
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esta tarde continuaremos a viagem. Mandarei buscar as minhas roupas e os meus livros.
- No vou ficar hoje - declarou O Sr. Kennedy. Sentia-se muito cansado e no tinha a certeza de querer tornar a ver aquela graciosa menina. - Irei visit-los outra 
vez quando estiverem instalados.
-Avis-lo- ei, pai-respondeu Allen.
Apertaram-se as mos com fora e ele resistiu ao impulso de pousar a cabea no ombro curvado do seu velho pai. Em vez disso, ergueu-a bem alto e disse com voz forte 
e decidida:
- Estou satisfeito por me ter falado sem rebuos. Ficou tudo esclarecido. Agora sei qual  a situao.
O Sr. Kennedy pigarreou, procurando encontrar qualquer coisa que valesse a pena dizer. Sentia tremerem-lhe os joelhos e desejou poder deitar-se um pouco.
- Bem, filho, adeus. Procura-me se precisares de mim. Sou sempre o mesmo.
- Eu sei- disse Allen. Aquela frase familiar estava carregada de lembranas patticas. Seu pai pronunciara as mesmas palavras em todas as despedidas. Mas, na realidade, 
nunca havia nada que pudesse fazer.
Manteve-se sorridente at fechar a porta aps a sada do pai; depois sentou-se e segurou a cabea entre as mos.
Josui aguardava no outro quarto. A honra proibia-a de espiar ou escutar enquanto pai e filho conversavam. No obstante, sabia que algo fora dito que para ela encerrava 
um perigo. Estava parada, imvel, no meio do quarto de dormir do hotel. Sentia-se cansada, no somente por causa da viagem mas porque havia muitos anos que no se 
sentava em cadeiras nem dormia em camas altas. Os msculos das pernas doam-lhe da tenso e as costas estavam doloridas dos colches macios. Estava, alm disso, 
exausta do constante esforo para no se sentir aturdida e principalmente para no o deixar transparecer. Quo pouco, na realidade, ela e Allen se conheciam! Um 
pesado fardo  imposto ao amor quando nele deve
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apoiar-se igualmente a compreenso. O seu amor era bastante forte, mas s-lo-ia tambm o dele? J o tinha pensado e continuava a pensar da mesma forma.
Ouviu fechar-se a porta do outro aposento. Quando viu que Allen no a chamava, abriu mansamente a porta de comunicao, e olhou para a sala. Estava sentado ali, 
com a cabea entre as mos. Que mgoa terrvel se abatera sobre ele?
- Allen!
O rapaz sobressaltou-se ao ouvir a voz de Josui, como se tivesse esquecido a sua presena. Deixou cair as mos.
Allen, que foi? - gritou ela. Entrou rpidamente e ajoelhou a seu lado. - Diz-me, Allen! Que h?
Ele sentiu vergonha de contar-lhe. Como iria explicar-lhe a necessidade, que acreditava ser real, daquela lei que lhes proibia a unio? Como explicar uma coisa que 
no podia ser explicada- Que uma rede estendida para outros a apanhara a ela, a quem no se destinava originriamente? Era como explicar que uma teia erguida contra 
as vespas impedia tambm a passagem de uma borboleta.
- Minha me no est bem - disse, contrafeito. -  Meu pai diz que devemos esperar at que se sinta melhor. Por enquanto, teremos de procurar um lugar para morarmos 
ss.
Notou que a expresso de Josui se alterara e apressou-se a acrescentar:
- Bem sabes, Pittysing - era esse o apelido carinhoso que lhe dera, inventado nas horas alegres do amor - na Amrica no vivemos em casa com os pais. Asseguro-te 
que no  costume. A maior parte dos jovens daqui no suportariam a situao e acho que os velhos tambm no gostariam disso por muito tempo. Talvez no Natal seja 
possvel passarmos uns tempos l. Enquanto isso...
Levantou-se, meteu as mos nos bolsos e ps-se a caminhar pela sala. Falava enquanto ela permanecia ajoelhada, observando-o, o rosto plido mas sereno, os grandes 
olhos negros a segui-lo, inexpressivos.
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- Nova Iorque  o lugar indicado para ns, uma grande cidade onde vive gente de toda a espcie. V, Pittysing, a minha cidade natal  um lugarejo onde as pessoas 
vivem h geraes, uma dzia de famlias, mais ou menos, com os seus criados e outros dependentes. Creio que nunca viram um japons.
- Ento  por minha causa- observou Josui.
Ele dissera mais do que tencionava. Parou diante dela,
tentando sorrir, enquanto olhava o seu rosto erguido. -Lembras-te do que teu pai sentia com relao a mim?
Pois bem!
- Mas aqui, na Amrica?
-Ah, isso mesmo, na Amrica, meu amor! Especialmente .na Amrica! Esqueceste-te? Tu viveste em Los Angeles at muito tarde. J te no lembras? -A sua voz revelava 
amargura.
Josui lembrava-se. Deixou pender a cabea e lgrimas apareceram nos seus longos clios negros.
- Pensei que tivesse mudado -murmurou.
-Talvez esteja a mudar-admitiu ele. - E sou parte dessa modificao e tu tambm.
A essas palavras ela levantou novamente a cabea e olhou-o temerosa.
- Isso faz com que eu me sinta muito s - disse com voz sumida.
- Duas estrelas errantes a tentar construir o seu prprio universo - concordou ele. -  possvel consegui-lo, Pittysing.
Pegou-lhe nas mos e forou-a a levantar-se.
- No voltes a ajoelhar-te, peo-te, Sr Kennedy- disse. E agora no voltarei a chamar-te Pittysing. Foi um nome de lua-de-mel. E a lua-de-mel acabou, minha querida. 
A vida comea. Vou passar a chamar-te Jo Kennedy. Que tal?  muito americano, no ?
A clera tornava-o ousado, a rebeldia encorajava-o. "Ao inferno", pensou, "com as coisas velhas do passado." Deixaria o Exrcito, iria para Nova Iorque e arranjaria 
um emprego.
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- Vamos, Jo - disse, apertando-a resolutamente contra o peito, num abrao em que a nica paixo era a clera. - Arruma as tuas coisas. Vamos para o Norte.
Exteriormente, a mudana operou-se com facilidade. Allen conseguiu logo um emprego numa revista semanal. Possua excelentes referncias, boa aparncia, bastante 
prtica, e apresentara o seu certificado de disponibilidade do Exrcito com meno de louvor. O ordenado era suficiente para as despesas do pequeno apartamento que 
alugou em Riverside Drive. Josui at arranjou amigos: uma chinesa casada com um estudante da Universidade de Colmbia e um casal de japoneses que estudavam didctica 
e psicologia infantil.
Mas, entre eles, as coisas haviam mudado. Ela e Allen comearam a ter, cada qual, uma vida de secreta solido, conquanto se apegassem um ao outro com amor desesperado 
e, durante algum tempo, com paixo mais intensa do que at ento haviam conhecido. No provinham de bairros pobres para que aquele apartamento pequeno, mas bem arrumado, 
pudesse representar uma espcie de paraso terrestre. Nem sequer tinham sido criados em edifcios de apartamentos, com elevadores, terraos pequenos e altos telhados 
enfarruscados Eram filhos do espao e da abundncia. Ela arrumava a minscula cozinha e pensava na amplido da sua casa em Kyoto, nos aposentos que, afastados os 
tabiques de rtulas, comunicavam uns com os outros a perder de vista. Allen pendurava a roupa no estreito armrio e lembrava-se dos seus quartos na casa de grandes 
colunas, sua por herana, uma propriedade que a lei lhe assegurava. Em segredo, pensavam em jardins e lagos, e Josui, quando dormia, sonhava com o chapinhar da cascata 
a milhares de quilmetros de distncia. A ela, igualmente, pertencia a cascata, os lagos e a casa de paredes de
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rtulas, os tesouros do tokonoma. Nenhum dos dois teria        renunciado, nem por um instante, ao seu amor, mas cada qual sonhava com o que no tinha e talvez nunca 
viesse a ter.
E ambos guardavam tambm no ntimo um dio cada vez
mais profundo  cidade. Era uma vida transitria. Quem poder viver numa colmeia de celas e chamar a isso vida? Um embrio, talvez, mas nunca um ser humano, vivo, 
que se movimenta e sente, pensava Josui naquela sua vida secreta, to bem dissimulada diante de Allen que ele nunca lhe suspeitara a existncia, possudo como estava 
dos seus prprios sonhos
furtivos. Ele no podia renunciar s suas esperanas,  sua indeciso, mesmo, de encontrar um meio de reaver o seu lar.
O amor frustrado  casa paterna,  infncia e aos pais,
provocava crescente irritao em Allen. Pensava constantemente nos pais, vivendo na casa que ele amava, e irritava-se ainda mais com o pai do que com a me. O homem 
 que devia insistir e exigir, impor a sua vontade  mulher. O contrrio no passava de fraqueza. Ignorava que ele prprio era um
homem em tudo diferente do pai. Embora sensvel de mais        ! para encontrar prazer numa prostituta que se entrega a qual
quer um, a sujeio de um pas conquistado modificara-o como        costuma modificar todos os homens. Alguns sentem-se impelidos a obrigar as mulheres conquistadas 
a submeterem-se;  a ltima fase da guerra, a confirmao da vitria pessoal. Allen teria negado que pertencesse a esse tipo de homens; no obstante, era um deles. 
Era arrogante e teimoso, ao contrrio do pai. Pertencia a uma gerao fisicamente dominadora, que conquistara pela fora, e, assim, diferia radicalmente de Tom Kennedy, 
que nunca desejava dominar ou impor-se a quem quer que fosse.
Pensando assim, dia a dia Allen se tornava inconscientemente mais obstinado, autoritrio e exigente, at com Josui. Ela ficava surpreendida, incapaz de entender 
porque era to passvel de erro o que fazia. Amava a perfeio, empenhando-se de tal forma em fazer tudo bem, que passava horas arranjando
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um vaso de flores sobre a mesa, ao canto da pequena sala de estar que servia tambm de sala de jantar. No entanto, a ateno dispensada a um s pormenor no a impedia 
de terminar tudo antes que Allen chegasse. No tinha nem desejava ter empregada, pois sabia que, na Amrica, poucas mulheres dispunham de serviais. Alm disso, 
como iria passar o tempo?= Pensou frequentar algum colgio durante o Inverno, quando no pudesse ir passear nos parques. A cidade estava cheia de colgios. Encomendou 
catlogos e estudou-os enquanto esperava por Allen nas noites em que ele trabalhava at tarde. Todas as semanas havia dessas noites e sempre uma ltima noite de 
agitao febril, quando a revista "entrava na mquina", como ele dizia. Algumas vezes amanhecia j quando Allen chegava a casa, e ela ficava sempre  espera.
Se frequentasse um colgio, poderia estudar durante essas horas. Por enquanto, contentava-se em ler os livros que alugava na biblioteca do bairro. Algumas vezes 
eram livros bons, outras no. No havia ningum que a orientasse, com excepo da velha bibiotecria a quem se dirigia pedindo, polidamente, livros sobre a vida 
na Amrica. Lia-os com crescente surpresa
e perplexidade. Qual seria o seu lugar entre aquelas mulheres
e        os seus mltiplos problemas? A sua vida limitava-se ao pequeno apartamento, com o homem a quem amava.
No entanto, poderia a situao durar sempre? Havia horas em que a casa era como uma caixa pequena de mais, em que
O seu esprito era presa de inquietao. Resumir-se-ia tudo naquilo?
- Allen - disse ela um dia. - Tu no tens amigos, querido?
Preparara-lhe um agradvel jantar, um prato de sukiyaki, que ele tanto apreciava, e uma travessa de arroz, leve como uma pluma.
-Amigos? -repetiu ele.
- Para conversar um pouco - prosseguiu ela. - Eu poderia
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preparar um bom jantar como este, talvez para dois amigos, um casal, e conversaramos.
- No tenho tido tempo para cuidar de outra coisa alm do trabalho, Jo - respondeu ele. - Mais tarde, talvez.
Ela convidou o casal que conhecera um dia no parque, dois jovens nipo-americanos, nascidos e criados em Seattle, e que frequentavam agora a Universidade de Colmbia. 
Eram afveis, mas reservados. Sentiam que o marido de Josui se mantinha, ainda, o jovem oficial americano. Era difcil esquecer que eles prprios tinham vivido num 
rido campo de concentrao no Arizona, atrs de arame farpado. Mesmo assim, a noite foi agradvel. Os jovens japoneses, quando prisioneiros, tinham-se distrado 
a esculpir as razes retorcidas das artemsias do deserto e, a pedido de Josui, trouxeram alguns dos seus melhores trabalhos. Nenhum deles porm, estava  venda.
- Guardmo-lo como recordao - disse a mulherzinha atarracada.
A conversa, foi, por vezes, foradamente animada, com muitos elogios  arte culinria de Josui, mas o casal retirou-se cedo. Ela no tornou a convid-los.
-Tu achas que no so pessoas do teu gnero, no , Allenn? - indagou, depois que saram.
- Isso no tem importncia - disse ele com bondade. - So muito simpticos. Quero que tu tenhas amigos.
Depois, repentinamente, toda a inquietao se dissipou. Um dia, ao voltar do mercado onde fazia as suas compras dirias, Josui sentiu-se muito cansada e deitou-se 
na cama. Tinham aparecido sinais que a assustaram, atrasos, pequenas alteraes no seu organismo, que, no entanto, julgou serem imaginrios. Nunca fora regular na 
sua vida fsica feminina. Certa vez um mdico, no Japo, dissera-lhe que o choque ocasionado pela partida da Amrica e pelo fim de tudo quanto conhecera, numa poca 
em que deixava de ser menina para transformar-se em mulher, o rompimento de ligaes emocionais profundas, no smente com os amigos mas com as paisagens
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a que estava habituada, a necessidade de enquadrar-se no ambiente japons, que lhe era familiar e ao mesmo tempo estranho, lhe haviam produzido certa inibio no 
esprito, que sem dvida lhe afectara o organismo. Algumas semanas antes, pensara se no estaria grvida, temera e duvidara, tentara evitar com a sua prpria relutncia 
a concepo de um filho. Pois que espcie de lar era aquele para proporcionar a uma criana? No era s a casa, que parecia uma caixa de fsforos, sem jardim para 
uma criana brincar, era tambm o parque, onde vira muitas mulheres brancas afastarem os filhos dos meninos de cor mais escura. No legaria o seu filho quele parque. 
Um filho!
- No, no -murmurou.
E, agora, de repente, enquanto descansava, notou uma agitao dentro de si, movimentos muito leves, que no eram seus. Os sinais que se recusara a reconhecer ajustaram-se 
imediatamente ao molde da certeza. Sentiu no interior do seu corpo o impulso de outra vida. L estava, tinha comeado, era tarde de mais, A criana vivia.
Ficou imvel, horrorizada. Depois, afundou o rosto no travesseiro e chorou.
Felizmente, a criana por nascer no sabe quando a me
chora. Desejada ou no, inicia a vida com alegria e a dor da
me no a afecta. Vive, sabiamente, szinha e  parte, preparando-se para um mundo de sua prpria criao, desenvolvendo-se vidamente, dormindo o sono profundo 
dos que esto por
nascer, s comparvel, em paz e esquecimento, ao derradeiro
sono, o da morte. Cada dia, porm, acorda um pouco mais,
dorme um pouco menos, estende as perninhas, a primeira
grande separao da eternidade. Inicia-se para ela o tempo.
Assim acontecia com o filho do mundo, Lenie. Ele no
sabia que sua me chorava muito. Absorvido na sua prpria
evoluo, no pensava, apenas crescia. Ignorava de quem iria
nascer e isso to-pouco lhe causava desassossego; no tinha
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conscincia da poderosa fuso que se operava no seu corpinho minsculo. Dormia, absorvia o alimento pelo umbigo, movia-se uma vez por outra, com crescente inquietao, 
e ignorava que a sua existncia era um segredo profundo entre ele e sua me.
Josui no quis revelar a Allen o que descobrira. Percebia que aquele americano com quem casara cheia de paixo, e a quem ainda amava com ardor, no se sentia feliz. 
Trabalhava com af, era delicado com ela, amava-a; tinha a certeza disso, pois havia horas de imensa ternura, em que se demorava nos seus braos, totalmente entregue 
a ele, horas em que todos os pensamentos cessavam e os sentimentos se perdiam na fuso csmica dos corpos. No entanto, agora sentia sempre a presena secreta do 
terceiro. Estaria aquele ser tomando parte na fuso? Sentir-se-ia surpreso e perceberia que o seu mar prprio era agitado por tempestades externas?
- Que se passa contigo? - perguntou Allen. - Em que pensas? Volta para mim.
- Estou aqui - respondeu ela, estendendo-lhe as mos. - V, estou aqui, contigo.
No, no lhe diria nada. No representava para ele toda a  sua vida. Sabia h muito tempo que Allen tinha segredos para ela. Vivia  parte, tinha pensamentos que 
no podia compartilhar. No eram apenas recordaes da casa, da famlia de que Josui o separara e da infncia de que, agora, ela no podia participar. Havia muita 
coisa que no conseguia entender no mundo que era o dele. Allen interessava-se por poltica e ela no compreendia esse interesse. Lia livros que ela no podia ler, 
e s vezes ficava zangado quando ouvia as notcias no pequeno rdio ou franzia as sobrancelhas ao ler os jornais. Para ela nada disso era importante, mas se para 
Allen significava tanto, no era sua obrigao interessar-se tambm? Quando fazia tentativas para compreender de que se tratava e lhe dirigia perguntas - pois quem 
poderia esclarec-la seno ele? -Allen respondia-lhe com uma impacincia que procurava
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ocultar. Nada doa tanto a Josui como essa impacincia mal reprimida, que se acentuava cada vez mais.
-  muito penoso para ti ensinar-me - concluiu um dia, em voz alta.
- No, no  isso-argumentou ele. - Sinto-me cansado quando chego a casa,
Mas era verdade. Se ela tivesse podido frequentar um curso como pretendera, ter-se-ia familiarizado com os problemas da Amrica. Mas isso j no entrava em causa. 
De nada serviria, agora que a criana estava a caminho.. No podia evit-la, embora um dia tivesse tentado. Falara com a sua amiga japonesa e ambas procuraram um 
mdico, mas este declarou que a criana tinha que nascer. Era tarde de mais. Alm disso, ele no se envolvia em casos desses. Josui sentiu-se quase satisfeita. No 
era justo destruir a criana antes de ter nascido. No tinha culpa de ser um filho do mundo. Era o seu destino.
O Outono passou e chegou o Inverno. Josui emagreceu, preocupada com o segredo, e diversas vezes esteve a ponto de revel-lo a Allen, mas nunca chegava a faz-lo. 
Quando as palavras lhe pesavam sobre a lngua, no conseguia pronunci-las, no porque tivesse medo dele, que na verdade no tinha, mas porque sentia a instabilidade 
da sua vida. At o aluguel do pequeno apartamento era pago mensalmente. Como seria possvel viver ms a ms?
- Um dia destes iremos para casa - disse Allen. - H-de chegar o momento. Embora minha me se oponha enquanto for viva, um dia h- De morrer, Mas no se opor.
- Allenn! - exclamou Josui, horrorizada. - No fales assim dos teus pais. Sers castigado!
Ele mostrou uma estranha insensibilidade.
- A morte  uma coisa natural.  at bom que os velhos morram. Enquanto vivem no h progresso.
- Allenn, ela  tua me! - e Josui colocou-lhe sobre os lbios a mo macia.
- E uma mulher de mentalidade estreita - prosseguiu ele,
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afastando-lhe a mo. - Nasceu e foi criada naquela cidadezinha. No quer ou no pode entender que tudo se modifica. - Tu amas aquela cidadezinha..
- Eu sei, e acho difcil perdoar que minha me no me deixe viver l.
- No lhe desejo a morte - disse Josui, com firmeza. - No posso desejar a morte a ningum. Teria medo de faz-lo.
Allen continuou a falar no mesmo tom estranho:
-  porque nunca mataste ningum. Olha, Josui, eu fui ensinado a matar gente. No  difcil. s vezes, quando estou sentado a ouvir o nosso chefe de redaco, no 
posso deixar de pensar como o mataria se fosse o inimigo. Chego a ver os pontos vulnerveis do seu corpo enorme. Saberia exactamente como defender-me dele, o lugar 
macio aqui no pescoo ou abaixo das costelas. A baioneta no encontraria resistncia.
Ela fitava-o petrificada de horror. Amarrara um pequeno avental rosado na cintura e enxugava uma travessa de vidro. De repente as mos crisparam-se em torno da travessa.
Allen ps-se a rir.
- No te assustes, Jo, nunca farei uma coisa dessas. Foi, simplesmente, parte do meu treino e s falei nisso para te explicar por que razo a morte nada tem de horripilante 
para mim.
Ela no respondeu. Voltou-se e comeou a lavar novamente os pratos na gua quente cheia de sabo.
Allen amava sua me, era evidente. No estaria to furioso com ela se a no amasse. "Eu devia ir embora - pensou Josui humildemente. -  Afasto-o de tudo quanto ele 
ama".
Como poderia ir embora? Possua aquele dinheiro no banco de So Francisco, mas no tinha para onde ir. Se escrevesse ao pai, talvez ele lhe mandasse mais dinheiro; 
mas dissera-lhe que no voltasse para casa. E que vida seria agora a sua junto dos pais? E aquela criana, quem havia de quer-la, seno ela smente? Era impossvel 
que seu filho e o Dr. Sakai vivessem na mesma casa. Ela seria sempre o pra-choques entre os dois.
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Josui chegava a ver a criana diante de si. Certamente se pareceria com Allen, pois ouvira dizer que o sangue branco era sempre mais forte e predominava sobre qualquer 
outro. Poderia essa criana crescer feliz numa terra onde todos tinham olhos e cabelos negros e a pele dourada? No iria sentir-se extremamente infeliz? Era preciso 
permanecer ali, entre pessoas que se lhe assemelhassem. Portanto, como poderia ir embora?
At o convvio com os amigos japoneses se lhe tornou difcil e aos poucos foi-se afastando deles. No podia dizer  amiga o que pensava dia e noite. Desculpou-se 
dizendo que no se sentia bem, que precisava descansar muito. O casal estava ocupado com os seus estudos e gradualmente Josui Passou a no ver mais ningum.
Um dia, Allen telefonou dizendo que levaria uma amiga a casa, a jovem de quem lhe falara, sua companheira de infncia. Cynthia fora v-lo  redaco e manifestara 
vontade de conhecer Josui. Lev-la-ia a jantar naquela noite, e pedia-lhe que preparasse um bom sukiyaki. A sua voz soava alegre ao telefone e Josui ficou satisfeita 
ao ouvi-la, pois havia muitos meses que isso no acontecia.
Limpou e arrumou o pequeno apartamento, comprou um ramo de pequenos crisntemos e no resistiu  tentao de adquirir trs grandes, amarelos, como os que seu pai 
cultivava s centenas no jardim da casa, no Outono. Passou duas horas a dispor as flores, esforando-se por obter uma impresso de espao naqueles aposentos to 
pequenos. Conseguiu-o por fim, colocando-as no peitoril da janela e usando como fundo uma nesga de cu e alguns telhados.
Oh, e a comida que tinha de ser preparada com tanto carinho - o arroz, que devia ser lavado dezenas de vezes at desaparecer a ltima partcula de amido, para no 
ficar pegajoso depois de cozido no vapor at  perfeio; os rabanetes, cortados em forma de flores; os pedacinhos de agrio e endvia, para enfeitar o caldo claro 
de galinha; e o peixe, que ela queria com cabea e tudo, pois no se conformava com o corpo decapitado
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que os americanos apresentavam. Um peixe era belo inteiro, mas horroroso sem a cabea. Como podiam deixar de perceb-lo? Poliu as tigelas e pratos e esfregou a cozinha 
at que a criana protestou, obrigando a me a deitar-se para acalm-la.
J lhe dera um nome. Era preciso dar nome a uma criana, antes mesmo que nascesse. Pensara muito nisso. Como se havia de chamar um filho do mundo?= Certamente devia 
ter um nome que fosse seu, no o de seu pai ou parecido com o de sua me. Havia um nome americano, Joseph, mas no lhe agradava. Pensara em chamar-lhe Kensan, como 
seu irmo morto. Mas teria a criana direito ao nome dele? No queria us-lo sem permisso e no havia ningum para d-la. Imaginou o rostinho do filho; no se parecia 
com pessoa alguma sua conhecida, e, no obstante, parecia-se com todos, um verdadeiro filho do Mundo! No poderia chamar-lhe Allen, pois a me de Allen no lhe aprovava 
a existncia. Allenn... Allenn! Porque no lhe dar ento, simplesmente, uma parte do nome do pai, chamando-lhe Lennie? No instante em que pronunciou esse nome, ele 
passou a ser o da criana. Viu um rostinho vvido, de grandes olhos cuja cor no pde distinguir; mas em tudo e por tudo era uma criana a quem o nome de Lennie 
se ajustava perfeitamnte. Assim, ficou sendo Lennie e ela conversava com ele chamando-o pelo nome. Quando Josui andava muito pelo apartamento, limpando o p, quando 
ficava muito tempo de p cortando as hortalias para o sukiyaki, e Lennie se mostrava impaciente, recriminava-o com doura:
- Eu poderia sentar-me, Lennie,  verdade. Mas nunca vi uma mulher sentar-se para cortar as hortalias em pedacinhos. A gente corta-as sempre de p. Portanto, fica 
quieto, por favor.
Mas ele no ficava quieto e obrigava-a a deitar-se para descansar.
Aquela jovem, Cynthia, descobriria o que Allen ainda no notara? Seria amiga ou inimiga?
No momento em que a viu, percebeu que era amiga. Uma
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bela jovem alta, loura e graciosa, entrou em companhia de Allen, e Josui olhou para ela com humildade e instantnea admirao. Sem dvida era aquela a jovem que 
Allen devia ter desposado. Via-se logo e Josui compreendeu perfeitamente a me de Allen. Oh, era evidente, Cynthia era a mulher indicada; tivesse ela sabido que 
havia uma mulher assim, e teria recusado Allen pelo muito que o amava.
Estendeu a mo, incapaz de falar, e Cynthia prendeu-a nas suas.
- Queria tanto conhec-la - disse com voz cheia e amvel. - Conheo Allen desde pequena. Somos como irmos. Espero que lhe tenha contado.
- Ele falou-me - respondeu Josui.
Ficou hesitante; no conseguia afastar os olhos daquela maravilhosa rapariga loura, de olhos to azuis, pele to clara e macia, boca cheia e meiga.
-Tira o chapu, Cynthia - pediu Allen. Tratava-a despreocupadamente, mas tinha prazer em v-la. - Fica  vontade, Cynthia. A casa  modesta, mas nossa. Josui, onde 
esto as tuas boas maneiras?
- Estou to surpreendida - murmurou Josui.
- Surpreendida de qu? - perguntou Allen.
- To bonita! - volveu Josui, ainda desconcertante. - No esperava. Tu no me disseste.
Riram dela, entreolhando-se com prazenteira compreenso.
- Oh, voc  encantadora! - exclamou Cynthia, com fervor. - Allen, tu no me disseste que era to graciosa. No me admira que sejas louco por ela. Eu poderia at 
preg-la na lapela, como uma flor.
Josui, ento, riu tambm, e imediatamente gostou de Cynthia. Estava contente por ver que era assim, uma rapariga alta e bondosa, apesar de to bonita.
- Por favor, sente-se - disse, voltando a si. - Vou trazer ch. Allenn disse que esta noite tudo deve ser japons. Com licena, sim?
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Retirou-se da sala fazendo uma leve inclinao e foi para a cozinha, onde fechou a porta. A sentou-se um instante no banquinho para tomar flego. "Lennie censurou, 
em silncio - por favor, no comeces a saltar. O avental cobre alguma coisa mas no tudo. Tu no foste convidado. Ajuda a tua me, por favor".
Ele aquietou-se logo, ao mesmo tempo que o seu corao, e ela ento levantou-se para preparar o ch.
Para alm da porta fechada, a sala tambm estava muito quieta. Josui podia ouvir as vozes, mas no distinguia as palavras. Conversavam, talvez a respeito da casa 
de Allen, da Sr Kennedy, coisas que no diriam na sua presena. Era natural, apesar de faz-la sentir-se um pouco isolada, e ela demorou-se a preparar o ch para 
lhes dar mais tempo.
- ...Allen, ela  adorvel! - dizia Cynthia. - Se tua me a visse ao menos uma vez, acredito que as coisas mudariam.
- Pensei que talvez no Natal... - Allen interrompeu-se.
- Tambm pensei nisso - respondeu Cynthia, com imensa simpatia. Estava inundada desse sentimento que lhe fulgurava nos olhos e no meio sorriso, no ardor com que 
se inclinava para ele na sua poltrona. Mostrava-se completamente absorvida e ele, percebendo-o, ficou a imaginar, ausente e no entanto um pouco triste, se Cynthia 
o teria amado e ele a ela, caso nunca tivesse visto Josui. Se conseguissem convencer sua me de que ele e Cynthia nunca poderiam ter-se amado um ao outro, talvez 
esse facto agora a tornasse menos intransigente.
-Sinto que posso falar francamente contigo- disse a Cynthia.
- Podes, sim-respondeu ela.
-Sabes das esperanas que minha me sempre teve a nosso respeito.
- Oh, sei, sim. - A resposta de Cynthia foi imediata. No corou e seus olhos brilhantes permaneceram tranquilos como sempre.
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- Ainda que eu nunca tivesse conhecido Josui? - perguntou ele.
- Oh, nunca pensei em ti dessa maneira - disse Cynthia, com segurana. - Gosto imensamente de ti, Allen, como bem sabes. Cus no poderia imaginar a vida sem ti, 
nem antes, nem agora, mas no creio que esse espcie de afeio possa transformar-se no amor que leva ao casamento. Sinceramente, no s da mesma opinio?
-Suponho que tens razo -respondeu Allen, quase contra vontade.
- Porque me falaste nisso?
-Se tu conseguisses convencer minha me... - sugeriu
ele. - Achas que adianta?
Ela ficou pensativa, as belas e alvas mos entrelaadas
sobre os joelhos.
- Entendo o que queres dizer- exclamou depois.  Porque no farei? Farei o possvel. Vou trata de conciliar tua me, contra a prpria vontade dela, contando-lhe 
que amor nt criatura  a pequena... josui...  assim que se pronuncia o nome? E veremos... Veremos.
- Cynthia, se o fizeres...
- Hei-de fazer- disse ela com calor. - Aqueles olhos, Allen! To grandes e negros, e as pestanas longas. So todas assim como ela?
- Josui  muito mais bonita que qualquer outra que eu tenha visto no Japo- declarou ele, com a reserva adequada a um marido.
- E mais bonita do que qualquer rapariga que eu tenha visto na Amrica- disse Cynthia, generosamente. - No admira que a ames. Estou inteiramente do teu lado. Declaro 
guerra  oposio.
-Tu vales por um exrcito, Cynthia!
Allen estava entusiasmado. A declarao de Cynthia justificava o seu modo de agir, e talvez conseguisse realmente o que nem ele nem o pai haviam conseguido.
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- Se tua me no ceder - disse Cynthia - convidarei Josui para ir visitar-me e darei uma festa. Ento veremos.
- Oh, no sei... - comeou ele, alarmado.
- Allen, nada de covardias! Foraremos o jogo. Tu estars l no Natal..
A sua firmeza, optimismo e clida energia empolgaram-no. Talvez, talvez!
Nesse instante Josui entrou com o ch. Cynthia comeou a fazer-lhe perguntas sobre a cerimnia do ch, a respeito da qual tinha lido e ouvido falar, mas que no 
compreendia, e Josui perdeu a timidez, explicando-lhe. Ningum ainda lhe perguntara coisa alguma a respeito do Japo e ela gostou de falar em sua casa, em seu pai 
e sua me, nas flores e no tokonoma.. Allen observou, surpreendido, que Cynthia era encantadora na sua curiosidade, no seu interesse sincero. Ele sabia o que Josui 
queria dizer quando afirmava que at ento ningum lhe perguntara nada. Era verdade, os americanos no faziam perguntas. Falavam, porm nada indagavam. Era coisa 
que no lhes ocorria. Allen ficou a ouvir a voz doce e um pouco hesitante da esposa, que se esquecera completamente dele. Conversara apenas com Cynthia, deleitada. 
Ter-se-ia sentido s? Quedou-se a observ-la enternecido, cheio de remorsos por se ter mostrado tantas vezes taciturno. Compreenderia ela a tortura das suas dvidas 
a respeito do que fizera? Talvez Cynthia os ajudasse. Tinha que terminar bem.
A fragrncia difundida pela presena de Cynthia manteve-se por muito tempo depois que ela saiu. A sua profunda sinceridade produziu em Allen um calor de ternura, 
e, pela primeira vez h muitas semanas, ele se voltou para Josui com algo to prximo de humildade como jamais sentira.
- Estavas adorvel- disse-; o sukiyaki foi o melhor que provei. Cynthia achou lindas as flores e eu disse-lhe que ningum as sabe arranjar como tu.. Jo, s to bonita!... 
Cynthia tambm acha.
Tornou a v-la como era na realidade. A dvida escurecera-lhe
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a vista, mas agora via-a com os olhos de Cynthia. josui era bonita. Tinha a graa de um gatinho; o seu corpo frgil, as pequeninas mos to dbeis nos seus movimentos 
precisos, a compenetrao com que se dedicava a qualquer coisa que fazia, tudo lhe pareceu novamente encantador. Podia confiar em Cynthia. Era simples questo de 
tempo. Sua me acreditaria nela.
Nesses dias voltaram a ser felizes. Allen mostrava se to amvel, que por pouco Josui lhe no falou a respeito da Lennie. Ter-lhe-ia contado tudo se no percebesse 
que a sua felicidade estava ainda ligada  casa paterna,  famlia,  cidade, ao mundo que o abrigara na infncia. No poderia ter a certeza da felicidade enquanto 
ele no construsse um mundo  parte para ambos. Quando o fizesse, quando tivesse a certeza de que Allen se transplantara do passado para o presente, quando lhes 
fosse possvel abandonar aquela caixinha onde viviam, para encontrar em qualquer parte uma pequena casa com jardim que ele passasse a considerar o seu lar, ento 
lhe diria. Mas tudo isso aconteceria alguma vez?
-Tenho comido de mais- disse ela, tentando rir.Estou a ficar muito gorda. O ar, aqui na Amrica,  bom de mais para mim.
Assim disfarava, ocultando-se atrs desse disfarce enquanto esperava. Mas at quando? Cynthia escrevera uma carta a Allen. Estava em cima da mesa junto  porta 
e Josui no ousou abri-la. Havia algo entre os dois, antigas recordaes da infncia, e no tinha o direito de intrometer-se. Confiava em Cynthia com toda a sua 
alma, mas havia aquelas recordaes. Quando Allen chegou, entregou-lhe a carta.
- Veio hoje, e para ti, Allenn.
Ele rasgou vivamente o envelope e Josui observou-o enquanto percorria com os olhos as grandes pginas de papel grosso cor de marfim. Era uma carta importante - percebeu-o 
no seu rosto. Sbitamente Allen amarfanhou o papel, atirou-o
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para o cesto e dirigiu-se a passos largos para o quarto de dormir.
- No  para eu ler? - perguntou Josui enquanto ele se afastava.
- L, se quiseres -respondeu Allen sem voltar a cabea. "Algum dia ter de saber", pensou amargamente.
Ela retirou ento a carta do cesto e alisou-a com cuidado
antes de ler. Era um papel to bonito, to macio, quase como se fosse feito  mo, simplesmente nada na Amrica era feito
 mo, segundo acreditava.
"Caro Allen - escrevia Cynthia, com tinta roxo-escura, numa caligrafia larga e forte. - Fui ver tua me, conforme prometi. Falei-lhe da nossa pequena e querida Josui, 
descrevi-a, disse tudo o que pensava. No permiti que me interrompesse -tu sabes como ela , a sua voz corre como um rio prateado e, quando quer, no deixa ningum 
falar. Desta vez falei e ela foi obrigada a ouvir. Julguei que estava a fazer grandes progressos e j planeava mentalmente a nossa festa de Natal. Ela esperou que 
eu terminasse, sem dizer uma palavra. Mas eu devia ter suspeitado de que, durante todo esse tempo, estava a guardar o trunfo nas mos. Tu conheces aquela expresso 
to sua, aquele brilho de certeza inflexvel que lhe aparece nos olhos quando sabe que a razo est do seu lado.
"Allen, porque no falaste na lei? H uma lei. Era o seu trunfo. (Minha querida)- disse ela-(mesmo que fizesse o que me pede, existe a lei).
"No acreditei at falar com teu pai. No  estranho que possamos nascer e viver num lugar sem nunca tomarmos conhecimento das leis? H uma lei, Allen. No nosso 
Estado tu no podes casar com Josui. Teu pai disse que seria impossvel alterar a lei, que as pessoas tm de estar preparadas para essas alteraes. As leis nascem 
dos sentimentos e estes  que devem
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mudar. Mas na nossa cidade nada mudou desde a fundao, h duzentos anos.
"Penso sempre em Josui. Tu s um homem e ests na tua prpria terra. Acho que seria melhor construres o teu' lor em qualquer outra parte, Allen. Que mundo complicado 
este!
Sinceramente
Cynthia."
Josui leu cuidadosamente, palavra por palavra e a compreenso do que lera cresceu-lhe no esprito e invadiu todo
o seu ser como um veneno. Uma vez mais as portas da Amrica se tinham fechado para ela. Nem sequer estava casada com Allen. A lei proibia-o. Nunca poderiam casar. 
Lennie, Lennie!
Guardou a carta na gaveta da escrivaninha. Foi para a cozinha e molhou o pequeno assado que comprara pela manh, depois levantou a tampa das duas panelas onde as 
verduras esperavam, fumegantes. Por que razo Allen no lhe dissera nada? No tivera coragem para isso. Ento tambm ele tinha
o seu segredo, um segredo angustiante. Compreendia tudo agora, sabia por que razo Allen andava to triste, to impaciente. Era muito irrequieto, e Josui perguntara 
a si mesma se todos os americanos seriam assim. Nunca ficava tranquilamente sentado  noite, nem na sua companhia. A sua impacincia era uma energia crescente que, 
por fim, explodia numa tormenta de paixo quase feroz. Depois dormia, exausto. Mas
o ciclo repetia-se. Quantas vezes quisera descobrir porque no havia paz no seu amor. Agora sabia. As lgrimas brotavam-lhe dos olhos, e caam no soalho. O seu amor 
transformara-se em angstia. Que fariam?
Quando ele saiu do quarto de dormir, vestindo umas calas usadas, camisa velha e- chinelos, Josui correu ao seu encontro com os braos estendidos.
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- Oh, pobre Allenn! -soluou. - Estou to triste. A culpa foi minha por ter casado contigo. Trago-te a infelicidade quando gostaria que fosses feliz. Que posso fazer?
Ele apertou-a contra o peito:
- Vamos viver em qualquer parte, Pittysing. - Oh, havia tantas semanas que no lhe dava esse nome to docemente ingnuo! - Construiremos outro lar para ns. Esqueceremos 
a velha casa da Virgnia.
- Mas os teus antepassados construram-na para timurmurou ela. (Os antepassados eram como deuses. E seria possvel esquecer os deuses?)
Ele afagou-lhe as costas, acariciou-lhe os ombros com movimentos rpidos, nervosos.
- Desconfio de que a construram para si prprios, e da mesma forma podemos construir uma para ns. Serei rico. Farei uma casa maior e envergonh-los-ei a todos.
Josui sentiu-lhe o corao bater contra a sua face. Estava encolerizado, ofendido. Queria impor a sua vontade. Sentiu que o corao de Allen no batia por ela, mas 
por si prprio, e ficou imvel, as lgrimas secaram. Devia continuar a guardar o seu segredo. Um mundo de paz e segurana no pode ser construdo sobre a clera. 
No, precisava pensar, aguardar, ver o que devia fazer. Seu filho nasceria fora da lei. O amor fizera dele um pequeno criminoso, apesar da sua inocncia. Eram todos 
inocentes, mas o castigo recaa sobre ele. Poderiam separar-se, esquecer-se at um ao outro, mas Lennie no teria onde descansar a cabea. Oh, precisava pensar muito 
nisso!
- Vem - pediu, e afastou-se daquele corao que batia encolerizado. Secou os olhos no avental largo e curto que, por qualquer motivo, no tirava nunca. Usava agora 
aventaizinhos graciosos, guarnecidos de renda, que pareciam feitos s para enfeitar-lhe os vestidos. - Fiz um bom assado, Allenn.. Vamos comer e depois nos sentiremos 
melhor. Vem.
Entrelaou os dedos nos dele e sentaram-se. Depois colocou a comida quente na mesa; gostava de cozinhar e cada prato
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que servia era arranjado cone gosto, guarnecido com frutas ou verduras, pequenos pontos coloridos, um artifcio para agradar aos olhos. Allen notou, o que poucas 
vezes acontecia, e tomou-a nos braos.
- Josui, juro que no far diferena!
Ela fez o seu suave protesto habitual. Colocou-lhe a mozinha quente sobre os lbios.
- Por favor, no jures. Ns vivemos, nada mais.
Para surpresa de Allen, Josui parecia a mesma de sempre. No podia acreditar que ela tivesse compreendido inteiramente o significado da carta de Cynthia. Nunca sabia 
at que ponto ela entendia, jamais medira a extenso do conhecimento que Josui tinha do modo de vida americano. Parecia compreender tudo, aceitar tudo e, de repente, 
via que ela no percebera um detalhe essencial ou, se o percebera, o rejeitava como insignificante. Com o seu forte sentido da vida, talvez a prpria lei no fizesse 
diferena para ela. Sbitamente sentiu-se aliviado. Estava satisfeito por ela saber. Da por diante pretendia esperar, viver, como dissera ela, e trabalhar. Talvez 
o simples facto de viver trouxesse uma soluo. Comeu com vontade e, aps a refeio, sentiu-se dominado pelo sono.
- Um jantar maravilhoso, Pittysing - murmurou. Deitou-se no div e adormeceu.
Josui nunca lhe perguntara o que pretendia fazer. No se referia nunca ao dia nefasto em que chegara a carta de Cynthia. Continuava tranquila, supunha ele, mostrando-se 
sempre solcita, e, como agora j no alimentava dvidas, parecia imersa em calma. Allen sentiu-se imensamente aliviado. A sua maneira de japonesa, Josui compreendia. 
Era-lhe grata e no exigia nada. Ao aproximar-se o Natal, O Sr. Kennedy escreveu ao filho dizendo que ficariam contentes se ele pudesse ir a casa, szinho, ainda 
que fosse por um dia.
"Suponho que tua esposa, sendo budista, no observa essa data como ns", escrevia O Sr. Kennedy, como justificao. "Se
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eu estivesse s iria pass-lo convosco. Mas tua me ficaria muito satisfeita com a tua vinda. No foi ela quem deu a sugesto. A ideia foi minha."
Allen mostrou a carta a Josui, que a leu sem se alterar.
- Naturalmente - disse. -   teu dever. Tens de ir. Ficarei muito bem aqui. Talvez pea ao casal Sato que me convide para jantar. Por favor, faz-me feliz, Allenn; 
obedece a teu pai.
Mas Josui no foi visitar O Sr. e a Sr Sato, embora Allen estivesse ausente por muitos dias. Ningum foi v-la e ela ficou
szinha com Lennie. E assim, a ss, conversava com o filho,
explicando-lhe que no sabia o que fazer por ele. Pediu-lhe perdo, de joelhos, como se ele j houvesse nascido e estivesse agora diante dela, homem feito.
- Compreendes, meu Lennie, no era isto que eu queria. -Assim lhe falou no silncio do seu ser, em comunicao directa com ele, e as suas palavras sentidas infiltravam-se 
na mente adormecida da criana. - H duas boas casas em que tens o direito de nascer, a casa de meu pai e a casa do pai de teu pai. No te posso explicar a razo 
por que no h lugar para ti em nenhuma delas. No Japo, meu pai, teu av Sakai, est zangado comigo. Quando souber que a religio budista no tem valor algum aqui, 
onde existe uma lei, ficar certamente muito zangado. No terei resposta para dar-lhe, porque ele est com a razo e eu estou errada. Pensei que, tendo nascido aqui, 
eu tivesse razo. Mas h uma lei contra ti e contra mim, Lennie. No poderei mud-la e teu pai tambm no. Portanto, no lhe posso falar de ti. No perguntes porqu. 
Por favor, perdoa-me.
Quase todos os dias lhe dirigia, em silncio, palavras como essas. A lei, esse era o grande bloco de pedra no caminho, o- impedimento, o obstculo irremovvel, que 
nem mesmo o amor lograva destruir. Josui compreendia agora que Allen no amava smente a ela; amava tambm os seus antepassados, os seus pais, a sua casa, o lugar 
onde nascera. Eram todos amores dignos e no podia culp-lo por isso. Mas separavam-no dela;
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era uma estranha ante esses velhos amores. Para ela, era indispensvel amar nos moldes do seu povo, em que ela no se enquadrava. Josui sabia, agora, que Allen no 
era suficientemente forte para abandonar as coisas passadas e apegar-se nicamente a ela, e com ela construir um mundo novo que nenhum dos dois conhecera antes. 
Ela teria sido capaz, mas ele no. No entanto, no devia ser censurado por isso, como explicava a Lennie.
Apesar de estar s, no se sentia isolada. Alimentava-se bem, lembrando-se de que, dentro de si, Lennie se transformava numa criana forte. Mas que faria quando 
Allen voltasse? Impossvel continuar a esconder-lhe o segredo. No encontrava resposta a essa pergunta e, assim, continuava simplesmente a viver.
Na vspera do Ano Novo, embora Allen ainda no tivesse voltado, ouviu bater  porta. Foi atender, p ante p, um tanto alarmada, embora talvez se tratasse apenas 
do casal Sato que lhe viesse trazer um pequeno presente de festas. Abriu a porta cautelosamente. No limiar estava Kobori! Viu-o, alto e elegante nas suas roupas 
ocidentais, de bengala, chapu e luvas, com um sorriso no rosto comprido e liso, trazendo na mo uma caixa de flores.
- Kobori! - exclamou, incrdula e sbitamente feliz.
- Eu tinha-lhe dito que viria a Nova Iorque em negcios -respondeu ele.
- Oh, entre, entre! - disse Josui, satisfeita por ter vestido quimono. Vestira-se assim depois que Allen sara de casa, obedecendo a um impulso que no procurava 
compreender. Acabara de escovar os cabelos, pois dormira a maior parte da tarde. Mas no havia nada para comer no apartamento, nem mesmo quaisquer gulodices.
Kobori entrou, tirando o sobretudo e o chapu, a bengala e as luvas.
- Est s? - perguntou em voz amvel.
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- Allenn foi passar uns dias a casa - disse ela desembaraadamente.
- E voc?
- Oh, eu estou bem-respondeu Josui, animada -Muito bem!
- Mas no o acompanha quando ele vai a casa? Ela sacudiu a cabea.
-Ainda no.
- Ah! - exclamou Kobori.
Sentou-se, e ela deixou-se cair no pequeno div.
- Ento! - murmurou ele, continuando a fit-la, bondosamente. - Diga-me a verdade, Josui, por favor. Somos velhos amigos.
- Primeiro vou pr as flores no vaso - tornou ela. Pegou na caixa que Kobori ainda segurava e viu que lhe trouxera lrios chineses, de delicada fragrncia. Nessa 
poca do ano j se podiam comprar em Kyoto grandes molhos de razes bulbosas onde brotavam folhas de um creme claro com extremidade verde-jade.
- Tive receio de que fossem rosas vermelhas - confessou. Ele sacudiu a cabea.
-Acha que seria to tolo?
Ento, naturalmente, viu o que Allen no vira ainda. Percebeu a existncia da criana.
- Ah! - disse de novo. - Afinal no est szinha, aqui. H um pequeno terceiro personagem.
Ela inclinou a cabea sobre as flores enquanto as arranjava.
- Allen no sabe.
Kobori olhou-a com surpresa. Abriu muito os olhos e franziu os lbios um pouco grossos.
- como  possvel que um marido no saiba? Ele no deseja um filho?
Josui sentou-se junto  mesa em que colocara o jarro com as flores e, aspirando-lhes o perfume, falou a respeito da lei.
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Disse tudo em poucas palavras. Tudo era simples, claro, imutvel. Sentiu que podia cont-lo calmamente e sem lgrimas. Ele compreendia, e escutou sem interromper, 
movendo ligeiramente a cabea de vez em quando.
Quando ela terminou, Kobori suspirou fundo e recostou-se no espaldar da cadeira.
- Ainda assim, ser justo no contar a seu marido? Pode ser que, sabendo da existncia da criana, ele se modifique completamente.
- Oh, no! - acudiu ela. - Voc no compreende. Aqui uma criana no tem grande importncia. No modifica tudo como acontece entre ns. Aqui as geraes no dependem 
umas das outras.
-Mesmo assim...
- No - disse ela, impetuosa e inflexvel. Descobriu que tinha tomado uma resoluo definitiva. Jamais falaria a Allen sobre Lennie.
- Josui, que pretende fazer? - perguntou Kobori, suavemente. Estava emocionado, consternado com a descoberta que acabava de fazer.
Amara Josui a seu modo, plcidamente, e sofrera ao saber que a perdera, mas no com revolta, nem por muito tempo. Daquela dor s lhe restava uma profunda averso 
ao casamento. Esperava que tambm isso passasse e que, depois de ver Josui feliz uma vez mais, poderia entregar o corao a um casamento adequado e prudente com 
alguma jovem que seus pais lhe escolheriam. Queria dar-lhes netos e estabelecer uma famlia da sua prpria gerao. Um homem deve ter filhos.
Vendo agora a situao de Josui, os seus planos ficaram destrudos e sentiu-se de sbito profundamente agitado.
- No sei o que devo fazer - disse ela, inclinando de novo a cabea sobre os lrios. - S sei o que no farei.
Kobori suspirou.
- Seria melhor voltar para a casa de seu pai. Pelo menos, que a criana nasa no Japo. H crianas assim nos orfanatos,
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bem sabe. Os americanos deixaram muitos filhos como esse. Ser, simplesmente, mais um.
- No -repetiu ela.
-Tambm no? - murmurou Kobori.
Ficaram algum tempo em silncio, sentindo ambos o peso terrvel daquele nascimento inevitvel. Josui viu a agitao, a luta interna de Kobori.
- E voc minha cara, ainda o ama? - perguntou ele depois, sempre em voz baixa.
Josui ergueu rpidamente a cabea. A pergunta partia de Kobori, porm ela prpria j a fizera muitas vezes a si' mesma. Sim, amava Allen, mas era um sentimento morto. 
Am-lo-ia sempre, mas sem esperana. No deviam ter-se conhecido. Tinham nascido longe um do outro, e deviam ter vivido e morrido em partes opostas do mundo. No 
tinham sido feitos um para o outro, mas haviam desobedecido s leis eternas dos deuses. Josui no sentia revolta e quase nunca era invadida pelo desespero. Sentia, 
apenas, uma tristeza to profunda como a sua vida.
- De nada me serve am-lo - disse, simplesmente. Permaneceram de novo em silncio por longo tempo, pen
sativos. Por fim ele falou, hesitante e com muita delicadeza. - Quero dizer-lhe uma coisa, Josui, mas no sei como
faz-lo. Perdoe-me se falo quando talvez devesse calar.
- Por favor, fale-retorquiu Josui, sem voltar a cabea. Ele humedeceu os lbios.
-Se algum dia quiser regressar szinha ao Japo, por favor, volte para mim.
O doce aroma dos lrios tornou-se de repente excessivo, e ela afastou o jarro. Compreendeu imediatamente. Se no tivesse a criana, ele desejava-a para sua esposa.
-Tenho a criana- disse Josui.
Kobori no a olhou. Baixou os olhos para as mos, grandes e plidas entrelaadas sobre os joelhos.
- Desejaria poder ficar com ela - disse. - Sinceramente,
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desejaria que assim pudesse ser. Por mim, se fosse s, sem obrigaes para com pais nem antepassados, fazia-o. Pelo menos, creio que poderia faz-lo.
Falava com honestidade, perturbado, procurando ser generoso e bom. Josui compreendeu tudo isso, mas a sua mgoa no se abrandou.
- Agradeo-lhe - disse. - Talvez um dia me lembre do que acaba de dizer. No sei.
Levantou-se resolutamente. Uma palavra para alm daquilo teria sido de mais. A aflio inundava-a. Se trocassem mais uma palavra, no poderia conter-se.
- Vou preparar-lhe um ch - disse em voz animada, dirigindo-se para a cozinha. - Pelo menos ch tenho. Ando com tanta preguia que nem sa para comprar doces.
Ele deixou-a preparar o ch, observando-a atravs da porta aberta. No lhe teria ocorrido ajud-la, porque estava habituado a ser servido e ela no esperava outra 
coisa. Josui trouxe o bule laqueado e duas taas de perfumado ch verde, um pequeno luxo que proporcionava a si mesma. O ch verde, o ch japons era rico em vitaminas 
e ela tomava-o em grande quantidade. Depois de servi-lo, bebeu, segurando a taa dourada e preta na mo em concha.
- Fale-me de meus pais - disse. - No me escreveram, embora eu lhes tenha enviado duas cartas.
- Eu sei - respondeu ele. - Fui visitar seu pai antes de embarcar e ele disse-me que ainda est amargurado. Acha que no devia ter-lhe desobedecido.
pousou a taa.
- Por favor, - disse corajosamente - por favor, diga-lhe que ele tem razo.
Kobori ficou assombrado.
- Josui, voc que  to orgulhosa!
-j no sou - volveu ela com humildade. - No posso lutar contra a lei da Amrica. Est no corao do povo. E um __sentimento. Fazem as leis conforme o corao lhes 
ordena, e 
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isso o que sentem. Que posso fazer? Aonde irei esperar o nascimento da criana? Ela no tem onde encostar a cabea.
Ao dizer isso perdeu sbitamente todo o orgulho e todo o domnio de si. A calma mortal em que passara aqueles dias abandonou-lhe o corao e ela comeou a chorar 
alto, de maneira terrvel, escondendo o rosto nas mos enquanto o seu corpo era sacudido pelos soluos.
Kobori perturbou-se profundamente. Pouso a taa, e ficou
de p torcendo as mos. No lhe passou pela mente toc-la. - Vamos - disse -, vamos, isso  perigoso para si. Por
favor, Josui, no seu interesse; isso prejudica-a muito.
Esperou, suspirando e murmurando, at que, de repente,
ela parou envergonhada. Enxugou os olhos com as mangas e,
com grande alvio de Kobori, passou a falar normalmente. - Vai ficar na Amrica?
- Por vrios meses - respondeu ele, mais tranquilo. - Agora, naturalmente, ficarei at voc decidir o que vai fazer. Por favor comunique-me o que tiver resolvido. 
Peo-lhe que faa pelo menos isso. Aqui est o meu endereo. Se eu me ausentar ser s para ir a uma cidade vizinha por alguns dias. Deixarei o nome do lugar para 
que possa avisar-me.
Ela pegou no carto e colocou-o sob uma caixinha vazia em cima da mesa do canto.
- Se no receber notcias minhas - disse -  porque no tive necessidade de escrever-lhe.
- Mas, de qualquer maneira, deve pr-me ao corrente de tudo - insistiu ele.
Josui prometeu, sentindo que, de contrrio, ele no partiria.
- Muito bem, Kobori. Escrever-lhe-ei a avisar do que tiver decidido, mas talvez no seja j.
-Acredito na sua promessa.
Partiu ento, segurando com cuidado o chapu, as luvas e a bengala.  porta, inclinaram-se profundamente um diante do outro. Josui ficou  espera at que o elevador 
subisse,
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depois curvaram-se novamente, vrias vezes, enquanto o empregado do ascensor os olhava perplexo. A seguir, entrou para o apartamento e fechou a porta. Agora sabia 
perfeitamente o que devia fazer no interesse de Lennie. Na verdade no havia no mundo lugar para ele.
Corando de embarao, Josui dissera:
- Allenn, no te escreverei enquanto estiveres em tua casa.
Ele arrumava na mala a camisa de peitilho engomado.
- E porque no?
-Acho que  uma desobedincia a tua me - disse Josui.   introduzir-me secretamente na casa onde ela me probe entrar.
Allen protestou.
- Isso  absurdo. Tu no ests zangada por eu ir a casa?
- Oh, no, Allenn! S no quero escrever, para ser corts com tua me. Desejo obedecer-lhe.
Portanto, ele no esperava carta. A princpio nem pensou nisso. Quando entrou no grande vestbulo acolhedor, sentiu a antiga excitao infantil, o mesmo alvio, 
a convico de que ali tudo estava bem. Lembrou-se da sensao de desafogo de esprito, de abenoado repouso, que sempre sentira quando vinha da escola militar de 
Lexington para passar o Natal em casa. Ali havia paz e aprovao, ali era querido.
Tudo se assemelhava tanto aos velhos tempos que, quando a me veio ao seu encontro, atravessando com a sua graa vivaz as portas abertas da grande sala de estar, 
ele se voltou com o antigo amor impulsivo.
Ela aproximou-se de braos estendidos, com a fazenda leve do seu vestido de chiffon cinzento prateado a esvoaar-lhe em volta dos braos.
- Meu querido filho!
Os seus braos envolveram-no e ele sentiu novamente a fragrncia do seu perfume.
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- Ento, me... - A sua voz forte de homem no revelava a alma trmula de menino no seu ntimo. - S bem-vindo, querido!...
- Como soube que eu vinha? Pensei que fosse surpresa.
Ela afastou-o um pouco, rindo, com o rosto gracioso, to jovem sob os cabelos prateados, cheio de alegria triunfante.
-Teu pai no sabe fingir, nem por um instante, principalmente comigo. Oh, eu sabia! E depois... Logo no Natal? Querido!
O chiffon cinzento envolveu-o outra vez como uma leve teia de aranha. Sentiu-lhe os dedos finos, fortes, segurar a sua mo direita.
- Vem para perto da lareira. Ainda no terminmos a rvore. Precisas de ir pr a estrela na ponta, como sempre fazias. Nunca mais tive uma estrela ali enquanto estiveste 
fora. Cynthia est aqui para o ch.
Pronunciou o nome de Cynthia despreocupadamente, sem lhe dar tempo a imaginar razes ocultas. "Cynthia est aqui para o ch".
- Cynthia, aqui est ele. Eu bem disse que viria. Tinha a certeza!
A jovem usava uma blusa de malha vermelha com o vestido preto e tinha um molho de vagas de azevinho nos cabelos louros. Cumprimentaram-se como se se tivessem separado 
dez minutos antes; sempre fora assim.
-Senta-te - disse Cynthia. - Estive a servir o ch. Tua me est com um dos seus ataques de preguia, hoje.
-  porque me sinto muito feliz- exclamou a me.
Ouviram o ranger da pesada porta da biblioteca, o arrastar de chinelos de couro, e seu pai entrou.
- Quem falou em ch? gua quente, nada mais! Diga a Harry que me prepare um martini. Allen, tomas um comigo? Deixa o ch para as damas.
- Com todo o gosto, pai.
Apertaram-se as mos com fora e afastaram-se logo.
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Harry trouxe os martinis, to depressa que j devia t-los preparado com antecedncia. Cumprimentou o jovem com voz macia.
- como vai, senhor Allen?  bom v-lo em casa novamente. Feliz Natal, senhor Allen...
Bem, naquela cidadezinha situada logo depois de Richmond, no Estado de Virgnia, ainda existe a perfeiopensou Allen, e decidiu empregar todo o seu esforo para 
conserv-la, num mundo cheio de imperfeies. A perfeio era coisa rara, preciosa, que no devia ser desperdiada, era uma ilha no meio do mar revolto, a segurana 
no torvelinho da catstrofe. De sbito, Allen percebeu intensamente, uma a uma, as belezas daquela sala: as rosas amarelas, rosas de estufa que sua me cultivava 
num mundo onde tambm se fabricava a bomba atmica; as cortinas de azul-desmaiado, afastadas da janela de Oeste para que se pudessem apreciar os ltimos raios do 
pr do Sol hibernal; o fogo que crepitava nos toros de madeira sustentados por grossas barras de cobre polido; os sofs e poltronas estofados de cetim, o piso lustroso 
e os tapetes espessos; uma sala aps outra, tudo era brilhante e limpo, como se no custasse trabalho ou dinheiro, embora ele soubesse muito bem o que aquilo representava. 
Tinha direito  sua herana, a menos que preferisse desistir dela. Loucura!
E Cynthia estava ali, sentada junto  pequena mesa tauxiada de pau-rosa sobre a qual se encontrava a bandeja de ch, de prata, tambm herana de famlia, e que devia 
pertencer-lhe como tudo o mais. Cynthia teria sempre a mesma aparncia, em qualquer idade, pois tambm ela era dotada de beleza duradoura, e o seu lugar era naquela 
casa. A lei l estava, a protectora lei proibitiva; poderia escudar-se nela se fosse preciso.
Os dias passaram na sua tradicional marcha solene. Allen prendeu a estrela no ramo mais alto da rvore e voltou a ser criana. Penduraram as meias sob o consolo 
de mrmore branco da lareira, que seu trisav trouxera da Frana, havia
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muitssimos anos; riram, na manh do Natal, dos presentes engraados, do macaco de brinquedo e do pequeno urso de Berna, mas, no fundo da sua meia, Allen encontrou 
o alfinete de gravata com prola negra que fora de seu av e representava um tesouro.
Sua me retribuiu-lhe com um sorriso o olhar reprovador.
- Mais tarde ou mais cedo seria teu, e porque no agora? Sou de opinio que no se deve dar tudo de uma s vez. J disse a teu pai que pretendo passar para o teu 
nome tudo o que tenho para dar-te, querido. Falaremos nisso um dia destes.
Esse dia era sempre o seguinte, e novamente o seguinte, e por fim adiou-se o assunto porque o advogado da famlia fora passar o Natal em Miami e s estaria de volta 
depois do Ano Novo. E, sem dvida, disse sua me, a vspera do Ano Novo era to importante como o Natal, por causa do baile. Cynthia reservara inmeras danas.
Foi enquanto danava com Cynthia que tiveram o seguinte dilogo:
- Conseguimos no falar no assunto- disse ela.
- Eu at consegui no pensar nele-retorquiu Allen- Ainda no tens nenhum plano? - Nenhum.
Enquanto tua me vai tecendo as teias? - Ela est a tecer?
-  claro! Quando uma mulher ama um homem, embora seja seu filho - mas, naturalmente, tua me ama-te porque tu s o filho dela, e ama-te mais do que a qualquer outra 
pessoa no mundo - essa mulher tece as suas teias.
- E tu tambm no teces?
- Procuro no o fazer - respondeu ela, quase bruscamente.
Pareceu-lhe ver uma estranha hostilidade nos seus olhos azuis. Fitava-o impvidamente, sem dissimulao, mas o seu olhar no era suave.
Enquanto danavam com o antigo desembarao, ele dizia
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a si mesmo que j devia ter voltado para Nova Iorque, que no devia ter esperado pela herana; mas, por outro lado, alimentava no ntimo, com avareza, a ideia de 
que, se agora tivesse mais dinheiro, lhe seria mais fcil insistir no casamento com Josui, ou, talvez, construir a sua casa em qualquer parte, transplantar-se, desenvolver-se 
num mundo por ele criado. Isso justificava a demora, mas, naquela noite escreveu a Josui, depois do baile, sinceramente inquieto por ter-se sentido perturbado com 
a proximidade de Cynthia, tentado talvez pela reserva inslita com que o tratara, pela atitude firme, cuidadosamente mantida, com que lhe dera a entender que ele 
era casado e, portanto, no entrava em causa.
Josui no lhe respondeu  carta, mas ele no esperava que o fizesse. Dentro de poucos dias estaria com ela. O Ano Novo decorreu numa troca de visitas, de casa em 
casa, com amigos que entravam e saam, e Allen a correr de um lado para outro, fazendo visitas por sua conta, sem ouvir nunca, onde quer que estivesse, uma pergunta 
sobre Josui ou sobre os motivos por que vivia longe de casa; nenhuma pergunta, apenas a velha e acolhedora aceitao da sua presena, as habituais exclamaes de 
alegria: "Ento, Allen, h anos que no nos vimos!" Vozes femininas, claras como sinetas de prata, sem significado algum porque soavam  chegada de quem quer que 
fosse, e que, contudo, representavam tanto porque exprimiam uma cordialidade sincera.
Aquele era o seu sistema de vida. No podia ser excludo dele, nem mesmo pelo amor. No entanto, que havia de fazer para salvar-se?
Aps outro dia em que tambm no viera carta de Josui e ele no telefonara, o que poderia ter feito se ela no lhe tivesse dito que isso tambm seria desobedincia, 
Allen, deitado na cama da sua meninice, considerou desesperadamente o que poderia fazer. De nada adiantava agora suplicar a sua me ou incitar seu pai. A lei estava, 
inexorvel, acima de todos, escudando sua me. Ela lanaria toda a sua culpa e m vontade
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sobre a lei. Podia imagin-la exclamando, com os lindos olhos muito abertos: "Mas Allen, querido, a culpa no  minha! No fui eu que fiz a lei". Outros como ela, 
porm, a tinham feito.
Acolheu-se ao nico refgio que conhecia, e que era deixar de pensar. Afundou-se no conforto e na beleza da slida e antiga manso.
Quando O Sr. Haynes, o advogado, voltou de Miami, Allen foi chamado  biblioteca e ali ficou a saber o que sua me determinara. Ela estava l, tensa, sentada junto 
 extremidade da longa mesa de mogno, no aposento iluminado pelo sol de Inverno, atravs das cortinas de veludo dourado que desciam do tecto.
O Sr. Haynes parecia morder o ar quando falava; era um velhinho de rosto mido e nariz vermelho, cuja pele parecia agora descascada pela aco do sol da Florida.
- Allen, sua me tomou uma deciso generosa. Ps a casa em seu nome.  sua, agora.
Ele ficou atordoado, balbuciou:
- Mas eu pensei que a casa lhe pertencesse, pai...
Seu pai estava sentado perto de uma das janelas altas, grisalho e murcho no aposento luminoso. Respondeu secamente:
- Dei esta casa a tua me quando nos casmos. Ambos sabamos, naturalmente, que passaria ao filho mais velho, assim como eu a recebi de meu pai. Achei que uma mulher 
precisa de ter a sua casa.  uma salvaguarda na vida.
- Tu deixar-me-s no meu canto, querido. Tenho a certeza - disse sua me.
- No aprovo isto - observou o pai.
- Eu no quero a casa - declarou Allen.
- Por favor, querido - pediu sua me. - Eu quero que
seja assim.
- No me agrada isto - insistiu Allen.
Mas agradava-lhe. Passeou o olhar pelo grande aposento que agora lhe pertencia. Devia ter suspeitado de que sua me
239
tecia a sua teia, mas, fizesse ela o que fizesse, l estava a lei como estivera antes, a resguard-lo tanto do bem como do mal.
- No posso viver aqui - disse abruptamente.
-Talvez possas algum dia-redarguiu a me em voz alegre.
Assim, contra o seu desejo e contra a opinio do pai, como lhe acontecera tantas vezes na vida, fez-se o que sua me desejava. E, consumado o facto, sentiu uma estranha 
e revoltante sensao de posse. A casa ter-lhe-ia pertencido de qualquer forma, pensou, procurando no exultar. Tornara-se sua apenas um pouco antes do tempo. Mesmo 
que tivesse construdo uma casa para si noutro lugar, aquela teria sido sua e ento seria preciso decidir, de uma vez por todas, onde iria viver.
Partiu naquela tarde para Nova Iorque. Era noite quando chegou  cidade e o txi parou em frente do edifcio de apartamentos. Um empregado desconhecido levou-o para 
cima, um homem a quem nunca vira antes, algum contratado recentemente, sups Allen, e no falou com ele. Tocou a campainha do apartamento, esperando que Josui abrisse 
a porta, e o seu corao cheio de remorsos bateu mais depressa. Oh, tinha de encontrar o meio de compens-la por uma poro de coisas.
Mas a porta no se abriu. Tocou novamente, pois era possvel que estivesse a dormir. Josui tinha a faculdade de dormir a qualquer hora, como um gatinho, enroscado 
em cima de um sof ou mesmo entre as almofadas do soalho.. Mas a porta continuou fechada. Por fim, teve de procurar a chave de sua casa, e abrir ele mesmo a porta. 
O apartamento estava s escuras. Sentiu o ar abafado e seco, por causa do aquecimento central. O silncio era absoluto.
- Josui! - chamou alto.
No teve resposta. Acendera a luz, ao entrar, e correu para o quarto de dormir. Ela no estava l. A cama estava cuidadosamente feita, o soalho limpo. Abriu as portas 
do armrio
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embutido e viu smente as suas prprias roupas penduradas. Ela fora embora.
A convico dessa realidade caiu sobre ele com um peso aterrador. josui partira! Como poderia encontr-la? Conhecia bem as possibilidades de desespero do seu corao 
de japonesa. Ela chegara a alguma resoluo extrema, que lhe ocultara com a sua animao deliberada, com a sua doura submissa. O que vira, o que conseguira compreender, 
jamais saberia. Deixou-se cair na beira da cama, sbitamente abatido, esmagado pela dor e pelo remorso. Ocultou o rosto nas mos e amaldioou-se intimamente, no 
porque Josui o abandonara, mas porque, acabrunhado de remorso, consternao e vergonha, sentiu que estava satisfeito por ela ter partido.
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QUARTA PARTE

Josui desceu lentamente a rua. Todos os dias, enquanto esperava o nascimento de Lennie, dava longas e tranquilas caminhadas sem falar com ningum e sem que pessoa 
alguma lhe falasse. Lembrava-se daquela rua. Era surpreendente como se recordava ainda de Los Angeles, como tudo lhe voltava  memria. A cidade era-lhe familiar 
e todavia no representava para ela a terra natal pois descobrira que a lembrana mais ntida era a da partida sbita, a clera de seu pai quando soube que deviam 
sair dali. Um dia foi ver a casa de que se recordava to bem. Estava agora ocupada por uma famlia de negros, limpos e sossegados. Josui no entrou, mas viu as crianas 
brincarem no pequeno ptio onde ela mesma costumava brincar com Kensan. At o velho balouo l estava; seu pai empregara nele cabos de metal que continuavam to 
fortes como naquela poca. Os negrinhos gritavam de alegria, apinhados no balouo.
   Naquele dia, porm, Josui ia dar mais um passo obrigatrio. Levantara-se cedo, tomara banho cuidadosamente, vestira um fato azul-marinho que tinha adquirido havia 
pouco tempo e cujo casaco pregueado lhe disfarava o corpo. O dinheiro que seu pai deixara no banco de So Francisco era suficiente para comprar a roupa e pagar 
o quarto na penso barata de uma mexicana que mal falava ingls, e tambm para a sua alimentao. Quanto ao resto, tinha que depender da caridade.
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Que a caridade fizesse o que o amor no podia fazer; que a caridade permitisse, igualmente, o que a lei proibia. Indagara de uma pessoa estranha onde ficava uma 
instituio de amparo  criana e agora aproximava-se da casa, situada numa rua lateral onde os aluguis eram baratos. A porta estava aberta. Entrou, e sentou-se 
na sala de espera. Havia ali mais duas mulheres - mulheres no, crianas. Uma delas, talvez de catorze anos, era uma rapariga plida de olhos cansados. Estava grvida, 
o corpo inchado, os lbios descorados. No tinha encanto nem beleza, nada alm da simples feminilidade que entregara a algum rapaz em troca de um pequeno prazer, 
talvez um encontro no cinema, ou um simples sorvete. Quem poderia saber? O seu vesturio compunha-se de farrapos. Um
pedao de renda rasgada e suja aparecia sob a saia.
A outra chorava; era loura, de cabelos platinados, o baton sujo pelas lgrimas. Magra, tossia ao chorar. As pernas, metidas em meias baratas de nylon, eram muito 
finas e as mos estavam carregadas de jias de fantasia, mas no usava aliana.
Josui sentou-se, entrelaou as mos e ficou  espera. A menina foi chamada ao escritrio e algum tempo depois saiu, parecendo mais animada. A seguir entrou a rapariga 
loura e Josui ouviu-a chorar alto. Passado muito tempo apareceu, escondendo sob o vu o rosto inchado, e tambm ela se retirou. A secretria olhou indecisa para 
Josui.
- O seu nome, por favor?
- Sakai.
- Entre.
Foi introduzida num pequeno escritrio onde viu uma
senhora de idade madura e fisionomia branda, sentada atrs de
uma velha escrivaninha.
-Josui Sakai? - Sim, senhora.
- Em que posso ajud-la?
-Ouvi dizer que tomam conta de crianas - disse Josui,
com hesitao. Como dar incio ao que tinha para contar?
246
- Espera um filho? - perguntou a senhora, profissional e bondosa.
- Sim... no imediatamente. Mas preciso preparar-me. No tem famlia?
- Ningum - respondeu Josui.
A velha senhora ia escrevendo com letra clara e elegante o que ela dizia.
- Pretende ficar com o filho?
- No - disse Josui. - Estou szinha. No posso ficar com ele.
Ensaiara tanto aquela frase que as palavras agora lhe saam quase com facilidade.
Oh, Lennie, Lennie que trazia no fundo do seu ser. Estava to quieto como se compreendesse o que ela dissera.
- Sou a Sr Bray - disse a mulher amvelmente. - Pode contar-me alguma coisa a seu respeito?
- Estou szinha - repetiu Josui. - No h nada mais para dizer.
- Pode revelar-me quem  o pai? - perguntou a Sr Bray. -S quero ajud-la.
-  americano, branco - respondeu Josui. - Eu sou americana de ascendncia japonesa.
- Compreendo - disse a Sr Bray com relutncia. Demorou-se a olhar a visitante. Uma jovem linda, de atitude reservada, quase fria. Um caso lamentvel, pois quem 
iria querer uma criana em parte branca, em parte japonesa? Isso, porm, comeava a tornar-se uma histria vulgar, em face das guerras que irrompiam nos lugares 
mais incrveis. Dois dias antes, fora obrigada a aceitar uma criana coreana de dois meses de idade. Quem iria querer uma criana dessas? At os asilos as rejeitavam. 
A Sr Kisch era uma das melhores directoras de asilo, mas dissera que o pequeno coreano, com aqueles olhos estranhos, lhe dava arrepios. A Sr Bray colocara-o num 
orfanato de negros e desde ento sentia remorsos, pois, na verdade, um coreano no era um negro,
247
- Esse homem no assumir uma parte da responsabilidade? - perguntou.
- No quero que saiba - disse Josui.
A Sr Bray protestou.
- Oh, mas isso no est certo, minha querida. Os homens deviam ficar a saber. Saem-se sempre bem destes problemas, e no devia ser assim. Por favor! Posso falar 
com ele em seu lugar.
- No, obrigada - disse Josui, com deciso.
A Sr Bray perdeu a pacincia. Nunca tivera um namorado em toda a sua vida, e no podia compreender as raparigas que no queriam que os homens soubessem o que tinham 
feito. Largou o lpis e ajeitou os culos no nariz fino.
- Escute, Sr...
- Sakai - completou Josui.
-Ah, sim. Os nomes estrangeiros so to difceis de recordar. O que eu ia dizer  que vai ser extremamente difcil colocar o seu filho em alguma casa. A adopo 
 quase impossvel, a senhora compreende. Ningum quer uma criana de sangue misto. J tentei muitas vezes, mas sem resultado. Nenhuma das partes a quer.
- Eu sei-murmurou Josui.
- Com certeza tem algum parente - insistiu a Sr Bray.
- Ningum - insistiu Josui em voz apagada.
- No querem a criana, no  verdade?
Ela no pde responder. Estava decidida a no chorar e o esforo imenso fechara-lhe a garganta.
A Sr Bray suspirou.
- Bem, veremos o que se pode fazer. Talvez ele no saia muito esquisito, j que  em parte branco. Pode ser que eu encontre uma ama.
- Ama?
-Algum que aceite a criana contra remunerao - explicou a Sr Bray. - A senhora poderia contribuir para o seu sustento?
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- Penso que sim - disse Josui.
Sentia-se atordoada. Nunca pensara seriamente no que iria acontecer a Lennie, apenas imaginara que devia haver em qualquer parte um orfanato onde as crianas brincassem 
na relva  sombra de grandes rvores. Lembrava-se de ter visto, muito tempo antes, um lugar assim, perto de Los Angeles. As crianas pareciam felizes, mas naquela 
ocasio no as vira de perto.
- Se a senhora puder pagar, facilitar as coisas - disse a Sr Bray. Pegou no lpis e comeou a escrever novamente.
-Onde pretende ter a criana? - perguntou.
- No sei - respondeu Josui. Conseguira vencer as lgrimas e tinha a garganta livre. - Farei o que a senhora me indicar.
-  melhor ir para um hospital. Vou dar-lhe um endereo. Pergunte pela Dr Steiner;  uma mdica refugiada, mas boa e atenciosa. Iremos buscar a criana ao hospital. 
Suponho que no querer v-lo...
- Quero, sim- disse Josui.
A Sr Bray encolheu os ombros e acabou de escrever. -Se tem a certeza de que no vai ficar com o seu filho. aconselho-a a no o ver antes.
- Preciso v-lo - disse Josui.
A Sr Bray encolheu os ombros e acabou de escrever. - Qual a data provvel?
- Em junho, creio.
- O seu endereo?
Ela forneceu-o.
- Procure a Dr Steiner, de vez em quando - aconselhou a Sr Bray. - Convm fazer um exame regularmente. Se mudar de ideia, por qualquer motivo, avise-me.
Estava terminada a entrevista que Josui tanto temera. Lennie podia nascer, algum tomaria conta dele. Levantou-se e fez uma graciosa reverncia.
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-Obrigada, Sr Bray.
- No tem de qu - respondeu a outra cortsmente, pensando j noutro assunto.
L fora, na sala, havia mais trs mulheres  espera; jovens, infelizes, no olhavam umas para as outras. Josui passou rpidamente por elas e saiu para a rua naquela 
manh suave. Faltava agora procurar a Dr Steiner, a quem devia ver, mas no quis faz-lo nesse dia. Sentia-se cansada, estava apreensiva por Lennie continuar to 
quieto. Saberia que seriam obrigados a separar-se?
Dirigiu-se a um pequeno parque e sentou-se para descansar. Ali estavam duas ou trs mes com seus filhos. Ps-se a observar. Eram brancas e os filhos tambm, o que 
era agradvel, pois mes e filhos podiam ficar juntos. Josui no se permitia pensar em Allen. Cada vez que a sua imagem lhe vinha ao esprito, afastava-a logo, apagava-a. 
Ele j devia saber que nunca mais se veriam. No lhe deixara nenhum bilhete, nada. Partira, simplesmente, levando as suas roupas e os seus objectos, tudo o que trouxera, 
as poucas coisas que lhe pertenciam. A essa hora Allen j teria entregado o apartamento e devia estar em casa com os pais. S Kobori sabia o seu paradeiro; mas proibira-o 
de ir v-la at que tudo tivesse passado e ela soubesse o que fazer. "Quero viver Szinha at ter visto o rosto de meu filho", escrevera Josui. Mas dera-lhe o seu 
endereo, pedindo, no entanto, que no a procurasse.
Pensou novamente na desesperada possibilidade de ficar
com Lennie. Mas como? Poderia viver sem lar e sem famlia, s com a criana? Compreendia muito bem o que Allen sentira. No o culpava. O que ele ambicionava era 
natural, em si uma coisa louvvel. Apenas na sua ambio no havia lugar para Lennie, assim como no havia lugar para ele em casa do Dr. Sakai. Ningum era culpado, 
seno a lei. Era a lei que proibia e, no entanto, no pudera evitar o nascimento de Lennie, porque no fora capaz de impedir o amor que levara
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 sua concepo. A lei nunca tomava em considerao o amor. Josui ainda amava Allen. Sempre o amaria, assim como ns amamos os mortos, que os vivos no podem substituir.
A Dr Steiner observou a bela japonesinha com curiosidade. O rosto jovem e plido era inexpressivo, quase uma mscara do teatro Noh, e podiam imaginar-se os olhos 
como os buracos vazios da mscara. Era um rosto vigoroso, apesar dos traos suaves e da pele delicada que parece comum aos povos orientais. Talvez o vigor estivesse 
na calma resoluta dessa jovem que, evidentemente, se preparara para a tragdia. A Sr Bray falara-lhe em Josui Sakai e ela esperava a visita com interesse. No conhecia 
nenhum japons, embora a Alemanha, seu pas natal, tivesse considerado o Japo a sua esperana no Oriente durante a guerra.
- Ento no me quer dizer nada?  peguntou pela quinta vez.
- Por favor, no - respondeu Josui, plcida mas irredutvel.
A Dr Steiner, era baixa, gorda, e tinha plena conscincia do seu rosto anguloso e feio. No alimentava qualquer ressentimento contra os outros pela sua aparncia. 
Cedo na vida se conformara com a sorte. Dificilmente se poderia esperar que um homem quisesse casar com uma mulher que mais parecia uma escultura primitiva talhada 
em rocha cor de cinza. Por isso, sinceramente grata  boa sorte que lhe dera um crebro excelente, renunciara a todas as ideias romnticas e tornara-se uma cientista, 
mas de grande corao. O ltimo resqucio da tristeza do seu ntimo s se traa na humildade e admirao com que olhava a beleza de qualquer ser humano, homem, mulher 
ou criana. E foi esse o olhar que dedicou  sua visitante.
Josui, no entanto, depois de muitas semanas, estava impermevel a quaisquer sentimentos de admirao ou piedade. Sentia sempre frio espiritual, e mentalmente, e 
esse frio penetrava-lhe
251
o ser de tal modo que lhe gelava o prprio sangue.
Naquele momento as suas mos e ps estavam gelados e a
Dr Steiner percebeu-o ao mover-se pesadamente em torno da
mesa em que Josui estava deitada sob um lenol.
- Porque est to fria, minha querida? - perguntou. Faz calor hoje, pelo menos eu sinto-o.
-Sinto sempre frio-replicou Josui.
- Fique  vontade, por favor- pediu a Dr Steiner. No posso examin-la com os msculos contrados.
Mas Josui no conseguia relaxar o corpo. Permaneceu hirta como uma esttua de mrmore, a que, na realidade, se assemelhava. Estava sob a tenso da espera. No pensava, 
no sentia, no queria lembrar-se de coisa alguma. Todas as semanas recebia uma carta de Kobori, longa, amvel, cheia de detalhes interessantes e de inalterada bondade. 
No lhe exigia uma deciso, mas Josui sabia da sua esperana e punha-a de lado. Tinha primeiro de realizar a grande tarefa de trazer a criana ao mundo. Enquanto 
no estivesse separada de Lennie, no 
poderia decidir para onde iria e o que faria da vida. Na medida
do possvel, esperava sem pensar nem sentir. Contudo, s vezes, quando  noite no conseguia conciliar o sono, deitada no colcho fino e duro da cama estreita, incapaz 
de tomar um sedativo porque, afinal de contas, Lennie tinha direito a todas as oportunidades de vida, comeava de repente a sentir, no a pensar, a sentir smente, 
como se o sangue lhe jorrasse de uma ferida coberta de ligaduras. Ento todos os seus sentimentos se transformavam numa agonia, no pelo passado, mas porque jamais 
poderia ver Lennie, viver com ele, acompanhar-lhe o crescimento, ouvi-lo falar ou v-lo sorrir, banhar-lhe o corpinho irrequieto, conhec-lo como viria a ser, pois 
convencera-se, aps longa meditao, de que a Sr Bray tinha razo. No deveria ver Lennie; caso contrrio, seria incapaz de separar-se dele. Sabia, ou receava que, 
se lhe visse o rosto ainda que uma s vez, isso aconteceria. E afligia-se, sentindo uma dor que ultrapassava todas as dores que a mulher conhece; tinha o
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corao partido, na verdade, mas principalmente porque era obra sua, e  dor unia-se o sentimento de injustia feita a Lennie. To pequeno, desamparado e inocente, 
era obrigada a entreg-lo  prpria sorte. Pois a estava: ainda que o conservasse consigo, prejudic-lo-ia, a ele que nada fizera de mal. As leis da natureza tinham-no 
chamado  vida, o amor cumprira a sua misso, a voz de apelo alcanara-o entre as sombras e ele atendera-a alegremente. Era uma criana alegre, tinha a certeza disso; 
os movimentos do seu pequeno corpo dentro dela davam-lhe a convico da sua intensa felicidade. Nadava como um peixinho na alvorada, quando as montanhas estremecem 
aos primeiros raios de sol. Acordava-a depois de uma noite de lgrimas para consol-la com o seu riso, esperando para libertar-se. Esse era o maior dos seus pesares: 
ela nunca ouviria o riso de Lennie..
- Corre tudo muito bem - disse a Dr Steiner. - A sua sade  boa. O seu organismo funciona normalmente apesar de tudo.
-Muito obrigada -respondeu Josui.
Desceu da mesa e comeou a vestir-se. O pudor f-la voltar-se de costas e a Dr Steiner ficou a observar a sua figura bem torneada, a pele cor de marfim, o cabelo 
macio, denso e negro.
- Venha ver-me todos os meses - disse bruscamente, com forte sotaque alemo. - Estarei ao seu lado na hora do parto. Acho que tudo correr bem.
- Obrigada - tornou a dizer Josui na sua voz suave. Vestiu apressadamente as ltimas peas de roupa, ajeitou de novo os cabelos e saiu.
Depois que ela partiu, a Dr Steiner telefonou  Sr- Bray.
- Examinei a jovem japonesa - disse em voz bem alta,
como fazia sempre que falava ao telefone. -  uma criatura
extraordinria, muito bela e muito sadia. Certamente algum
adoptar a criana. V-se logo que  uma aristocrata, e uma
mulher assim no escolhe um homem estpido. De modo que
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a criana, alm de bela e sadia, ser inteligente. Na sua lista de pessoas que desejam adoptar um filho, no haver algum que saiba dar valor a esse tesouro?
A voz nasal da Sr Bray soou ao telefone, seca e pessimista como sempre:
- Vai ficar surpreendida. Temos uma lista de trezentos e dezassete casais, todos a pedir crianas que no existem, e a culpar-me porque no lhes posso arranjar filhos, 
mas aposto um dlar em como nenhum deles querer essa criana.
A Dr Steiner comeou a gritar.
-Ah! Uma democracia destas faz-me lembrar o maldito Hitler! Eu tenho um oitavo de sangue judeu, mas para Hitler era cem por cento judia.
A Sr Bray no respondeu. Era prudente e, aprendera h muito tempo a acreditar o pior a respeito de todos os seres humanos. Gostava bastante daquela mdica atarracada 
e desgraciosa, que dizia exactamente o que pensava, e sabia que a Dr Steiner tambm simpatizava com ela,  sua maneira um tanto distrada. Tinham frequentes oportunidades 
de trabalhar juntas, e a mdica protestava sempre quando crianas mexicanas ou negras eram impiedosamente entregues a orfanatos superlotados.
- Ningum os quer - explicava a Sr Bray, pacientemente. - Os brancos nem pensam em aceit-los e os mexicanos e negros j tm filhos de mais.. No compreende isso?
- No - berrava a Dr Steiner. - Uma criana,  uma criana, no ? - E, em vez dum sorriso, fazia uma careta. Mas a Sr Bray nunca ouvira falar em Gertrude Steiner 
e imaginava que a Dr Steiner estava apenas a ser alem de modo obscuro e pessoal.
Certa ocasio, a Dr Steiner perguntara-lhe de chofre: - Nunca teve um filho, pois no, Bray? A outra corara e logo empalidecera.
- Depois de tudo quanto vi, no pensaria em trazer uma 
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criana ao mundo, ainda que pudesse. Por mim, poria um termo a isto durante cem anos.
- E depois comearia novamente? - perguntara a Dr Steiner, com interesse.
- S com permisso legal e mediante prova de que a criana poderia ser sustentada - respondeu a Sr Bray, com mais vivacidade que de costume.
A Dr Steiner pusera-se a rir.
- Depois de cem anos talvez j no houvesse um s casal.
- Algum teria arranjado um filho s escondidas declarara a Sr Bray, com a sua hostilidade habitual contra a reproduo.
- E ento? - dizia neste momento a Dr Steiner, speramente. - No diz nada?
- Estou a pensar - disse a outra, em tom hesitante. - No me ocorre nenhuma soluo. Acho que a criana ter mesmo de ir para o orfanato da zona oeste.
- L no h nem um metro de espao para colocar outra criana - gritou a mdica.
- Bem, que hei- De fazer ento?
- Isso  consigo, Bray - berrou a Dr Steiner. - Encarrego-me de trazer a criana ao mundo viva e sadia.  essa a minha funo, e nada mais.
Pousou o auscultador com violncia e passou a manga na testa. Suava sempre que ficva furiosa, o que acontecia frequentemente. Devia evit-lo, porque era muito gorda. 
Na Amrica h muita coisa boa para comer e ela comia bem, depois da fome que passara nos campos de concentrao da Alemanha. As suas formas no interessavam a ningum 
e no fazia questo de viver muito tempo, nem mesmo na Amrica.
Gritou para a sua tmida enfermeira:
- O caso seguinte... depressa!
Os meses estranhos foram passando. Os dias eram vazios e as noites, abismos de escurido. Josui chorava menos  medida
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que se aproximava a hora da separao. A mente recolhia-se e o corao dormia enquanto o corpo se preparava para a prova. O nascimento  uma batalha entre a mulher 
e a criana. A criana luta pela sua liberdade contra a me, a mulher entesoura a prpria vida. Protege-se para, no futuro, poder dar  luz outra vez, ou simplesmente 
para subsistir. A sua tarefa est concluda, o seu corpo cumpriu o dever para com a sua gerao. Afasta-se, desfalece.
- Ah, ah! - exclamou a Dr Steiner, exultante.
Pegou na criana que aguardava, um menino pequeno e rechonchudo, nascido com alguns dias de atraso, mas fisicamente perfeito. Esperara com surpreendente interesse 
e at com impacincia aquela criana. Durante toda a Primavera notara, a princpio achando graa a si mesma e depois com excitao, o interesse que tomava por aquela 
criana indesejada. Seria extraordinrio esse pequeno ser, esse filho do mundo, como passara a cham-lo - um aventureiro, nascido a despeito de todas as leis e dios, 
uma criana arrojada, criadora de um mundo novo.
- Ah! - disse suavemente, olhando o garoto. Sabia que os seus olhos ainda no conseguiam ver, mas davam a impresso de a olhar. Tinha grandes olhos negros e um rostinho 
alegre. - Um menino! - gritou para Josui.
Josui, que ainda dormia sob o efeito do anestsico, no respondeu.
- No leve a criana - ordenou a Dr Steiner  enfermeira. - Quero atendi-la eu mesma.
A enfermeira embrulhou o recm-nascido num velho lenol limpo e deitou-o numa cama vazia. A Dr Steiner aproximou-se e ficou a olhar para Lennie.. A jovem me falava 
muito pouco, mas, nessa manh, antes de lhe ser aplicado o ter, afastara a mscara delicadamente por alguns segundos e dissera  mdica em voz baixa:
- Por favor, duas coisas que  preciso recordar. No quero ver a criana, e o seu nome dever ser Lennie.
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- Nenhum sobrenome? - perguntara a Dr Steiner.
-Nenhum -respondeu Josui. Depois, torcendo-se de dor, colocara resolutamente a mscara sobre o rosto.
- Lennie! - disse a mdica, por experincia. O nome adaptava-se bem a ele. Tinha o rostinho liso, muito plido, sem nenhuma vermelhido, e o seu corpinho mido era 
perfeito. A criana era pequena, um pouco mais de cinco libras, e nascera com facilidade. Libertara-se da sua priso quase a brincar, despreocupadamente, confiadamente.
Olhou para ela agora, impaciente por rir, ou pelo menos
foi o que a Dr Steiner imaginou. A mdica espantou-se, pois no era verdade que os recm-nascidos, simplesmente continuavam o seu longo sono?= Lennie era diferente. 
Estava maduro para a vida, e aquela mulher feia, de corao terno, sentiu um movimento no peito, uma palpitao, um anseio. No era do tipo maternal, nem fora dada 
a gostar de crianas, talvez porque ela prpria nunca se tivesse permitido esperar um filho. A sua atitude diante dos recm-nascidos era de respeito ao ser humano 
desconhecido, que era preciso preparar, to cuidadosa e meticulosamente quanto possvel, para uma vida longa e saudvel. Cuidar do corpo era a sua funo, o seu 
dever, e nunca permitiria que os seus pensamentos e a sua curiosidade fossem alm disso. Mas Lennie era uma criatura como ela nunca vira igual. Embrulhado no lenol 
branco, as mozinhas contradas sob o queixo, os olhos negros, grandes e j lmpidos, olhavam-na com interesse. "Ento voc - parecia pensar - voc  um ser humano!"
Pena que aquele olhar no fosse dirigido  jovem me! Voltou-se para a doente e observou o trabalho da enfermeira. Nada fora do comum. Josui dormia como se no tivesse 
vontade de despertar. Estava inconsciente, com o corpo completamente relaxado, e to plida que a mdica lhe tomou de novo o pulso. No, era forte, juvenil. Tudo 
perfeitamente normal. No tinha vontade de acordar e esse desejo tornava a anestesia mais poderosa.
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- Leve-a - ordenou a mdica. - Ela no quer ver a criana.
Duas serventes aguardavam do lado de fora da sala. A um sinal da enfermeira, entraram e, a seguir, saram, empurrando a cama de rodas. Outra enfermeira apareceu 
para levar o menino. A Dr Steiner ordenou que esperasse.
- Quero examinar detidamente esta criana - disse. - Eu prpria lhe darei banho.
A enfermeira no respondeu. Todos no hospital conheciam a teimosia da mdica, essa alem incompreensvel, a exigir sempre tal perfeio no trabalho que criava descontentamento 
por toda a parte e, ao mesmo tempo, to competente que se impunha  admirao e obrigava  obedincia. Com esse misto de sentimentos opostos, a jovem enfermeira 
americana, desdenhosa e ao mesmo tempo compreensiva, trouxe uma bacia de gua morna, sabonete, gase e uma toalha esterilizada. Sem a menor pressa e esquecendo as 
outras doentes que esperavam, a Dr. Steiner; banhou cuidadosamente o garotinho, notando cada pormenor da sua constituio diminuta mas vigorosa, os ombros quadrados, 
a bela forma de cabea inteligente, a pequena boca e, ainda e sempre, os olhos extraordinrios.
-Uma criana notvel - observou, dirigindo-se  enfermeira. - H qualquer coisa de excepcional nela.  mais do que o simples indivduo, compreende, enfermeira?  
a personificao de uma munificncia racial, que se observa frequentemente quando as raas se fundem. Foi isso que Hitler nunca entendeu. Quando velhas raas se 
cruzam, nasce algo novo. Ah, sim!
A enfermeira mal prestava ateno. Era uma jovem de cabelos cor de fogo, e bonito rosto rosado, absorvida nos seus prprios assuntos. Faltava-lhe ainda uma hora 
de trabalho para terminar o seu turno de oito horas. Depois disso tinha um programa at  meia-noite, horas deliciosas em companhia do actual namorado, com quem 
talvez casasse ou no. Ele certamente no era japons, judeu, alemo ou de qualquer outra daquelas raas esquisitas. Era um americano legtimo.
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No entanto no era uma criatura cruel e quando a Dr Steiner lhe colocou a criana nos braos, recebeu-a com a semiternura que o seu adestramento lhe ensinara como 
atitude prpria para com os recm-nascidos. Era doutrina aceita que uma criana se desenvolve melhor quando h pelo menos uma imitao de carinho nos primeiros dias 
da sua vida. Cada um dos recm-nascidos no hospital era embalado diariamente, durante quinze minutos, por enfermeiras escolhidas, para que, dessa maneira, tivesse 
a impresso do calor materno.
- Ponha a criana na caminha do canto-ordenou a mdica. - Virei v-la pessoalmente todos os dias.
-Muito bem, Dr  Steiner - respondeu a enfermeira, obediente. Levou Lennie, tirou de um bero situado no canto da sala uma menina, stima filha de um polcia irlands, 
e colocou a criana no seu lugar. Devia ter mudado o lenol, mas o recm-nascido era meio japons, no morreria fcilmente e a pequena irlandesa tambm era sadia. 
A hora escoava-se rpidamente, e ainda tinha muito que fazer antes de poder passar pela enfermaria-chefe sem o perigo de ser retida. Vestiu  pressa as poucas roupas 
necessrias a Lennie, cobriu-o com o cobertor de flanela cor-de-rosa que agasalhara a menina e deixou-o dormir. Quando a outra enfermeira se apresentasse, inform-la-ia 
da troca das crianas, dir-lhe-ia que a Dr Steiner vinha pessoalmente ver o beb e que por isso tudo tinha de ser feito com o mximo cuidado para evitar uma exploso 
do gnio sempre irritvel da mdica. A alem no temia ningum e, quando se zangava, gritava longas e speras palavras no seu idioma, que ningum entendia e eram 
irreproduziveis tanto no som como no sentido.
Naquela noite, antes de ir para casa, a Dr Steiner foi ao berrio, dirigindo-se logo para a caminha do canto da sala. L estava a incomparvel criana, agora dormindo 
serenamente. Mantinha o corpo estendido a todo o seu comprimento, no encolhido como a maior parte dos recm-chegados ao mundo. Pegou uma daquelas mos, to pequenas 
e perfeitas. Sim, estavam
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abertas. Lera que as crianas da sia no cerravam as mozinhas como as do Ocidente. Aqueles dedos, delicados, afilados, eram to macios e soltos como ptalas de 
uma flor. Talvez essas crianas viessem ao mundo aceitando o seu destino, sem resistncia, trazendo no sangue a sabedoria dos povos antigos. Possibilidades interessantes 
sobre as quais a mdica se ps a meditar. Havia tanta coisa, alm do corpo, que s se podia imaginar, mas que talvez um dia viesse a ser conhecida, quando a inteligncia 
do homem passasse a ocupar-se da vida, em vez da morte. E ento, continuando a olhar para lennie, ocorreu-lhe a ideia do abandono do menino; a ningum no mundo importava 
que ele vivesse ou morresse, no havia ningum para esper-lo, agora que nascera. Para onde iria, quando terminasse o seu breve estgio no hospital?
Afastou-se abruptamente do bero e foi para casa, seguindo o itinerrio habitual que a obrigava a tomar dois elctricos. O seu lar era uma moradia pequena e feia 
situada fora da cidade. Tentara morar num apartamento, mas achara-o insuportvel. Precisava ter uma casa, embora no fosse boa dona de casa. Fechava a porta  chave 
quando saa, e abriu-a agora, emperrando a chave como de costume, pois metia-a com muita fora na fechadura.. Levantava-se sempre cedo para deixar a casa razovelmente 
limpa. Encontrou-a como a deixara, e como gostava que fosse, absolutamente sem graa para qualquer pessoa, menos para ela: a mesa apinhada de livros e folhetos, 
excepto no lugar onde havia uma toalhinha de rfia com um prato, colher, garfo, faca e uma chvena. Percorreu a pequena casa, os dois quartos, a cozinha minscula 
e a casa de banho onde era obrigada a entrar de lado. Falava alto em alemo enquanto andava de um lado para outro, tomava banho, vestia roupo de algodo desbotado, 
aquecia a sopa e passava a manteiga nas grossas fatias de po preto que completavam o seu jantar. Resmungando em voz gutural, perguntava a si mesma se estava doida, 
o que faria com uma criana, como iria pagar uma pessoa capaz de entender que aquele menino era um
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milagre, um ser humano que no devia ser desperdiado, uma criatura preciosa de mais para ser posta de lado. Sentou-se  mesa e tirou com cuidado a dentadura postia, 
tanto a placa inferior como a superior, depois mastigou confortvelmente, com as gengivas, o po amolecido na sopa. Perdera todos os dentes no campo de concentrao. 
Alguns tinham sido quebrados  fora, os outros haviam cado naturalmente. Usava dentadura em considerao s pessoas que precisavam olh-la, mas, quando queria 
estar  vontade, retirava-a. Por vezes, .quando ia realizar uma operao difcil, perigosa, surpreendia as enfermeiras ao tirar a dentadura, que entregava  que 
estivesse mais prximo. "Tome cuidado- recomendava severamente. - Custou muito dinheiro, uma fortuna!"
Depois de comer, escovou cuidadosamente os dentes e colocou-os num copo de anti-sptico junto  banca da cozinha. Lavou os pratos, arrumou a toalhinha de rfia novamente 
para a refeio da manh e sentou-se na ampla poltrona coberta de veludo vermelho desbotado. Ao lado da poltrona havia uma mesa quadrada e sobre ela um telefone, 
revistas, livros, folhetos, manuscritos, uma caixa de charutos, um pires com fsforos da cozinha e um prato rachado que servia de cinzeiro. Abriu a caixa, tirou 
um charuto, acendeu-o e fumou com aparente calma, mas reflectindo furiosamente.
Passados uns dez minutos, pegou no auscultador, marcou e, prendendo firmemente o charuto num dos cantos da boca larga, iniciou uma palestra.
- Bray;  voc?
De longe, a voz cansada da Sr Bray chegou-lhe aos ouvidos.
- Sim, Dr Steiner.
- A criana nasceu hoje.
- Que criana?
- Bray, por favor, no seja estpida! O filho da linda japonesa que me mandou. Como pode ter esquecido? - Ah, sim!
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-  Poderia ouvir melhor se no gritasse tanto.
A Dr Steinerr adivinhou que a Sr Bray estava cansada e
por isso, impertinente.
Como poder ouvir melhor se eu no falar alto? Tolice!
Levantou mais a voz. - Bray, estou resolvida. Vou ficar
com a criana!
Esperou pelo efeito da tremenda notcia. A Sr Bray continuou em silncio.
- Est a ouvir-me, Bray?
- Sim - respondeu a outra, muito longe. - Estou a ouvir muito bem. Mas acontece que no temos autorizao para entregar crianas a mulheres sem marido.
A Dr Steiner bufou.
Quantos maridos existem no orfanato? Voc disse-me que poria a criana naquele orfanato. Vai ter diarreia e morrer. Foi o que aconteceu a dez crianas este ano. 
No quero que seja o dcimo-primeiro caso. Ficarei com o menino. Se tiver alguma dificuldade, mande-os falar comigo.
O dia fora longo e quente, e houvera um nmero excepcionalmente grande de raparigas grvidas e deprimidas. A Sr Bray estava cansada da sexualidade e suas consequncias, 
e naquele Momento pouco lhe importava perder o emprego. Pensava h algum tempo em pedir trabalho no asilo municipal, onde os homens e as mulheres eram velhos e, 
embora ainda se apaixonassem de vez em quando, pelo menos no havia possibilidade de gravidez.
- Oh! Est bem! - disse de mau humor. - Acho que no vo notar uma criana a mais ou a menos. Sei que no poderei encontrar quem a adopte.
- Eu vou adopt-la! - berrou a Dr Steiner.
- Muito bem - respondeu a Sr Bray em voz seca. - Espero que no se arrependa. Obterei a desistncia da me e mandarei entregar-lhe os papis.
- ptimo! - trovejou a mdica. Pendurou o auscultador
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no gancho e, recostando-se na poltrona, continuou a fumar pensativamente o seu charuto.
Quando lhe apresentaram o instrumento de desistncia, Josui hesitou. Fora isso que decidira, e tinha de assinar. Contudo, sentia-se incapaz de faz-lo, presa como 
estava de um estranho sentimento de frustrao. No papel no constava nenhum nome, apenas o da agncia, e ela ignorava para onde iria a criana. Parecia-lhe uma 
tarefa alm das suas foras assinar uma declarao que entregava Lennie, simplesmente, a uma agncia..
- No h ningum para ficar com a criana? - perguntou Josui.
-  melhor que no saiba-redarguiu a Sr Bray, secamente.
Josui no respondeu. Depois, com um esforo repentino, baixou a cabea e assinou apressadamente na linha marcada Me. Os seus olhos fixaram-se naquela palavra. Sim, 
ela era a me, s ela podia dar o filho a outrem, e era o que acabava de fazer. Os seus olhos encheram-se de lgrimas, que ficaram presas nos longos clios. A Sr 
Bray no ergueu os olhos. Pegou no mata-borro e secou a assinatura.
- Acho que  tudo - disse. - Se algum dia quiser saber como passa o menino, pode-nos escrever, e qualquer coisa que lhe acontea ns comunicaremos. Mas, como sabe, 
a falta de notcias  boa notcia, e eu aconselho-a a esquecer tudo.
- Obrigada - respondeu Josui, com voz sumida. Levantou-se, enxugou os olhos e pegou na bolsa. Adeus! - exclamou, em voz ainda mais fraca.
- Adeus! - disse a Sr Bray.
E Josui saiu para a rua cheia de sol, sentindo-se roubada, apesar de ter sido aquela a sua vontade. Prometera voltar a procurar a mdica, para um exame final; no 
entanto, no teria cumprido a promessa se a Dr Steiner no fosse uma pessoa excepcional, forte mas bondosa, apesar do mau gnio, e, acima de tudo, uma mulher. Por 
uma ou duas vezes pensara em falar-lhe
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sobre si mesma, mas desistira da ideia. Era melhor permanecer desconhecida. Mal terminasse o exame, escreveria a Kobori. Ele viria procur-la e, quando se encontrassem, 
decidiria o que fazer. De uma coisa, porm, no tinha dvida: nunca escreveria a Allen, no tornaria a v-lo, pois, embora ainda o amasse, o seu amor era como o 
que se dedica a um morto, ou a algum que talvez nunca tivesse existido. A vida que a aguardava seria uma vida simples. No lhe ocorreu que se pudesse viver uma 
vida de renncias ali na Califrnia. A Califrnia era agora algo remoto para ela, embora caminhasse pelas suas ruas e sob o seu cu.
Entrou no consultrio, plida mas serena. A Dr Steiner esperava-a com impacincia. A Sr Bray dissera-lhe que a jovem nada sabia do filho e que nada devia saber. 
Excepcionalmente a mdica, bufando, usara de prudncia; no concordara nem discordara. Tinha decidido o que iria fazer e ps em prtica a sua inteno assim que 
a jovem se sentou diante dela, segurando firmemente a bolsa com ambas as mos.
- Vou dizer-lhe uma coisa - comeou a Dr Steiner, animadamente, olhando com renovado prazer a beleza plida de Josui. - Quero que saiba, mas por favor, no conte 
nada  Sr Bray. No desejo nenhum desentendimento com aquela alma boa, sempre to tola. - Inclinou-se para a frente e baixou a voz com ar importante. - Vou ficar 
com o seu filho! Quero que saiba que ele est comigo e que  uma criana extraordinria. No pode ser entregue a pessoas que no lhe dem o devido valor. Vou ficar 
com ele e ensin-lo a compreender o muito que vale, e como rene o mundo inteiro no seu pequeno ser. -A Dr Steiner abriu os curtos braos rolios, formando um crculo 
em redor do mundo. - Farei dele um grande homem. Como?  muito simples, pois ele j  algo de grande!
Josui ouviu tudo aquilo com surpresa e emoo. Tambm ela se inclinou para a frente, sentindo os seios doerem-lhe sob o peso do leite intil, uma fonte invulgar, 
suficiente para alimentar
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trigmeos, como observara a enfermeira no hospital.
- Ento posso saber -suspirou: -sei onde ele est!
- Pode saber - disse a Dr Steiner, com firmeza. - Deve saber, minha querida. Creia,  um menino maravilhoso. E quero que fique algum tempo com o seu filho, se o 
desejar. V  minha casinha e fique com ele o tempo que quiser.
- Oh, muito obrigada! - exclamou Josui. Toda a sua deciso se esboroou ante o desejo louco de ver o filho. - No posso ficar muito tempo, mas talvez por uma noite?
- V - repetiu a Dr Steiner. - Aqui est a chave. Pode ir agora, que eu o levarei mais tarde. Dormir no quarto, onde j est o bero que lhe comprei. Eu posso 
dormir no sof da sala de estar. Fique pelo menos dois dias com ele. Estou muito ocupada aqui. Fique mais tempo se quiser.
- Mas como  que a senhora... - Josui passeou o olhar pelo consultrio abarrotado.
- J consegui - disse a Dr Steiner. - Tenho uma boa vizinha, prestimosa, j av, mas no muito velha. Os filhos no moram com ela. Tomar conta do menino enquanto 
estou no trabalho. Vai correr bem. As mulheres idosas so as que mais gostam de crianas; ns sabemos que elas so o verdadeiro sentido da vida, o elo entre o passado 
e o futuro. Agora v e prepare-se para receb-lo. Eu mesma o levarei  hora do almoo.
Josui recebeu a chave da mo rechonchuda da mdica. Baixou por um momento a cabea e encostou a face no dorso daquela mo, depois saiu, incapaz de pronunciar uma 
palavra, Caminhou lentamente, procurando pensar no que ia  Ento, afinal de contas, ia segurar o seu filho, seu e de Allen? Ia embal-lo, dar-lhe banho, aliment-lo? 
E enquanto dormia, que faria ela?= Poderia costurar-lhe umas roupinhas, pequenos presentes que, possivelmente, aquela mulher rude e boa guardaria at ele crescer, 
para que soubesse que sua me o amava. Entrou numa loja, comprou flanela cor-de-rosa e azul, agulhas e linhas de seda de lindas cores. Depois, com o embrulho sob
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o brao, tomou um elctrico. Chegou finalmente  casa, cujo exterior no lhe pareceu estranho, pois de algum modo, se assemelhava  mdica.. Abriu a porta e entrou. 
Era aquele o lar de Lennie. Ficou a olhar em redor, para nunca mais esquecer a impresso daquela sala ampla, com as estantes de livros na parede, o lugar solitrio 
 mesa, a grande poltrona surrada junto  lareira de tijolos, cheia de cinzas. A porta que dava para o quarto de dormir estava aberta. Viu uma velha cama
de ferro, muito limpa, e um bero novo, pintado de azul claro. Ainda no fora arrumado e nele estavam empilhados pequenos lenis e cobertores novos. O seu corao 
dilatou-se, a emoo sufocou-a, mas no queria chorar. Tirou o chapu, o casaco, e, com a sua habitual segurana e preciso de movimentos, comeou a estender a roupa 
da cama, preparando asim o primeiro lugar onde Lennie repousaria.
Assim comeou a divina semana. Sim, porque passou uma semana at que as duas mulheres conseguissem separar-se. Lennie chegou a casa nos braos da Dr Steiner, que 
o deitou no bero preparado por Josui. Era meio-dia e o calor abrasava, mas no interior da casa a temperatura era agradvel. Josui ligara o ventilador e pusera sob 
ele uma panela com gelo. Colocou mais um prato na mesa, abriu o frigorfico e comps
uma refeio com os alimentos que encontrou: um prato que
se assemelhava ao sukiyaki, uma salada fria e algumas torradas
finas. Descobriu tambm uma caixa com mamadeiras, um
esterilizados e latas de leite e dextrose. Eram para Lennie, porm ela no sabia preparar o alimento. Ento, sentiu novamente a dor nos seios. No poderia deix-lo 
beber do seu peito? Quando ele chegou, Josui, implorando  mdica com os olhos, colocou a mo sobre o seio e desabotoou a blusa.
- Sim, pobrezinha - disse a Dr Steiner, afvelmente. - Quando chegar a hora, farei com que seque a fonte. Leve-o.
Josui recebeu-o num deslumbramento de felicidade, levou-o para o quarto, fechou a porta e, szinha com ele, deu-lhe a beber o seu leite. Lennie parecia quase contrafeito 
com ela,
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tocando-lhe o bico do seio, muito mais macio que o da borracha e vidro duro que conhecia. De repente, porm, compreendeu e comeou a sorver a longos haustos o leite 
abenoado, com os grandes olhos negros fixos no rosto de Josui. E ela, fitando aqueles olhos, sentiu a tristeza avolumar-se dentro de si, atingiu a plenitude do 
sofrimento: chorou, e as suas lgrimas caram sobre o rostinho do filho. Enxugou-as com a palma da mo e continuou a olh-lo, trmula de amor.
Satisfeito com o leite, Lennie dormiu logo e ela deitou-o no bero. Debruada sobre ele, estudou-lhe o rosto, as mos, o corpo, os pzinhos nus. Reconheceu a boca 
de Allen, a curva suave dos seus lbios. Contudo, o queixo firme desmentia aquela suavidade; herdara o queixo do Dr. Sakai. Mas as mos eram como as suas, e os ombros 
quadrados deviam ser herana de algum desconhecido, pois os dela eram ligeiramente arredondados e os de Allen tambm no tinham aquele formato. Reparou ento nas 
pestanas. Assemelhavam-se s dos americanos; nenhum japons as tinha assim, longas e curvas. Os olhos eram asiticos, cingidos por aquelas pestanas ocidentais. De 
quem as teria herdado? No de Allen, mas de um dos seus antepassados, cujo nome ela nunca saberia, os clios extravagantes de alguma bela mulher americana, j morta 
ou talvez ainda viva, que ela nunca havia de conhecer.
A porta abriu-se e a Dr Steiner entrou silenciosamente. As duas mulheres ficaram a adorar a criana.
Assim comeou a divina semana. Pois uma noite e dois dias foram apenas o incio de uma comunho entre as trs pessoas. Josui acabou por contar a breve histria da 
vida de Lenne. Enquanto falava, lembrou-se de coisas que j esquecera ou que nem notara na ocasio.
- Quando estivemos parados pela primeira vez sob as glicnias, quer dizer, quando nos... beijmos pela primeira vez... a senhora sabe...
- No sei nada - tornou a Dr Steiner. - Nunca beijei um homem. Que lhe aconteceu?
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-Sentimos um movimento no ar, uma brisa leve, embora no houvesse vento naquele dia - disse Josui, recordando. - Sentimos outra presena junto de ns. A senhora 
acredita que pudesse ter sido a alma de Lennie ainda por nascer?
- No duvido - retorquiu a Dr Steiner.
No era s Josui que falava. Desde que viera para a Amrica, a mdica tinha silenciado em presena daqueles que jamais poderiam compreender o sofrimento porque quase 
no o conheciam, dos que no sabiam o que era a morte porque no tinham visto morrer milhares de inocentes, novos e velhos. Mas_ agora contou a Josui o que recordava 
e seria obrigada a recordar at ao ltimo dia da sua vida.
- De incio, no podamos conceber que eles realmente matassem criancinhas de sangue misto. No eram criaturas do seu sangue, 'mas do meu, que se misturara com o 
dos alemes. Devia haver unicamente sangue puro, diziam, como se o sangue humano no fosse sempre puro, onde quer que se encontre O seu sangue, minha querida, no 
 diferente do meu. Nas nossas veias corre o mesmo lquido vermelho, embora eu seja uma judia velha e feia, e voc uma delicada jovem oriental.
Segurando Lennie no seu amplo regao, a saia larga estendida entre os joelhos grossos, tentou explicar a Josui de que maneira ele representava o triunfo daquilo 
em que ela acreditava.
- E to lindo, este menino! Prova o que eu sei: que os seres humanos em qualquer cruzamento ou mistura podem ser soberbos. Compreende o sentido da palavra soberbo, 
minha querida?  o mais alto grau!
Lennie no tinha tempo de dormir no bero a no ser  noite, quando a mdica e Josui eram obrigadas a interromper a palestra para dormir, a Dr Steiner por medo 
de que no dia seguinte a sua mo tremesse de cansao durante uma operao, e Josui porque era jovem e se via crucificada entre o amor e a renncia. O menino dormia 
ora nos braos macios e delgados, ora nos curtos e fortes que o seguravam. Dormia quando o
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levavam pelos aposentos da casa, quando estava deitado num regao amplo e confortvel ou contra um seio transbordante que o amamentava. Rodeava-o uma atmosfera de 
amor. Era adorado por aquelas duas mulheres, todas as suas primeiras recordaes ocultas, suficientes para lhe durarem a vida inteira, eram de amor, amor e amor. 
Lennie era a criana mais bem-vinda do mundo.
E assim, chegou o ltimo dia da semana e Josui preparou-se para partir. Nos primeiros dias temera este momento, mas agora sentia-se capaz de enfrent-lo. No desejaria 
tirar Lennie daquela casa. Ali, ele estava em segurana. Fora daquele lugar no havia quem o quisesse, quem esperasse por ele. Ali no tinha rival. O grande corao 
daquela mulher, que conhecera a vida e a morte, no amava seno a humanidade e Lennie. Ele estava em segurana.
- Fique, minha querida - insistiu a Dr Steiner. - Viveremos juntos, os trs. Eu ganho o suficiente. Mas Josui no quis ficar.
- Ele no me pertence - respondeu. - Se eu ficar, um dia perguntar pelo pai. No poderia ouvir essa pergunta a que no posso responder. Deixe-me partir.
Estava decidida a ir-se embora, a libertar-se de Allen, mesmo naquela criana em quem, s vezes, notava, surpreendida, uma expresso que lhe lembrava outra, muito 
semelhante, no rosto de Allen, uma felicidade risonha que lhe partia o corao por haver terminado to cedo.
Tomou o medicamento para secar o leite e preparou-se para deixar a casa. Iria para So Francisco, onde Kobori a esperava, e quando o visse saberia o que fazer. Levava 
a paz na alma, a paz do amor extinto. Quando chegou o momento da partida, tomou Lennie nos braos. Calara-lhe os sapatinhos de cor rosa e azul que ela lhe fizera 
e nos quais bordara umas borboletas. Ps o menino nos braos da Dr Steiner e, recuando, inclinou-se profundamente  maneira japonesa.
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- Agradeo-lhe, agora e durante toda a minha vida, o que fez por Lennie e por mim.
- Volte - disse a Dr Steiner, apoiando Lennie contra o ombro.
Josui inclinou-se novamente.
- Agradeo-lhe -repetiu. Mas no disse o que sabia, que nunca mais voltaria. A sua ddiva era definitiva. Entre o passado e o futuro no restava nenhum elo.
Na estao de So Francisco, Kobori esperava. Vestira-se com cuidado e isso fizera-o rir de si prprio. No obstante, era agradvel ter a melhor aparncia possvel, 
e fosse qual fosse a deciso que lhe reservava o destino, poderia aceit-la melhor sentindo-se mais seguro da sua pessoa. Havia tantas coisas que escapavam ao domnio 
da sua vontade, que tinha certa satisfao em poder, pelo menos, aperfeioar pequenos detalhes que dependiam apenas dele. Escolhera um fato feito por medida, de 
grosso chantung de seda creme, adequado para o dia um pouco quente. Havia neblina sobre as montanhas distantes e,
 tarde, talvez descesse para a praia, mas por enquanto o Sol brilhava em todo o seu esplendor.
O comboio chegou dentro do horrio e ele viu Josui antes que ela o avistasse. Estava bonita e novamente delgada, e, embora o seu corao o impelisse para ela, Kobori 
sabia muito bem que era preciso refrear a impacincia. Esperava que Josui se tivesse refeito da experincia do amor, mas os convalescentes no podem ser apoquentados 
e ele devia, por uma questo de decncia, proporcionar-lhe todas as oportunidades para recus-lo. Sentia-se deprimido pela sua prpria honestidade, pois seria incapaz 
de alegrar-se com a boa sorte enquanto no contasse a Josui a notcia publicada pelos jornais depois do seu ltimo encontro. Depois de alguma hesitao decidira 
no lhe contar a notcia por grita, mas transmiti-la pessoalmente, para poder observar face a face aqueles belos olhos e
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ver se descobria neles um fulgor de esperana, por menor que fosse.
Tirou o chapu e, aproximando-se dela sossegadamente, estendeu-lhe a mo  maneira ocidental. Ali, na plataforma da estao, aquele gesto seria menos estranho do 
que cumprimento  moda japonesa.
- Josui! - disse.
Ela no o tinha visto, mas voltou-se ao ouvir o seu nome. - Kobori! Que gentileza ter vindo esperar-me.
Apertou-lhe a mo ligeiramente, mas logo retirou a sua. - Pensei que tivesse ficado entendido que viria esper-la
retorquiu ele.
Caminharam lado a lado ao longo da plataforma e atravessaram a estao, seguidos pelo carregador com a mala de Josui. Kobori no podia deixar de olhar-lhe o rosto. 
No estava plida como temera. Parecia calma e bem disposta, as suas faces tinham uma cor delicada, nos olhos escuros havia uma expresso distante- Mas-alegre. Estava 
mais velha, mais tranquila e comedida, mas para ele essas qualidades acentuavam-lhe a beleza.
Chamou um txi, ajudou-a a entrar e sentou-se a seu lado.
- Encomendei um almoo para ns- disse hesitante, receoso de ter ido longe de mais.
-Ser agradvel -replicou Josui.
Deu o nome do restaurante ao motorista e depois recostou-se no assento do carro. Josui estava a alguma distncia dele, com as mos enluvadas sobre a bolsa de couro 
castanho. Trazia um fato castanho-amarelado, muito simples, uma blusa branca franzida no peito e um chapuzinho de palha tambm castanho. Parecia, de certo modo, 
mais americana do que antes e isso f-lo sentir algum desgosto, at lembrar-se de que nunca a vira em trajes ocidentais. Notou depois, com surpresa, que aquelas 
roupas no diminuam em nada a sua beleza, como acontecia  maior parte das japonesas. A nota de severidade
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harmonizava-se com as suas feies, e o seu perfil delineava-se ntido sob o estranho chapuzinho.
Kobori no encontrava que dizer. Que havia de dizer? No queria fazer perguntas sobre a criana. Nem sequer desejava
+ saber se ela estava viva ou o que Josui decidira a seu respeito. A criana agora nada tinha que ver com ele nem com a me, a no ser, naturalmente, se a notcia 
que tinha para dar a fizesse mudar de planos, quaisquer que eles fossem.
i Passados alguns minutos, Josui voltou-se para ele com um leve sorriso.
-Tem passado bem? - perguntou cortsmente. -Muito bem-respondeu Kobori. - E seus pais?
- Esto bem.
-So boas notcias- disse ela.
- O seu aspecto tambm  ptimo- observou ele. Josui riu.
- Ento estamos todos bem!
Por sorte o restaurante ficava perto e o carro parou. Kobori pagou, dando uma gorjeta exagerada, e saram. Gostaria
de conduzir Josui pelo brao como via os americanos fazerem com as senhoras que acompanhavam, mas para isso era acanhado de mais. Entrou no local, pequeno mas bastante 
dispendioso, onde j reservara uma mesa e escolhera almoo. Era um restaurante crioulo, especializado em pratos de Nova Orlees, pois, embora Kobori tivesse preferido 
um restaurante japons, com bons pratos japoneses, achara melhor no manifestar essa preferncia enquanto no conhecesse o modo de pensar de Josui.
A mesa ficava ao lado de uma janela com vista para a baa; a toalha era branca, a prata polida e os pratos muito limpos. Tudo estava impecvel e sobre a mesa havia 
flores que ele comprara, steres roxo-plidos e lantanas cor de limo.
Kobori reclinou-se na cadeira, um pouco pequena para ele, e pela primeira vez sentiu-se alegre e  vontade.
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- Agora disse -ter de comer o que eu encomendei.  considerada a melhor comida crioula. No difere muito da dos pases asiticos, embora seja mais condimentada 
que a nossa.
- Estou com fome - confessou Josui. - O apetite voltou desde que deixei de me sentir triste.
Ele gostou de ouvir aquilo e abriu a boca num sorriso largo. Depois lembrou-se da notcia que, por honestidade, devia transmitir-lhe. Mas decidiu esperar at vir 
a sopa. Naquele momento o criado trazia a terrina de prata, no muito grande, duas tigelas e a concha. Servidas as tigelas, os dois entreolharam-se, ele convidou-a 
a comer e comeram a sopa em silncio. Tinham aprendido ambos que no se desvia de um bom prato a ateno do convidado ou do anfitrio.
Houve, no entanto, uma longa pausa at que o prato seguinte fosse servido..
- Os camares, que vo ser o prato principal, no podem ser preparados com antecedncia - explicou Kobori.
- No estamos com pressa, pois no? - tornou Josui.
- No - respondeu ele. Passou o guardanapo de linho branco pelos lbios.. Clareou a voz. - Para ser franco, gosto at deste intervalo. Tenho uma notcia para si. 
No sei se vai consider-la boa.
- Notcia? - repetiu Josui. Pensou logo em Allen. Mas que notcia poderia vir dele? Que talvez fosse de seus pais.
- Nestes ltimos quinze dias- disse com cuidado, para facilitar-lhe a compreenso - vim a saber que os juzes do tribunal deste Estado da Califrnia decidiram que 
as pessoas de cor branca podem casar com japoneses.
Fitou-a com um olhar profundo e penetrante. Ela compreendeu a pergunta apaixonada que havia nos seus olhos e retribuiu-lhe serenamente o olhar.
- Que significa isso para mim? - perguntou.
- Achei que devia saber. Pensei que talvez fizesse diferena para si. Quero dizer, se assim o deseja, poder transmitir
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essa notcia ao americano cujo nome no desejo pronunciar. Agora ser possvel viverem juntos aqui.
- No  possvel vivermos juntos em parte alguma retorquiu ela. - J no  possvel.
Kobori sentiu o corao pesar-lhe no peito e diminuir as pulsaes. Podia sentir as contraces do msculo compacto.
- Quer dizer que no o deseja?
- No se trata de um desejo -redarguiu ela com voz tranquila. - Trata-se de uma impossibilidade. - Depois perdeu um pouco da sua calma. - No v, Kobori, que no 
posso? A lei j no importa. Conheo-o agora como ele  na realidade. E no basta para uma vida Inteira.
O corao de Kobori comeou a bater fortemente.
- Quer dizer que j no sente...
Josui terminou a frase por ele.
-Amor? Talvez no... talvez sim. Mas isso tambm no importa. O amor no  suficiente. Pelo menos para mim. Talvez seja suficiente para os americanos, mas para mim 
no . Sei agora.
Ele respirou profundamente, com rudo.
- Isso quer dizer que vai regressar ao Japo?
-Sim, Kobori, do mesmo modo que meu pai.
Naquele instante o criado apareceu inesperadamente, trazendo uma bandeja sobre a qual estava um belo prato de camares. Colocou-o diante de Kobori, com orgulho, 
apresentando-lhe a colher e o garfo.
- Monsieur, querer servir pessoalmente Madame - disse.
Kobori, apanhado de surpresa, pegou nos talheres desajeitadamente, depois olhou desorientado para Josui.
- Nunca fiz isto em toda a minha vida.
- Com licena. - josui estendeu as mos delgadas e pegou, rpida e graciosamente, no garfo de prata e na colher rasa. Era hbil e tinha pacincia. - D-me o seu 
prato, Kobori. Vou servi-lo.
Cheio de gratido, ele estendeu-lhe o prato.
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-Muito obrigado - murmurou. "Que sorte, pensou enquanto a observava, "ter guardado as prolas rosadas, legtimas, da India", e com voz carinhosa disse: - Embora 
eu a tenha convidado, voc sabe fazer tudo melhor do que eu.
Ela sorriu sem responder. Achava muito natural servir aquele homem grande e desajeitado. E sentiu que o faria pelo resto da sua vida.
Tambm fazia calor na pequena cidade da Virgnia. Era um dia silencioso de Vero, inanimado, embora as rvores estivessem cobertas de folhas verdes e flores luzissem 
as suas cores vivas e quentes ao longo do muro.
A Sr Kennedy acabava de dormir a sesta. Esbelta no seu vestido azul-plido, desceu a escada polida e parou para olhar a piscina. Fora despertada pelo som de vozes 
e pelo chapinhar da gua, e por um momento sentira-se irritada por a terem acordado. Logo, porm, reconhecera as vozes de Allen, e Cynthia e a sua indignao dissipara-se. 
Os dois jovens comeavam a aproximar-se. Tivera o cuidado de no falar muito em Cynthia desde que Allen voltara no Inverno anterior, doente, com um resfriado horrvel, 
um cansao inexplicvel e um enfado aflitivo. Tinham partido imediatamente para White Sulfur Springs com o propsito de ficarem l um ms e no lhe fizera perguntas 
enquanto ele no falou com o pai. Mesmo depois, nada indagara. Tom dissera-lhe, simplesmente, que a japonesa arrumara as malas e partira sem deixar ao menos um bilhete. 
Allen tinha pedido demisso do emprego, entregue o apartamento e voltado para casa.
-Tom, foi uma beno! -limitara-se a dizer.
Ele no respondera, mas a Sr" Kennedy estava habituada ao seu silncio. Estava, agora, tcitamente assente que nada mais havia para dizer. Ningum era culpado, 
e talvez a jovem, embora estrangeira, tivesse compreendido que uma mulher no podia renunciar ao seu nico filho. Mostrava-se de uma pacincia que jamais tivera 
com Allen, pois o seu amor fora sempre
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Impaciente, crtico, exigindo acatamento. Oh, bem percebia quando magoava algum, porque, se, a contrariavam, sabia ofender intencionalmente. Mas, agora, permitia 
que Allen a contrariasse, tratando-a at com dureza.
"Por favor, deixe-me decidir sbzinho", repetia ele sempre, a propsito das coisas mais insignificantes, como, por exemplo, quando ela insistia em faz-lo experimentar 
o manjar branco. Allen no gostava do prato, porm ela tentara uma receita nova que ficava deliciosa, com o leite e os ovos to indicados para ele no seu estado 
de fraqueza. Andava muito insubmisso e importuno, quase tanto como em criana, mas ela cedia em tudo porque ele voltara para casa.
Ficou parada  janela, olhando com ternura os dois jovens que se tinham estendido no terrao, sob o sicmoro. Estavam completamente molhados, mas, num dia quente 
como aquele, isso no tinha importncia. Ambos de estatura alta, eram belas criaturas, no entanto devia prevenir Cynthia de que no devia deixar-se aumentar de peso 
com a idade. As mulheres casadas, especialmente depois de terem filhos, tinham tendncia para engordar. ela, no entanto, nunca aumentara o seu peso uma libra sequer.
Deixou cair a cortina de seda, atravessou a sala, grande, arejada e fresca, e tocou a campainha. Harry, o velho mordomo, apareceu imediatamente, fresco e limpo no 
seu traje branco.
        Harry, prepare algumas bebidas e leve-as para O Sr. Allen e a -menina Cynthia - ordenou.
- Sim, senhora.
O criado saiu e a Sr Kennedy sentou-se. Ficou a reflectir se, caso Tom e ela se reunissem a Allen e Cynthia, no dificultariam um possvel pedido de casamento. 
Durante o ltimo ms no cessara de pensar que, qualquer dia ou qualquer noite, Allen viria dizer-lhe: "Minha me, Cynthia prometeu..."
Reclinou-se para trs, cuidadosamente, para no estragar o penteado, e fechou os olhos, sorrindo, esperando.
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Cynthia enxugava os cabelos com uma toalha verde, de banho. Allen, deitado na relva a seus ps, fez-lhe uma pergunta ociosa:
-Tu escolhes uma toalha verde porque gostas da cor, porque sabes que o verde te fica bem, porque o teu fato de banho  verde?...
- Peguei nesta toalha ao passar pelo banheiro - disse Cynthia. - Talvez a tenha trazido por ser verde. De qualquer maneira, no escolheria uma azul, digamos. Pode 
ser que tenha sido consciente.
- Inteiramente consciente como sempre - sugeriu. Allen, ainda zombeteiro.
- Talvez.
Ele soergueu o corpo, apoiando-se nos cotovelos. - Quanta tolice dizemos!
- Sempre foi assim - concordou Cynthia. - Lembro-me de que, quando tinhas dez anos, eu pensava que eras o rapaz mais tolo que conhecia.
- Mas gostavas de mim?
Ela hesitou, sempre cautelosa.
-Talvez gostasse, s vezes.
A cautela da jovem comeou a irrit-lo e, de repente, resolveu terminar com aquilo, esmagar a resistncia como se esmaga um cardo quando  preciso.
- Escuta, Cynthia, acho que j  tempo de nos entendermos.
Ela esfregou o cabelo louro e curto com violncia, sem responder.
- Cynthia, larga essa maldita toalha! - exigiu ele. Inclinou-se para ela, pegou numa ponta da toalha e arrancou-lha das mos. Ela agarrou-a de novo e ficaram a pux-la 
de um lado para outro.
- Estamos a ser tolos outra vez! - gritou ela.
Allen largou abruptamente a ponta que segurava.
- Est bem, mas ando cansado da maneira como te portas
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comigo. Sabes perfeitamente o que pretendo dizer e, no entanto, no me deixas falar. Tu no consegues iludir-me; conheo-te de mais.
- Est bem, fala! Terminemos duma vez com isto.
- Cynthia !
Os olhos azuis da jovem chispavam, os seus lbios estavam fortemente comprimidos e Allen sentiu uma vaga sensao de medo. Teria tido demasiada confiana?
- Fala! -ordenou ela.
- Com os diabos, falo mesmo- disse sbitamente zangado. - Quero que cases comigo. Sabes disso, h muito tempo.
- Est bem, e eu no quero casar contigo. J  tempo de o saberes.
Atirou-lhe ao rosto aquelas palavras, mas Allen no pde aceit-las; ouvira, mas no podia acreditar. Contara com a sua aquiescncia, havia j semanas estava convencido 
de que ela o aceitaria. Por sua causa, pensava, Cynthia rejeitara todos os outros pretendentes.
- No posso acreditar que estejas a falar srio- disse, tomando de repente um ar de dignidade. Sentou-se e limpou os raminhos de capim das pernas nuas.
Cynthia parou de enxugar o cabelo, deixou cair a toalha e, olhando-o com tristeza, ficou a pensar por que razo a possibilidade de am-lo desaparecera. Nunca analisara 
as suas prprias reaces, no examinava os seus sentimentos, nem mesmo quando estava s; era uma pessoa que se deixava levar pelos seus impulsos, e h meses que 
j no o achava atraente. O velho hbito de camaradagem continuava, mas j no havia prazer nem excitao com a sua presena.
- Estou a falar a srio- disse melancolicamente. - Antes no estivesse.
Ele compreendeu ento que Cynthia no o amava, por mais impossvel que parecesse, pois eram feitos um para o outro-sua me sempre o dissera, e tinha razo.
- No posso aceitar a tua recusa- disse com seriedade.
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Smente agora percebo que vivi todos estes anos  espera do nosso casamento. Se, por acaso, ests a pensar em Josui...
- Estou a pensar nela, sim - disse Cynthia.
- No  preciso - redarguiu ele. - Aquilo j passou.  como se nunca tivesse acontecido. Hoje no consigo entender como me deixei levar. Estive muito tempo fora 
de casa, e vou dizer-te uma coisa, que talvez no te interesse, embora eu espere o contrrio: nunca andei com outras japonesas, como alguns ou quase todos os homens 
faziam.
No podia ter a certeza de que ela o escutasse. Os seus cabelos, ao secar, formavam pequenos anis que lhe caam pelo rosto, dando-lhe um ar de graa quase infantil. 
Estava imvel como uma esttua, segurando a toalha verde que rojava pelo cho.
Com o olhar perdido para alm do relvado, Cynthia disse: -Acho que sei por que razo Josui te abandonou. Penso que ela descobriu que ia ter um filho.
- No! - exclamou ele. - No, pelo menos isso no  verdade. Se assim fosse tinha-me dito.
- No creio que dissesse - tornou Cynthia, com ar quase sonhador. - Acho que ela quis ir embora para ficar szinha em qualquer parte, pois j devia saber que, se 
tua me a rejeitava to-pouco iria aceitar a criana.
- Deixa de censurar minha me! - exclamou ele, exaltado. - No foi culpa dela, bem o sabes. Sabes que existe uma lei...
- Oh, cala-te! - Atirou a toalha ao cho e, encostando-se no sicmoro, cruzou os braos. - como se a Virgnia fosse o nico Estado da Unio!
O meu lar  aqui - disse ele.
- Oh, cala-te! - repetiu Cynthia, mas os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.
Quando Allen a viu chorar, levantou-se e aproximou-se dela com os braos estendidos.
- Cynthia, querida...
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Ela recuou e gritou:
- No me toques! No posso suportar isso!
Curvou-se e, apanhando a toalha verde, atravessou correndo o relvado em direco ao porto do muro baixo que dava para o terreno da casa de seu pai.
Allen ficou a v-la correr sobre a relva, sentindo um desgosto to grande como nunca imaginara. O seu mundo, agora, tinha realmente terminado. Naquele dia em que 
deixara o apartamento, meses atrs, sentira-se infeliz, a cabea doa-lhe de tal maneira que mal conseguira arrastar-se para casa em busca de lenitivo. Cynthia, 
pensara ele, Cynthia estava em casa  sua espera. Depois de um intervalo conveniente, algumas semanas para esquecer e convencer-se de que, na realidade, nunca amara 
Josui, passaria a cortejar Cynthia, voltaria a viver como antigamente e recuperar-se-ia. Isso agora tornara-se impossvel. Como podera continuar a viver, ela de 
um lado do muro de pedras e ele do outro?
A situao era insuportvel. Atravessou vagarosamente o
relvado em direco  casa e quase chocou com Harry, que
trazia uma bandeja de prata cheia de copos grandes. Suspeitou
ali o dedo de sua me e ordenou bruscamente ao velho criado.
-Leve isso para dentro, Harry. A menina Cynthia foi
para casa.
Continuou a caminhar a passos largos e encontrou a me parada  porta, visivelmente ansiosa. Era melhor liquidar o assunto imediatamente.
-Minha me, quero dizer-lhe, de uma vez por todas, que pedi Cynthia em casamento e ela recusou. Por favor, nunca mais me fale nisso.
- Allen! - exclamou A Sr Kennedy, com voz estrangulada. - Porqu?
- No deu nenhum motivo. - E, esboando um leve sorriso, acrescentou: - Talvez eu no lhe agrade. Ficou a olh-la, alto, belo e garboso de partir o seu corao
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de me, pensou ela, e viu o sofrimento que se ocultava atrs do
seu orgulho.
-Acho que voltarei para o Exrcito, me- disse Allen, vacilante.
- Oh! meu querido! - soluou ela e estendeu-lhe as mos. - Por favor! - tornou ele e, afastando-se, subiu as escadas para o seu quarto.
A Dr Steiner estava sentada com uma enorme toalha branca de banho estendida sobre os joelhos.
- Agora - ordenou. - Levante-o, Sr Markey, e -sente-o aqui nos meus joelhos. Eu enxugo-o, e ponho-lhe o talco... assim!
A Sr Markey, uma mulher magra, um tanto idosa, de vestido de algodo cinzento com pequenas flores brancas, ergueu cuidadosamente Lennie da sua banheira e colocou-o 
no amplo regao pronto para receb-lo. Ele sentou-se o mais aprumado que pde e sorriu alegre, embora com hesitao, para a Dr Steiner. A menos que sentisse alguma 
dor, o que s acontecia quando uma daquelas duas mulheres desajeitadas e boas o picavam por descuido com um alfinete, ou demoravam a dar-lhe a mamadeira, sorria 
sempre para uma delas ou mesmo para ambas. Os seus olhos asiticos, grandes e suavemente negros, cuja leve obliquidade lhes acentuava o tamanho, eram guarnecidos 
de pestanas extravagantemente longas e Curvas, nunca vistas em olhos orientais. O seu corpinho robusto e erecto, pequeno mas rechonchudo, os ombros quadrados, as 
delicadas mos que pareciam ptalas, o rosto simptico e alegre, a boca irrequieta e o nariz arrebitado provocavam verdadeiro xtase na Dr Steiner. Esta interrompeu 
o seu trabalho de enxugar, meticulosa e cientificamente, a criana adorada.
-Sr Markey - disse em tom professoral -observe as mos de Lennie, por favor. Veja as posies assumidas pelos dedos, o primeiro e o quarto estendidos, assim como 
o polegar, enquanto o segundo e o terceiro ficam dobrados, os movimentos
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da dana na Birmnia e no Sio, de onde foi levada para outros pases e, sem dvida, tambm para o Japo. Quer dizer que os criadores de bailados asiticos tomaram 
os primeiros movimentos da criana como expresso fundamental da mo humana.
A Sr Markey era uma mulher inculta, mas olhou respeitosamente para as mos de Lennie. Voavam como pssaros pelo ar, e o menino quase danava sobre a base segura 
daquele regao, parecendo querer arremessar-se no espao. Todo ele resplandecia, cheio de covinhas e sorrisos, vivido como a gua corrente e a luz do sol, diferente, 
ela bem o sabia, dos seus prprios filhos um tanto desgraciosos, um dos quais, depois de homem feito, fora apodrecer insepulto nas selvas de alguma ilha. Quando 
ela gabava Lennie, os vizinhos diziam-lhe:
- Como pode ser to louca por um menino japons?
- Lennie no  japons - respondia ela. -  diferente de qualquer criana que  j vi em toda a minha vida.
- Ainda por cma o seu filho foi morto por um japons -
diziam com crueldade.
O seu corao ainda sangrava quando lhe falavam em seu filho, sam, mas respondera:
- No foi Lennie que o matou, tenho a certeza.
Como poderiam os estpidos vizinhos entender o que ela sentia?
Uma mudana inquietante se fez notar agora em Lennie. Um momento atrs, estava radiante como uma manh de sol, mas, de repente, uma expresso aflita sombreou-lhe 
o rosto inteligente. Olhou com ar reprovador para a Dr Steiner, em quem j reconhecia a figura central do seu mundo. A boquinha cor-de-rosa comeou a tremer e grossas 
lgrimas surgiram nas pestanas - uma nova ddiva, o aparecimento dessas lgrimas!
- Depressa! - gritou a Dr Steiner, agitada. - Est com fome. Perdemos muito tempo, sim, meu amor! A mamadeira, Sr Markey!
A Sr Markey correu a busc-la. Ao receber a garrafa, a
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mdica apalpou-a cuidadosamente. No estava fria nem quente
de mais. Pousou-a, enfiou uma camisa de mangas curtas
em Lennie e pregou a fralda em redor das suas coxas grossas
e fortes. Ele mal suportou a demora, empregando o mximo
esforo da vontade, agitando violentamente as mos' e os ps.
- Ora, ora! - disse a Dr Steiner, como a desculpar-se.
Sou muito vagarosa, eu sei. Aqui est a mamadeira.
Ele estendeu as mozinhas num gesto muito precoce, segundo observou a mdica, e, agarrando aquela forma que lhe trazia alimento, enfiou-a na boca, onde se concentrava 
agora toda a tortura da sua fome. Reclinou-se sobre o cmodo travesseiro que era o antebrao da Dr Steiner, com o corpo imobilizado na consumao, e fitou contemplativamente 
o rosto grande e bondoso curvado sobre ele. Pequenos rudos, dos quais no tomava conhecimento, eram produzidos pela Sr Markey, que esvaziava a banheira e removia 
os restos do ritual dirio de limpeza, enquanto a Dr Steiner, como de costume quando tudo estava em ordem, dissertava sobre Lennie.
Completei os testes ontem, sabe, Sr Markey?
- Completou? - murmurou a outra, com revolta na voz. Considerava crueldade e at perversidade submeter a testes uma criaturinha to pequena e perfeita. Como se Lennie 
precisasse de testes, como se qualquer pessoa no visse que era a criana mais perfeita que j existira.
-Terminei todos os testes, inclusive os neurolgicosdisse a Dr Steiner na sua voz forte e decidida. O quociente de inteligncia dele  o mais alto que encontrei 
num ser humano desta idade. , de facto, maravilhosamente elevado.
- Gostaria que no chamasse a Lenie um ser humano - disse a Sr Markey, com aspereza.
A mdica fitou-a de olhos arregalados. - Porque no? - perguntou.
- D a impresso de uma criatura comum - observou a Sr Markey. - Ele no  um simples ser humano.  o beb mais gracioso, o menino mais querido do mundo!
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Lennie, ouvindo-lhe a voz, olhou-a de esguelha e ela ficou
arrebatada de amor.
A mdica irrompeu numa gargalhada retumbante. - Markey, voc no gosta nada dele!
A outra levou a mo  boca para esconder os dentes quebrados, num gesto que fazia sempre quando se via compelida
a sorrir.
- No sei porque ... no posso saber. Apesar de todos
os filhos que tive, e de que um deles se foi para sempre, cada
vez que o pequeno Lennie me olha, sinto como se se derretesse
gelo dentro de mim.
Lennie afastou a madeira e o leite correu-lhe pelo queixo. Sorriu o sorriso de um anjo do cu e voltou-se com interesse para a mulher grandalhona. Que diria ela 
quilo?
A Dr Steiner olhou-lhe o rostinho sorridente. De sbito pensou nas criancinhas mortas pela fome, assassinadas, enfiadas nas pontas das baionetas, atiradas aos montes, 
crianas que tinham morrido pelo que seus pais eram: judeus, catlicos, rebeldes, os odiados, os temidos, os desprezados. No suportou' a ideia de que Lennie pudesse 
ver nos seus olhos at mesmo uma sombra dessas lembranas. Era to sensvel, to arguto, no seu crebro entesouravam-se as ddivas do mundo inteiro. Deitou-o contra 
o ombro e sentiu os cabelos macios, de um castanho avermelhado, roarem-lhe a face. J aquele menino era forte, calmo, inteligente e brincalho. Reconhecia-o pelo 
que era e curvava-se com humildade ante o que viria a ser um dia, ela, a escolhida, a virgem velha e feia. A ignorncia no era capaz de discernir o que havia nele, 
a ignorncia dos de esprito estreito e dos de corao pequeno, porm ela, ela saberia. Dentre todos os que estavam perdidos, salvara aquele menino.
- Que florao! -murmurou. - Que florao existe aqui!
E, triunfante, ficou a balanar-se de um lado para outro, batendo de leve nas costas de Lennie.
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NDICE
PRIMEIRA PARTE         7 SEGUNDA PARTE ... . 145
TERCEIRA PARTE        187
QQUARTA PARTE         245

FIM DO LIVRO
